  RITA FERRO




UMA MULHER
NO CHORA


    Nunca se ama como nas histrias: nus e para sempre.
   Amar  lutar constantemente contra milhares de foras
                 escondidas que vm de ns ou do mundo.
           Contra outros homens. Contra outras mulheres.


                                            Jean Anouilh
                                                         I

         Sa de casa nessa noite com a sensao dramtica que nada de extraordinrio me iria acontecer.
         Pode parecer ftil, mas nenhuma outra coisa me  to difcil de suportar.
         Tinha-me falado a Mafalda para me desafiar para uma borla no Tivoli. No era teatro, desta vez,
mas uma orquestra de cmara tocando no sei o qu de Beethoven.
         Nessa poca, fugia dos clssicos sempre que podia.
         Obrigavam-me a ceder a uma coisa mais forte do que eu e era possvel que no tivesse nascido com
humildade para isso.
         Talvez o gnio me fizesse sentir inferior, no fao ideia.
         A verdade  que experimentava sempre a mesma relutncia em abdicar de mim mesma para me
entregar a todos aqueles sons portentosos que me comoviam como a uma criana e me imobilizavam como
um colete de foras.
         S os concertos a meio da tarde me aliciavam. Dissolviam-me a ansiedade aos primeiros acordes e,
s vezes, faziam-me dormir profundamente.
         Fui ter a casa da Mafalda com meia hora de atraso; a Pilar j chegara.
         Era um junho quente e ambas tinham calado meias de vidro, como mandam as noites de gala.
         Vendo-me chegar com uma saia de sarja e uma camisola de linha verde-claro, desataram aos gritos,
furiosas, dizendo que aquela minha figura as tornava patticas.
         Tive de concordar, ainda que o contrrio fosse mais verdade - aquilo no Tivoli era uma estreia.
         Desculpei-me com um dia absolutamente masculino que comeara s seis da manh e que, pelos
vistos, ainda no tinha terminado.
         Estava assim vestida desde que me levantara e nem me ocorrera mudar de roupa.
         Impressionada com o meu desmazelo, pedi  Mafalda:
         - Empresta-me um vestido, depressa, mas nada de espampanante! No quero nem encarnados nem
verdes, que ainda me ponho para ali a chorar...
           Interessaram-se vagamente:
         - O que  que tens? - estranhou a Pilar.
         - Que tal este azul? - props a Mafalda, abrindo o armrio e puxando de um cabide.
         Ainda nos rimos porque foi o cabo dos trabalhos encontrar um vestido que me servisse. Logo por
azar, a Mafalda tinha o corpo exactamente contrrio ao meu: ancas largas e peito pequeno.
         Escolhi um vestido de linho caf-com-leite com casaqueta igual, de bandas brancas, no por ser o
mais bonito, mas por ser o nico que me cabia em trs metros de roupeiro.
         - O fecho est estragado, mas com o casaco disfara contemporizei, endireitando as costas ao
espelho e disfarando o cansao. - O que dizem vocs, minhas paspalhos?
         - O pior de tudo so os sapatos... - disse a Pilar, chumbando-os sem complacncias. - Esses sapatos
no vm a propsito...
         Tinha razo.
         Os sapatos eram de salto alto e de rfia azul, impossveis de combinar com aquele bege.
         - Estpidas - gritei, nervosa. - De que  que esto  espera para chamar um txi?
         - J chammos - sossegou-me a Mafalda a remexer numa arca. E logo a seguir, magnnima: -
Experimenta estes...
         Eram lindos, italianos, forrados e frgeis os sapatos que ela me convidava a provar. No havia
muitas mulheres capazes de emprestar sapatos.
         - Servem-te? - perguntou.
         - Espera... - pedi, enfiando a custo o p direito.
         - Ento?
         - Ento, nada. No me cabem.
         - Leva os teus, ningum repara! - simplificou a Pilar. E j da janela da sala: - O txi chegou,
despachem-se!
         Tnhamos oito minutos para descer dois andares a p, chegar ao teatro, pagar a corrida e entrar na
sala, mas nenhuma delas me censurou pelo atraso.
         Era o que faltava: todas as mulheres do mundo fazem o mesmo.
         Antes de entrar no txi a Mafalda escorregou na calada e, para no se estatelar no cho, colocou
mal um dos ps e partiu um salto.
         O motorista estava impaciente porque um coro de buzinas furiosas zurrava atrs de si.
         Com a pressa, a Pilar fez uma malha na meia com a garra do anel, ao pousar a carteira no cho, e eu,
assim que entrei no carro, verifiquei que naquele pequeno trajecto tinha perdido um brinco de ouro.
         Passei o resto da viagem a enfiar as mos nos estofos, cheia de
        nojo, para ver se o encontrava, e por isso nem tempo tive de perguntar o que ia ouvir.
           Quando chegmos, estava com medo de que algum reparasse, por debaixo do bolero da Mafalda,
no fecho-clair desapertado.
           Contra tudo isto, Beethoven?
         Adormecemos as trs, no por o concerto ser mau, mas por ser bom demais; acordmos com as
luzes a trespassarem-nos as plpebras e uma profunda estranheza.
           A Mafalda at tinha pregas  volta dos olhos, como quem acorda numa cama verdadeira.
           Rmo-nos.
           Ramos tambm daquela pressa de viver, que nem o cansao vergava.
           Estvamos ali, as trs, juntas, e talvez nos lembrssemos do que isso valia.
           - E agora? Vamos j para casa?
           - Vamos jantar!
           - Onde?
           Pedimos bifes.
           - A partir da meia-noite j ningum faz dieta! - disse eu, proibindo os escrpulos.
           - Nem pode. Nesta cidade, as batatas fritas so obrigatrias!
           Era indiferente o que se dizia. Havia coisas mais importantes que se trocavam ao mesmo tempo.

        ***

       A Mafalda conhecia os jornalistas da mesa ao lado e eu reconheci apenas um deles.
       - Aquele no  o ... ?
       - . No digas o nome. Cala-te. No fales alto...
       - Achas que ele  ... ?
       - De certeza. No se v logo pelo gestos?
        assim a conversa das mulheres: rpida, cifrada, inclemente.
       - E o outro?
       - Espera....
       - No  aquele que escrevia crnicas de cozinha no...?
       Citaram-se trs jornais.
       Nenhuma de ns conseguia lembrar nem o nome da coluna, nem o do jornal, nem o do autor, e muito
menos h quanto tempo fizera ele crnica gastronmica.
       Este tipo de pormenores no  importante para as mulheres. Podia ter sido h dois anos ou h dez.
O homem fizera sucesso
       s isso. Tudo de que precisvamos para o passar a pente fino.
       A Pilar disse que ele no sabia escrever; a Mafalda, que lhe faltavam maneiras; e eu, como se no
bastasse, acrescentei que a gravata era obscena.
       Nada que, realmente, lhe retirasse interesse.
       - Est a olhar imenso para ti... - disse  Mafalda.
       - No olhes - rogou ela. - No ds confiana...
       Rindo, concordvamos que apesar da gravata de um e dos trejeitos do outro, estaramos receptivas
a uma abordagem qualquer.

        ***
        Foi o cronista quem primeiro se levantou para nos cumprimentar. Disse qualquer coisa que nenhuma
ouviu muito bem. Estava ali. Nas nossas mos. E a excitao era essa.
        Perguntou se podia sentar-se. Depois, sem sair da nossa mesa, apresentou-nos o amigo que tinha
ficado na dele. O amigo juntou-se a ns e, com ele, um terceiro cavaleiro que chegara mais tarde e me
chamou a ateno por ser escuro, distrado e absolutamente desconhecido.
        Fixei-me nesse.
        Sempre que deparava com um estranho  minha frente apetecia-me imediatamente dizer-lhe:
"Obrigada! Obrigada por seres uma cara nova e eu nunca te ter visto! Nem calculas como te estou
agradecida! Nem sonhas como  bom saber que vocs no acabam, que quando se pensa que acabam h
sempre mais! "
        Falou-se de jornais, de revistas, de artigos de opinio.
        Dissemos coisas que outras pessoas j tinham dito. Mesmo assim, os cavalheiros pareciam
agradados.
        - Tenho de me ir embora - disse a Pilar levantando-se. -  a terceira noite que me deito tarde. E
quem paga so os meus alunos!
        Talvez estivesse sentida por nenhum deles se lhe dirigir directamente. Perdia em relao a ns e
nenhuma mulher aguenta.
        -  professora? - interessou-se um.
        - Sim, de jornalismo... - respondeu ela, recuperando o sorriso. E voltando a sentar-se: - Mas no me
gabo...
        Mais meia hora a falar de Educao, de poltica, de ninharias.
        A Mafalda e eu disfarmos bem que no percebamos nada do assunto. To bem que eles ficaram
balbuciantes ao p de ns, impressionados.
        Por muito que se evolua, os homens continuam a espantar-se com mulheres espertas.
        Era, alis, uma das nossas perfdias mais tpicas: fingirmos que sabamos mais do que sabamos, e
demonstrar-lhes que os conhecimentos deles de pouco valiam ao p da nossa intuio.
        No era sempre verdade, mas com alguma experincia at parecia.
        Comearam as anedotas.
        Primeiro de alentejanos, depois de irlandeses, a seguir de belgas, e teriam comeado as de
africanos se eu no me tivesse insurgido:
        - Cuidado! No  a mesma coisa...
        Concordaram e eu ganhei pontos pelo meu carcter um verdadeiro brinde com que no contava.

       ***

        Era estpido. Os estranhos no eram melhores do que os outros. Nem piores. Mas enquanto
durava a dvida valia a pena acreditar.
        - Ol!
        - Ol, boa noite...
        - Costuma vir aqui?
        - Quase nunca. j reparou que a sala no tem uma nica janela?
        Que bom que era!
        Poder comear do zero a qualquer momento, fazer tbua rasa de todas as imperfeies, e tentar
uma verso mais depurada junto de algum que no andava, porque no podia, atrs de mim de espelho em
punho.
        - Como  que se chama?
        - Vasco.
        - Vasco?
        - Sim, Vasco. E voc?
        - Eu chamo-me Ana. Mas no sou Ana Maria, nem Ana Cristina, nem Ana Teresa. Sou s Ana...
          Era curiosa aquela minha capacidade de me reinventar atravs
        dos outros, de estrear uma personalidade nova aos olhos de algum que acreditava apenas no que
via e no que ouvia at lhe provarem o contrrio.
         - Ela est na defensiva, percebe? Desde pequena que detesta o nome que tem!
         Fora a Mafalda que falara, mas poderia ter sido a Pilar. Ao lado de um homem novo, qualquer uma
se transfigura.
         -  verdade - concordei sem afinar. - Ana  um nome curto demais e sem qualquer mistrio...
         Mas o Vasco dizia, cavalheiro:
         - Eu gosto do seu nome, sinceramente. Tenho uma av chamada Ana que sabe fazer arroz-doce
como ningum...
         Ns e a culinria: um estigma de que nunca nos livraramos.
         - No calcula a ternura que me faz ver-me associada  sua av... - brinquei. - No se importa de, a
partir de agora, passar a chamar-me av Ana? Tem outro peso especfico...!
         E enquanto o Vasco sorria, prestando-se com mansido quele jogo, a Mafalda reincidia:
         - E a verdade  que j podias ser av!
         Os conhecidos, esses sim, imobilizavam-me.
         Inibiam-me de arriscar outras ideias, de recrutar outras facetas, de me libertar de uma vez por
todas do estigma empedernido das minhas caractersticas.
         Bastava-me olhar as minhas amigas para me aperceber do risco que havia nas velhas relaes:
qualquer tentativa que implicasse novidade de atitude era acolhida com desconfiana, tomada por pose ou
exibio e invariavelmente punida.
         Havia pessimistas que sustentavam que o contacto com os outros era pura perda de tempo, mas eu
nunca achara. Para suportar os velhos amigos, precisava ciclicamente de renovar o meu cardpio de
relaes para me oxigenar em pessoas novas.
         - Fuma?
         - No fumo.
         - Nunca fumou?
         - Sim, durante dez anos.
         - E tem saudades?
         A verdade  que a pessoa nova podia no me aceitar to incondicionalmente, mas revitalizava-me
por isso mesmo; no me conhecia e esperava tudo de mim, no me exigia coerncia porque no podia
conferi-la, no se surpreendia porque nunca fora desapontada, trazia-me notcias de outros mundos e de
outros moldes de vida e, mesmo que me desiludisse, acrescentava-me sempre qualquer coisa.

       ***

          Olhava para ele e a minha expectativa aumentava.
          Tinha cabea, tronco e membros como os outros, mas qualquer coisa me dizia que lutava para
sobreviver  massificao dos corpos e das palavras e resistia.
          Talvez estivesse ali para se fingir parecido.
          A normalidade  importante, sobretudo quando se pretende conservar secreta uma qualquer
dissidncia.
           mais segura.
          Mas tambm era possvel que estivesse ali para aprender a ser igual.
          No sabia, nem poderia comprov-lo.
          Naquele momento, sabia apenas que ele no se ria como os outros nem dizia tantas coisas.
          - Se tenho saudades de fumar?
          - Sim?
          - s vezes. Depois de um bom jantar.
          No era bonito nem feio, mas trazia os dentes em bom estado e as calas engomadas. Da, eu s
podia depreender que no se tratava de um delinquente ou de um artista.
          Era pouco.
          Isolei-me da conversa para o observar, e as minhas amigas
        acharam que eu no estava to divertida como parecia ao principio; mas eu precisava do tempo que
levaria a desmenti-las.
           Disse-lhes apenas:
           - Estou s calada.
           Sem querer, comeava a ajustar o meu comportamento ao de algum que, sem fazer nada por
isso, se impunha aos meus olhos e exaltava a minha curiosidade.  mais bonita - Voc - segredou-me ele de
repente. -  mais bonita do que as suas amigas...
         No sou - neguei, corando. E chegando a boca ao seu ouvido: - Mas voc s vai descobrir quando eu
deixar...
         Podia no ser uma atraco vulgar.
         De vez em quando acreditava que o ser humano era capaz de encerrar e transmitir coisas mais
fecundas do que o sexo, e que a pele, quanto muito, podia servir de ponte para o descobrir.
         Quando o olhar  deficiente, o tacto pode ajudar alguma coisa.
          amigo deles? - perguntei, com a voz diferente.
         Talvez - respondeu ele. - Hoje em dia exige-se to pouco de uma amizade...
         Podia ser esta frase, ou outra mais breve ainda, mas eu fascinava-me sempre ao verificar que dez
palavras escolhidas podiam significar muito mais do que dez palavras quaisquer - a resposta do homem
lanava-me uma escada.
           Dei comigo a hesitar.
           Devia acender um cigarro para reprimir a tentao de subir o primeiro degrau, mas no resisti e
levantei o copo que tinha nas mos.
           - Gosta disto?
           - No bebo.
           As palavras eram as mesmas de tantos outros, mas eu apostava que, dessa vez, os motivos
poderiam ser mais interessantes; mas no sabia se era esperana ou intuio, nunca se sabe nada.
           Ignorava se ele era abstmio, se cumpria uma desintoxicao, ou se, pelo contrrio, tinha fibra
suficiente para se sentir desfasado num stio e aguentar, sem lcool, esse desajuste.
           Sem querer, dei comigo a observ-lo com os olhos muito abertos.
           - Por que me olha assim? - perguntou, admirado.
           - No sei - balbuciei, apanhada em flagrante. - s vezes olhamos para as pessoas, outras vezes
isso no basta...
           E atrapalhada:
           - Nunca lhe acontece?
           Mas ele no respondia; limitava-se a suspirar com o ar esquivo de quem acha que no vale a pena,
e eu lastimava que a anterioridade das pessoas fosse um pas to distante.
           Por muito que me esforasse, nunca conseguiria desbravar aquele homem em to pouco tempo.
           - Deixe l - disse, para o safar. - Tenho a mania de me aventurar, mas ainda no sou boa nisto...
           Dizia-o renunciante, derrotada mesmo, com um profundo desgosto de me sentir incapaz de
comunicar com aquele ser. Mas ele fez-me uma festa na cabea naquele momento, meiga e inesperada como
um prmio de consolao, e a conversa soltou-se de repente.
           J no havia embarao, mas a chave do mistrio deixara subitamente de ser tangvel.
           - Gosta de cinema?
           - Adoro!
           - J viu o ltimo Lynch?
           - Deus me livre!
           Agora falvamos e ramo-nos como os outros, mas fugiramos juntos, certamente, daquela sala
impropcia.
           - Acredita em Deus?
           - No. Acredito na minha me que me jurou que Ele existia!
           Se tudo corresse bem, j poderia sair com ele durante anos, viver a seu lado, ter filhos seus, mas
o que ficara por dizer naquela noite no voltaria a ser aflorado; deixara fugir a nica oportunidade de
auscultar aquela alma porque o esforo que ele faria para me agradar naquela noite continha o de me
desagradar no futuro. E isso turvava as guas, impedia-me de as ver  transparncia...
        - Voc tem umas mos bonitas.
        - Voc tambm.
        - Est a brincar. As minhas, so de lenhador!
        - Por isso mesmo. Que alguma coisa vos tenha ficado!
        Agora, sim.
        Poderia vir a am-lo no pelas coisas que ouviria da sua boca, mas por essas outras que estivera
prestes a ouvir e que, por acidente ou incapacidade, no lhe conseguira arrancar.
          Era importante, at porque sabia que me poderia limitar a amar uma suspeita e a entregar corpo
e alma a uma probabilidade sem confirmao.
          No me apetecia, mas j no ia a tempo.
          Ao contrrio dos pesadelos, que parecem durar noites inteiras e que demoram instantes, h
momentos da realidade que se esboroam em segundos e nos podem iludir para sempre.

       ***

        Comeavam todos a olhar para os relgios quando arranjei coragem:
        - Apetece-lhe ir a outro stio? No tenho sono nenhum...
        Com a Vida tem de ser assim: incit-la e esperar pela reaco.
        - Danar? - perguntou ele, alarmado.
        - Passear! - propus cheia de energia.
        A Mafalda e a Pilar olhavam uma para a outra, cruzando cdigos, mas eu abordei-as sem tirar os
olhos dele:
           - Alguma de vocs quer vir connosco?
           Exclua os outros, que me no interessavam, e dava-lhes a elas uma hiptese cnica de me
acompanharem.
           Felizmente, nem uma nem outra se lembrou de me dar uma lio. Poderia voltar-se contra elas e
no estiveram para isso.
           - No. Ns vamos indo...
           Os outros surpreenderam-se por uma to rpida debandada.
        Ainda no tinham percebido que eu estragara tudo.
           - Tm carro? Querem boleia para algum lado?
           Mas elas j nem os ouviam:
           - Foi ptimo este bocadinho!
           - Continue a escrever para ns continuarmos a engordar!
           E esses dois, que se tinham levantado por cortesia quando a Mafalda e a Pilar saram, olharam
para ns e desanimaram. A tal ponto que j no tiveram coragem de se voltar a sentar.
           Despediram-se.
           Um deles ainda amargou, levemente despeitado, referindo-se ao meu acompanhante:
           - Tome cuidado com esse a, que no  flor que se cheire...
           E eu logo:
           - E a sua? A que cheira a sua flor?
           A frase no tinha intencionalidade alguma, mas soara mal.
           Despediram-se num esgar, to gorados quanto elas, e eu tinha pesado tudo antes de fazer o que
fiz.
           Confessei-lhe logo:
           - Desculpe esta maldade mas, de toda esta gente, sinceramente, apeteceu-me ficar sozinha
consigo...
           Pacincia. J l ia o tempo em que era capaz de prescindir de tudo s com medo de uma avaliao
desfavorvel.
           - Ora, que importa isso! - disse ele, com um sorriso terno. - Houve uma seleco natural....
           Muitas vezes, demasiadas vezes, preocupara-me em no fugir s expectativas dos outros,
cobarde em contrariar os seus veredictos, desmoralizada pelo seu cepticismo, acorrentada  sua
aprovao, como se o gozo da vida no fosse explor-la permanentemente e a todo o custo e ela prpria no
fosse um trabalho para se ir corrigindo.
         - Voc tambm pensou o mesmo? Tambm lhe apeteceu ficar sozinho comigo?
         Ele riu-se, contagiado por tanto ardor, e eu tambm, espantada com a minha audcia. Provocara
toda aquela situao e agora tinha um pouco de medo do que se iria passar.
         Reparando na minha expresso perdida, ele sondou: - Est arrependida ou com medo de mim?
         - No, no - disse eu. - Mas confesso que essa pergunta me sossegou. Pelo menos, tem
sensibilidade...
         E sem querer pensar mais:
         -  pessoa para me levar  praia a esta hora? Tem carro? Gostava tanto de ouvir o barulho do
mar...
         E atordoando-o:
         - Est uma noite bonita, no est?
         Mas estava era com medo de que ele achasse que eu era daquelas destrambelhadas que se
encontram  noite, com apetites extravagantes.
         E no era?
         Mas ele no pensava nada disso, que mania a nossa. Sem que eu esperasse, olhou-me nos olhos para
me perguntar se eu acreditava no destino.
         A pergunta era to antiquada que cheguei a alarmar-me: o homem seria parvo?
         - Sei l. Prefiro no acreditar...
         Quis perceber e eu expliquei-lhe: ainda que houvesse um sortilgio divino, uma conjugao astral ou
um qualquer poder misterioso que fixasse de modo irrevogvel o curso das nossas vidas, reagia sempre com
a maior rebeldia a tudo aquilo que pudesse fazer de mim uma folha ao vento.
         E ele riu-se, tacteando:
          ento por uma questo de orgulho que no acredita no destino?
         - No - neguei, frustrada. -  que para alm da morte, da doena, ou quanto muito do escrpulo, o
que lhe posso dizer  que ainda no conheci nada de verdadeiramente inevitvel nesta vida...
         - Nunca? - estranhou ele.
         - Nunca - sustentei. - Chame-me simplria, se quiser, mas acredito sinceramente que no existe
fora superior  da nossa vontade...
         E ressalvando:
         - Se voc me disser que o meu destino deste dia foi t-lo conhecido e ter gostado de si, nessa
altura eu rendo-me sem resistncia. Mas s depois de voc me provar que isso estava traado na palma da
minha mo, compreende?
         Ele ria-se, eu defendia-me:
         - Repare: se houve um destino nisto, foi s porque eu arregacei as mangas e colaborei!
         Ele meditou durante um instante para condescender sorrindo:
         - Talvez. Talvez que para o homem livre o destino j no passe de uma proposta facultativa. Mas...
         - Mas, o qu? - perguntei, curiosa.
         - E tudo o resto que determina a existncia? Os acasos, as coincidncias, as circunstncias e os
infortnios que juntam ou separam as pessoas?
         - Tudo isso - disse-lhe -, longe de expressar um sentido oculto, tem pelo contrrio uma total
coerncia...
         E agarrando-lhe na mo, sem dar por isso:
         - No  destino,  vida!
         Ele no insistiu e eu reparei que parecia cansado quando pagou a conta e se levantou, respondendo a
algo de que j me esquecera por completo:
         - Tenho carro. Mas temos de encontrar uma bomba aberta, porque eu no imaginava que ia partir
de viagem...
         Perguntei por instinto:
         - No  casado, pois no?
         - Sou - disse ele. E notando o meu ar petrificado. Assustei-a?
        - No, no... - fiz eu.
        Mas naquela atrapalhao revelei mais do que queria revelar; no estava desapontada por ele no
representar uma companhia plausvel, mas por implicar mais trabalho do que imaginara.
        - Desiste? - desafiou ele.
        - No sei... - disse, desalentada. - Mas tem de me incentivar um bocadinho, porque as minhas pernas
j no me obedecem...
        Era verdade.
        Tinha dito o que realmente me ia no corao, mas isso no constitua, em si, virtude alguma. Queria
muito ir passear com ele, mas aquela histria j me fora contada tantas vezes que j lhe sabia o fim de cor
e salteado.
        Era uma anedota que eu j conhecia.
        - A minha mulher no est na cama  minha espera, se  isso que a preocupa - disse ele. - Est a
divertir-se a esta hora, com um grupo de amigos, e s volta para casa de madrugada...
        Mas no era a mulher que me preocupava:
        - Porque no foi com ela?
        Ele no respondeu e eu aprovei. Ningum percebe coisas to depressa.

       ***

        J no carro ele falou, num tom que no pretendia comprometer-me:
        - Sabe? Vocs hoje em dia so muito mais despachadas do que ns! Quando me juntei  vossa
mesa, nem me passou pela cabea ter hipteses com alguma de vocs...
        - Hipteses?
        - No, no  o que est a pensar. - disse ele, aflito. E explicando: - Hipteses de vos despertar
qualquer espcie de curiosidade...
           - Porqu? - provoquei eu. - No costuma fazer sucesso com as mulheres?
           Mas ele no tinha acabado:
           - ... Ns no podemos saber, percebe? Se vocs tm namorado, se gostam de ns, se embirram
com a nossa gravata, se no nos gozam nas costas. E essas vossas alianas so tudo menos erticas, sabia?
           - Tem medo de levar tampas? - abreviei, muito prtica. - justamente - confessou ele. -  muito
desagradvel levar uma tampa. Ficamos assim, desajeitados, como se no percebssemos nada a vosso
respeito...
           E rematando:
           - Ningum gosta de fazer figura de parvo!

       ***

         Estava perante um homem possvel, via-se logo.
         - Voc  querido, voc no abusa... - disse-lhe, descendo o espelho.
         - S se voc no deixar. . confessou ele, expedito.
         Mas o diagnstico acabara, j no tinha medo dele.
       - Deixe l as coisas correrem, isto no  nenhuma urgncia!
         - No ?
         - No. Voc  casado, no ?
       - Sou - disse ele. - Mas tenho a mesma urgncia que voc tem...
       - De qu?
       - De que algum me ajude a sentir bem!
       -  mesmo isso?
       E ele confessou, infantil:
       - Para j  o que eu sinto, desculpe. Voc desafia-me a imaginao, no tenho culpa...
       Gostara daquela resposta. Revelava aquela incapacidade de mentir com eficcia, to prpria dos
homens, por que qualquer de ns era capaz de se apaixonar.
         Nem era bem incapacidade; era falta de empenho e, por muito que os motivos nos rebaixassem,
pareciam-me, naquele momento, mais nobres do que os nossos.
         Toquei-lhe com os dedos no pescoo, sem querer, e ele encostou imediatamente  berma. j
tnhamos passado a ponte.
         - Tem a noo do que est a fazer? - confirmei, prudente.
         No me referia exactamente  berma, e ele percebeu ao que eu aludia:
         - Tanta como voc..,
         E eu ri-me, para disfarar:
         - A verdade  que, at agora, voc no fez nada que me levasse a arrepender de ter tomado a
iniciativa...
         Era quase sempre assim a conversa de uma mulher que acabava de descobrir um homem: tctil,
jocosa, elaborada..
         No ouvi mais nada, e, contudo, falmos ainda durante algum tempo. Mas ele escutava-me a tocar-
me na cabea e na cara ao mesmo tempo e os ouvidos no devem funcionar muito bem nessas alturas.
         E enquanto falava, puxava-me a cabea para o peito e encostava a boca aos meus cabelos:
         -  bom estarmos aqui, no ? Olha se eu no tenho ido jantar fora!..
         - Olha se eu no tenho ido ao Beethoven! - falei baixinho. E alarmada por a sua mo me estar a
chegar s costas: No v por a! Tenho o fecho encravado!
            - Como vamos resolver isso? - perguntou ele.
            - No sei - disse eu. - No quero saber...
            E dei-lhe exactamente o beijo que me apetecia.
           - Linda. Voc  linda... - sussurrou-me ele, como se a beleza fosse o que ele sentira
            - Estamos s escuras - lembrei. - Como pode saber?

       ***

        No hotel aquela cama impositiva, enorme, de uma parede  outra, constrangedora.
          - Quer ir primeiro  casa de banho?
          Ele, muito atento a coisas que no se viam nos filmes, a coisas necessrias.
          - Obrigada, demoro um minuto...
          E agora? Despia-me ali e aparecia nua, assim, sem mais nem menos? Ou saa vestida da casa de
banho e aproveitava para me despir quando ele fosse?
          Eram questes diplomticas, numa primeira noite.
          No queria despintar-me, queria era tomar banho. Depois do banho, a pele fica menos submissa...
          Abri a porta da casa de banho e arrisquei:
          - Apetecia-me tomar banho...
          Ele j estava nu, claro; to nu que me fez baixar os olhos. Tinha um pouco de barriga, mas
estava-se nas tintas. S esta atitude desculpa as fealdades. Os complexos nada tm de atraente, de
facto.
        - J toma, venha c... - disse ele, com uma expresso cmica.
        Acedi e, ainda vestida, apaguei algumas luzes do quarto. Depois sentei-me na cama e, chegando-me
a ele de costas, pedi-lhe que tentasse desencravar o fecho.
        - No o estrague mais - implorei, sem lhe contar que o vestido no era meu.
        H tantas coisas que os homens no sabem a nosso respeito. Nem querem. Nem precisam de
saber. No entanto, ns pretendemos saber tudo acerca deles. E enquanto eles reconhecem o nosso
mistrio e o temem, ns contornamos o deles como se fossem desalmados.
        Desencravou o fecho com um despacho que me banzou. Pensei na mulher dele. No pensei mais na
mulher dele. Queria fazer perguntas. j no queria fazer perguntas. Ele resolveu o assunto, estendendo-
me na cama para conhecer o meu corpo.
          - Eu no lhe dizia que voc era bonita? Eu vejo s escuras, sabia?
          - No  voc, so as suas mos...
          - Talvez. Mas elas acabam de descobrir que voc perdeu um brinco!
        -  verdade. Desde ontem que ando s com um...
        - Dorme com eles?
        - Com o qu, com os brincos?
          - Sim?
          - s vezes - respondi. - Quando me esqueo de os tirar...
          Mas aproximava-se a prova de fogo, o preservativo, e no podia distrair-me desta vez. Tinha de
me apressar ou seria obrigada a fazer o teste novamente. Mais cinco minutos e seria tarde demais.
          - Tem medo da sida? - comecei.
          - Medo da sida?
          - Sim, medo da sida.
          Eu tinha.
          Revoltava-me que a Doena comeasse a revestir-se de um estatuto de imoralidade concludente,
com vantagem dos sedentrios sobre os errantes, mas sabia que me bastava arriscar uma nica vez na vida
para estar to sujeita a contra-la como um promscuo qualquer.
          No queria correr riscos.
          - Quer dizer - suspirou ele, esfriado. - No  um fantasma que me persiga constantemente ...
          E percebendo finalmente a aluso:
          - Quer que eu ponha aquilo,  isso?  melhor... - disse-lhe,
        penitente. E fechei os olhos.
          Doravante, todas as minhas relaes estariam condenadas ao desespero da noiva que beija o
namorado na priso com um vidro espesso a separ-los.
          - Tem a certeza? - tentou ele, em agonia.
          Era natural.
          Assistia com uma certa perplexidade ao conformismo das pessoas em geral, como se aquela
manga de plstico escorregadia e traioeira no comportasse a mnima possibilidade de afectar o
desempenho do homem ou desfalcar o prazer dos amantes.
          - Tenho - sustentei, ao v-lo s voltas com aquilo. E animando-o: - Sabe que isso que voc est a
fazer no  to pouco romntico como parece?
          - No ? - duvidou ele.
          - No - disse eu. - Devia at ser encarado como um gesto do mais belo e nobre cavalheirismo!
          Ele riu-se sem vontade:
          - Assim como devolver o leno a uma senhora? - No - expliquei. - Assim como estender a capa no
cho para ela no molhar os pezinhos...
          Ele fechou os olhos por instantes, interrompido no seu transe, e eu fiquei com a sensao de que,
apesar de todo o meu esforo civilizacional, o mais certo seria ele tomar-me por chata ou hipocondraca.
          - Pronto, j est!
          Nos primeiros encontros as coisas ou so muito fluidas, ou um pouco penosas. O que vale  que
toda aquela descoberta mtua era ainda, por enquanto, mais excitante do que o sexo.
          - Vamos ver como me porto. Se no desiludo esta menina...
          E s depois quis saber:
          -  casada? Tem namorado?
          E eu disse que gostara muito, claro, sem pensar no sexo propriamente dito. A verdade  que
gostara dele. Do sexo j no me lembrava muito bem.

       ***

         Seguia a meio de um cruzamento quando uma ambulncia apitou atrs de mim.
         - Atrs?
         No sabia se era atrs, se  frente, se ao lado. S sei que parecia silvar dentro de mim.
         -  minha senhora, afaste-se! No v que  uma urgncia?
         Lembro-me agora. Levava no carro a minha sobrinha Leonor e perguntei-lhe, assarapantada:
         -  Leonor, v l se consegues perceber donde vem a ambulncia...
           A mida rodou a cabea at poder, mas tambm no percebeu. E eu, transida por tanta presso,
ia afrouxando o acelerador e piorando as coisas.
           Estava atrs de mim, afinal.
           Quando me dei conta de que aquela hesitao provocara uma densa fila de trnsito, virei dali em
sentido contrrio direita  esquina de um passeio; e, apesar de estar em contramo, s me deu para travar
e desligar o carro.
           Os condutores que passavam eram obrigados a curvar drasticamente para no bater no meu
carro, atravessando assim, no meio da rua.
           Os insultos e as buzinadelas no me afectaram.
           A Leonor era muito parecida comigo. No meio da confuso toda que eu criara e do perigo a que a
sujeitava tambm, dizia-me:
           - A tia perdeu um brinco. Ou s usa um de propsito?
           E eu, sem responder, sabia que aquele rio na minha cabea nada tinha que ver com o homem que
conhecera na vspera e me deixara em casa ainda h bem pouco tempo.
           Era cansao, um cansao absoluto, e h muito que eu vivia acima das minhas possibilidades.
           -  a minha cabea que no est bem. No  normal, na minha idade...
           E preocupada:
           - Tenho de ir ao mdico...
           E a Leonor, achando que eu me referia  assimetria de brincos, julgava-me a delirar:
           - No exagere, tia, a mim tambm j me aconteceu!
           Que querida, a Leonor.
           Tinha-a levado  estao para ir ter com o namorado. Pedira-me dinheiro emprestado para o
bilhete e eu dera-lho sem sacrifcio nem mrito. Um sucesso como se lhe tivesse oferecido uma viagem ao
Brasil:
           - A tia tem a noo de que acaba de me fazer a pessoa mais feliz do mundo?
           - Sabes? - disse-lhe eu, contagiada. - Eu ontem conheci uma pessoa...
           Deu um grito como se acabasse de ser assaltada e lhe encostassem uma pistola  nuca:
           - No acredito! - E rogando, agarrada  mim: - Conte, tia, conte-me tudo!
           - Tudo, no posso - disse-lhe. - Ainda no cheguei ao tudo...
           - Ainda no? - perguntou, desconfiada.
           - Ainda no aconteceu nada de extraordinrio - disse eu.
           E suspirando, desanimada:
           - E, no entanto, todo o extraordinrio j aconteceu!
           - A cama? - transgrediu ela.
           - No - ri-me eu. - A expectativa!
           - J sabe tudo a respeito dele? - desconfiou a mida, lpida a seguir-me, mas apesar de tudo mais
nova.
           - J - E estranhando-me: - j estou cansada dele e s sei que se chama Vasco...
           - Vasco?
           - Sim, Vasco - E insegura, eu que j perdera toda a distncia para julgar aquele homem: -  um
nome estpido?
           - No, no  - sossegou-me a mida.
           Voltava a ligar o carro, mas s porque avistara um polcia. Podia estar ali a tarde toda com os
homens aos palavres  minha volta que no me faria diferena. Nem  minha sobrinha. Se fosse minha
filha, no seria mais parecida.

       ***

         A Mafalda telefonara no dia seguinte, a sondar o que se passara:
         - Ontem. Acabou em romance?
         - No exactamente - respondi.
         - Era simptico?
          - Por acaso at era...
          Desligou quase a seguir, despeitada com a minha reserva.
          O Vasco falara depois, estranhssimo como todos os homens. No me pedira o nmero de
telefone, procurara na lista:
          - Est l?
          - Estou, quem fala?
          - Sou eu.
          Tpica dos homens, esta convico absoluta na sua exclusividade.
          - Viva, bom dia!
          - Gostou da noite de ontem?
          To directo que, instintivamente, levei a mo  carteira para procurar um cigarro.
          A ns, mulheres, -nos sempre difcil a naturalidade. De tal forma que chegamos a acreditar que
nesta primeira fase, dbil, uma frase mal colocada pode deitar tudo a perder.
          - Noite? Que noite? - brinquei. - No me lembro de noite nenhuma...
          Ele riu-se e perguntou:
          - Ento, foi tudo sonho?
          - Tudo no - ri-me. E desafiando-o: - Adivinhe o que no foi sonho...
          - O fecho encravado?
          - No, o brinco! Encontrei o brinco!
          E logo ele, aproveitando:
          - Ento, temos que festejar! Quer jantar esta noite?
          Era sempre possvel encontrar uma monotonia, mesmo em coisas daquelas.
          - Se no se importar de jantar tarde, s saio com os meus filhos encaminhados...
          - Por mim est ptimo - disse ele. E sem transio: Vou busc-la?
          Enquanto lhe rezava a morada pensei na mulher dele. Quis perguntar-lhe se ele sabia o que
estava a fazer, mas era uma questo para colocar a mim mesma.
          - Dez horas  tarde? - propus.
          - Um bocado - achou ele. E logo a seguir, tornando-me cmplice da sua conspirao conjugal: -
No faz mal. O pior que me pode acontecer  jantar duas vezes...
          Fingi que no percebi porque no queria jogar aquele jogo. Que chato. Ele desconhecia os meus
bices e eu fazia teno de o poupar a todos.
          Castiguei-o desligando bruscamente, o que o deve ter desconcertado.
          Mal poisei o auscultador, tocou a Leonor:
          - Ento? O seu namorado falou-lhe?
          - No tenho namorado - respondi.
          E era verdade: o substantivo no se aplicava.

       ***

         Na manh seguinte o Vasco voltou a falar-me, a querer agarrar-se ao pouco que houvera entre
ns. Se no fosse ele, tinha a certeza, as coisas no teriam sequncia.
         - Foi bom, no foi?
         - O qu? - perguntei para chatear.
         - Ns. Ontem. L.
         - No lhe digo. S lhe digo quando me perguntar onde achei eu o brinco...
         - Na sua carteira?
         - Como adivinhou?
         - Est sempre l tudo. As carteiras das mulheres so labirintos escarninhos, pelo menos  o que
tenho ouvido...
         - Gostei - disse, respondendo quando eu queria e no quando ele queria. - Gostei imenso, foi bom.
         - E eu queria voltar a ver-te - disse ele, estreando aquele tu que nos excita. - Hoje tambm...
         Engoli em seco para desprender a voz:
          - Eu tambm gostava, mas...
          Ele seguia-me, ansioso:
          - Mas ... ?
          - Mas numa tasca qualquer porque no me apetece trocar de roupa. Quero ir como estou...
          E testando-o, como se o dia seguinte dependesse da sua resposta:
          - Importas-te?
          Mas os homens so mansos, enquanto no lhes chega a indiferena ou a vontade de nos punirem.
Desde que no nos achem feias ou velhas, tudo o resto  indiferente:
          - Importo-me s se no vieres. No quero saber dessas coisas...
          Era verdade, via-se que era verdade, e eu comecei a gostar dele a, precisamente, a partir
daquela resposta.
          Como se explicava isto a algum? Que me apaixonara por ele graas a uma resposta que traduzia
algum desprendimento?
          E ainda por cima era relativo esse desprendimento que eu lhe atribua. Naquele momento havia
prioridades, isso sim. E, para o Vasco, ter o meu corpo despido era, por enquanto, mais importante do que
ter o meu corpo bem ou mal vestido.
          - Ento, est bem. Vou contigo...
          - Que bom - disse ele. -  bom estarmos juntos!
          -  bom - concordei.
          Era verdade, mas no interessava muito. Tambm era bom ir ao cinema, ou comprar um vestido,
ou ler um livro, ou estar com as minhas amigas. Antes do amor, as prioridades baralham-se.
          - At logo, mida - disse ele, embalado.
          - At logo - devolvi eu, despindo a frase de qualquer vibrao.
          Espantoso.
          Toda a dissimulao que ns fazamos no podia ser seno sobrevivncia.
          Muitas vezes, aquele nosso discurso obscuro e absurdo, composto de avanos e retrocessos,
paradoxal e enlouquecedor para qualquer homem e com poder suficiente para o enfeitiar e exasperar,
mais no  do que uma manobra feminina inconsciente com dois sentidos ocultos: preservao e desforra.

       ***

          Estava a ver televiso quando desaguou na minha alma uma tristeza completa, calamitosa.
          Via o filme Pandora, com a Bisset e o Michael York, uma gravao da Cabo que eu trouxera do
ltimo jantar da Iga e onde tudo me parecera inveno: as pessoas, os aventais, os relvados, os penicos.
          Era tudo falso, para variar, e toda aquela beleza me entristecera como quando se descobre um
dos pais a mentir.
          Via-se um filme de trs horas e meia, ou lia-se um livro de seiscentas pginas, e agarrava-se,
quanto muito, uma ideia.
          Apenas uma ideia.
          O filme era sobre uma casa que no merecia as pessoas e s essa eu fixaria.
          Falou-me a Pilar, e ainda duas ou trs vozes inspidas para a minha filha adolescente.
          E at nisso eu cumpria, caramba!
          Como se a minha voz, ao telefone, desamparada de gestos e expresses, precisasse de ser
enfatizada para demonstrar alguma idoneidade aos amigos da minha filha.
          - Fala mais tarde. Correu-te bem o teste? Quando  que apareces? j tiraste os pontos do
joelho? Os teus pais tiraram-te a moto?
          Era isso. Eu era me de todas aquelas crianas, a Iga tinha razo. As crianas eram de todas,
pertenciam a todas, eram todas nossos filhos, sadas dos nossos teros. Ningum tinha autoridade para
dizer meu, a no ser que as amasse como eu.
          Mas a minha tristeza grande, completa.
          Sugestionada pelo filme, olhei para a minha casa e tive saudades de tudo, no caso de perder tudo.
As coisas estavam ali e eu senti, de repente, medo de as perder.
           Pensei nos santos e em todo o seu despojo. Pensei que Cristo nunca falava no amor pelas coisas,
como se no existisse
           E existia.
           Era um amor como outro qualquer. Era o que de mais constante tnhamos, que diabo, as minhas
coisas, as minhas testemunhas, as minhas fases!
           Para quem no tinha grande memria do passado - ou o enterrava como eu - as coisas adquiriam
uma importncia crucial.
           Vieram-me lgrimas aos olhos.
           Eu era infeliz? No, no era infeliz, era assim. Como toda a gente, alis: menos infeliz do que
supunha.
           H anos que me agarrava s adversidades para justificar a relao penosa que tinha com a vida,
mas, olhando para trs, com ou sem problemas, fora sempre assim.
           E a minha me? Dava-me ternura, ou era eu, afinal, que lha dava a ela?
           No interessava. Agora, eu tambm sabia que tudo podia ser mais prioritrio do que os filhos.
Os filhos s eram prioridade na medida em que ameaavam as nossas prioridades. E as minhas, no fundo de
tanto mimo e ateno para com eles, afinal, nunca eram eles.
           Via-se isso, claramente, nos divrcios. Um para cada lado e deixava-se de ir  missa, de comer 
mesa, de hidratar a pele, de lhes falar nos pssaros e de Deus.
           O arqutipo era demasiado forte.
           Os filhos eram a famlia, infelizmente, no valiam por eles e para valerem era preciso muito
esforo.
           J sabia como era.
           A prioridade era algum que dormisse connosco, entrasse na nossa casa de banho, nos amasse e
nos deixasse voar para onde quisssemos.
           Talvez injusta, mas essa.
           Tinha lgrimas nos olhos e a certeza absoluta de que me poderia desatar a rir com verdadeira
vontade no prximo telefonema que me fizessem.
           Era assim a minha infelicidade: sempre preparada para a felicidade. E s aparecia nos intervalos.

       ***

          - Sim? - novo telefonema, outra vez do Vasco. - Vasco? No me digas que queres estar comigo
outra vez, isto comea a arrastar-se...
          Eu tambm no gostava daquilo.
          Viver simultaneamente a amar, a defender a pele, a vingar as mes e a ajustar contas era uma
coisa cansativa. Mas era assim que eles nos obrigavam a viver: a despertar neles, constantemente, a
necessidade de nos conservarem.
          E o Vasco tacteava, corajoso:
          - Mas, como  que foi com os outros? Tambm eram assim? Descartveis?
          - Depende - disse eu.
          Incrvel: centenas de livros lidos, de viagens, de discusses, de demanda pessoal, csmica e
universal para, nestas alturas, s valeram as patacoadas e tudo o resto ser suprfluo?
          Quer dizer: eu estava-me nas tintas para a reaco dele. Era uma espcie de operao-suicida,
de um bluff em que poderia ganhar ou perder tudo e p-lo a fugir a sete ps. Um afecto de uma mulher
logo nos primeiros dias  algo de aterrador para qualquer homem.
          Veramos como reagiria este.
          Apetecia-me dizer-lhe gosto de ti porque era quase verdade, mas no lhe disse porque me
comprometeria a dizer mentiras a partir desse instante. Alm disso, estava com uma dor de cabea desde
manh que tornava tudo relativo.
          Eu no o amava, mas estava-lhe agradecida. Estava cheia de ternura, sim. No fundo, era isso: eu
amava-o, amava-o com todas as minhas foras, que eram nenhumas.
           assim, muitas vezes, a cabea das mulheres: todas as contradies possveis no mesmo
sentimento.
         Desde pequena que os paradoxos da vida me atormentavam. No sabia se aquilo era geral e se se
passava com toda a gente, mas eu tomava-o como um karma pessoal persecutrio.
         Desconhecia at se era um vcio meu, se da prpria vida que estava minada deles e se podia
subverter em todas as situaes.
           Ser e no ser. Amar e no amar. Poder e no poder. Existir sempre razo numa realidade e no seu
contrrio.
           Mudei de ideias.
           Resolvi experimentar o Vasco, no tinha nada a perder. Sentia-me masculina e feminina ao mesmo
tempo - uma deusa sem precedentes na mitologia:
         - Sabes? Eu gosto de ti!
         Ele calava-se, eu insistia:
         - A srio! Conheci-te h dois dias e j gosto de ti ...
           E preservando-me:
           - Quer dizer, no  amor-amor, mas  tambm amor, percebes? Ouve: ns demos beijos,
  adormecemos agarrados um ao outro, que diabo! Se isto no  amor, ento o que ? Achas possvel dar-se
  beijos a algum de quem no se goste?
         E a isto, a que tantos chamam perversidade, dever-se-ia em rigor chamar prudncia; no significa
que no amemos os homens, mas antes que o que mais desejaramos no Mundo era poder, tal como eles,
entregarmo-nos sem arriscar a vida.
         As palavras eram importantes para mim e ele j o tinha percebido. A sua voz estava portanto
lenta, assustada. Mas l conseguiu dizer:
         - Eu... eu no sei muito bem. Talvez seja cedo de mais para garantir, mas eu acho que tambm
gosto de ti...
         Nenhuma mulher aguentaria aquilo. Falava assim, com uma sinceridade escrupulosa que me comovia,
e ganhava-me a olhos vistos.
         - Ouve - disse-lhe, nas tintas para o recato. - Sabes onde moro, no sabes? Ests a trabalhar, no
ests? Ento sai da neste momento, desse escritrio repetitivo, e vem ter comigo agora. A srio, queria
tanto que viesses aqui. E agora mesmo, pode ser? Logo pode ser diferente, no prometo nada. Vem j,
tem de ser j...
           Falava depressa, para o aturdir a ele e no me ouvir a mim mesma:
           - Vens, no vens?
           - Eu vou - resolveu ele.
           Estava louco, ele tambm estava louco. Deixar o escritrio assim sem mais nem menos era
arriscado. De um momento para o outro poderia voltar-se contra mim.
           - Queres mesmo, querido, queres? - confirmei, vacilando.
           Mas depois perdi-me naquilo. No me aguentava em jogos por muito tempo.
           - Ou ser que ests com medo? Eu gostei de ti, caramba! Isso no  to esquisito assim, pois
no? Eu gostei de ti, tens um corpo quente, uma pele de mido, colaste bem a mim, quando abri os olhos
fazias-me festas nos cabelos, pagaste o hotel sem que eu me apercebesse, mandaste-me descer s depois
de te certificares de que no havia ningum na recepo, s sensvel e eu apetece-me amar-te! Neste
momento  a mesma coisa, entendes?
           Ele respirou fundo, no aguentando o meu flego, a minha vibrao e o meu discurso torrencial, 
espera de uma brecha para perguntar:
           - Moras no terceiro esquerdo?
           E ainda acrescentou qualquer coisa ao desligar. Pareceu-me "Seja o que Deus quiser", mas no
tive a certeza.
         ***

         Deitei-me no sof, a ferver de febre.
         Queria-o dentro de mim outra vez, pela primeira vez.
         Era uma histria nova, tudo recomeava ali, naquele instante, e ao novo no se resiste.
           No era casada, nem tinha ningum determinante no momento, mas mesmo que tivesse talvez no
pudesse resistir quilo.
           E distorcia tudo, para me absolver.
           Cus, a fidelidade!
           O que podia ter de asfixiante, e de letrgico, e de redutor, de
         tantas outras cargas negativas a grilheta da fidelidade para o resto da vida...
         "Devia ser proibida, condenada como um genocdio", delirava eu.
         E a transgresso podia ser uma coisa higinica, convencia-me. Qualquer dia os ecologistas teriam
de o reconhecer. Os cardiologistas diriam que fazia bem ao colesterol e  hipertenso arterial, e os
oncologistas tambm acabariam por dizer que a paixo, qualquer paixo, criava defesas contra as clulas
cancergenas. E, mais tarde ou mais cedo, acabariam por reconhecer que o prprio Evangelho, levado 
letra, diminua a esperana de vida das pessoas.
         A religio no poderia comportar esse contra-senso to grande por muito mais tempo e o prprio
Papa haveria de vergar com o axioma.
         Afinal no, que estupidez: que sentido faria uma transgresso consentido?
          Mas, no s a transgresso: a mentira era tambm importante. Ser sincero a todo o preo era
uma coisa desumana...

        ***

           Tocaram  porta.
           Eu sabia que era ele, no o conhecia bem ainda, mas sabia que era ele. O toque, o mesmo toque da
campainha do primeiro dia. O mesmo toque dentro de mim.
           Era ele, s podia ser ele...
           Era ele.
           Vinha arquejante de subir as escadas a correr, com uma aflio tal que me agarrou a cabea.
           Depois, tirou-me a camisa, puxou-me o soutien para cima sem calma para o desapertar, rebentou-
me o fecho das calas ao tentar desc-las, balbuciou "Onde  o teu quarto? Estamos sozinhos?" e ia-se
despindo ao mesmo tempo.
           Deitava-me no cho enquanto eu lhe dizia " ali", mas no esperava, arrancava a gravata,
arrancava os botes da camisa e das calas, e eu ria-me "Vais sair daqui esfarrapado, sempre quero ver
como vais tu sair daqui", tudo muito depressa, sem tempo para nos envergonharmos um do outro, melhor,
muito melhor do que no hotel, e, de repente, o telefone a tocar ali ao lado e eu estpida, to estpida a
atend-lo:
           - Sim? Como? Do colgio? Aconteceu alguma coisa ao meu filho? Caiu? J o trataram?
           E o Vasco a perceber que no era nada de grave e a beijar-me o corpo inteiro, a percorr-lo com
os dedos, j a cheirar a suor, a descer por mim abaixo, "Pra!", gritava eu, "Pra!", e a mulher sem perceber,
"No era consigo, minha senhora, a minha outra filha est a passar por aqui neste momento com um
tabuleiro nas mos e vai entornar os copos todos, meu Deus, pra!".
           - Vou busc-lo agora mesmo, obrigada. Mas ele est mesmo bem, ou est-me a esconder alguma
coisa?
           E o Vasco a continuar, e eu a odi-lo, e a mulher a estranhar, e eu a gritar-lhe:
           - DIGA AO AFONSO QUE EU VOU BUSC-LO AGORA MESMO!
         Ficamos como mortos, esgotados, fuzilados sobre o tapete.
         No conseguia levantar-me. Levantei-me. Ele ficou no cho, fez-me uma festa na perna e disse-me
"Estamos feitos, isto vai ser um sarilho, tu s linda, linda ... ", como se no sexo estivesse a verdadeira
beleza, e eu fui-me arranjar, aflita, a pensar no mido.
         Tirei as meias, estavam rotas, tirei as cuecas que me pendiam de um p e arrastavam pelo cho,
estavam midas, corri a cortina, entrei para o duche, fechei os olhos, deixei a gua correr, ele quis entrar
por ali dentro ainda meio vestido e eu disse-lhe "s tonto, s maluco de todo? Como vais sair daqui nessa
figura? No vs que tenho de ir buscar o mido ao colgio?", e ele disse-me "No interessa, no interessa,
isto para ns  muito mais raro do que vocs podem imaginar ... ", e quis voltar a ter-me ali, debaixo da gua
que corria...
        Mas a vida  feita de histrias, as pessoas precisam de histrias para se sentirem vivas, e eu j
poderia viver daquela por algum tempo, uns meses talvez...
        E ele a dizer-me "s linda, julguei que gostava dela e afinal no, s lixada, acabas de me estragar a
vida e eu estou-te to agradecido, mas to agradecido ... ", e eu, furiosa pela aluso, a empurr-lo do duche
e da minha vida:
        - Tenho de me ir embora, no percebes? Agora, chega! O meu filho  mais importante do que tu,
desculpa l...

        ***

        Fui buscar o Afonso ao colgio sem ter braos nem pernas, a garganta estrangulada, o suor a
escorrer, uma batida to forte no corao que receei que ele a ouvisse.
          - Ol, meu querido, que susto, anh? Como  que foi? Foi a jogar  bola?
          E ria, apesar de tudo ria sem parar.
          As mos tremiam-me ainda, todo o gozo estava ainda ali, intacto, a comprometer-me.
          Ele olhava-me espantado, muito espantado, "De que  que a me se est a rir, pode-me dizer?"
          E amuado, nos seus nove anos cheios de razo:
          - Acha graa a eu estar assim? Com esta ferida?
          Arregaou as calas at o joelho, mostrou-me o golpe que eu ainda no vira, era grande e fundo,
inofensivo, e eu ria, ria num esgar desenquadrado que magoava a criana e me desvirtuava aos seus olhos
pensando que era duro, muito duro viver com pessoas to pequenas que no nos podiam perdoar.

        ***

           Filhos.
           O jantar da Iga tinha sido quase todo a falar deles.
           Havia um Jos Maria, junto com uma Lusa h menos de seis meses, a transferir a paternidade de
um filho perdido num divrcio para os filhos da sua nova mulher.
           As coisas que ele dissera.
           O que eu me rira com o sistema que inventara para que as crianas no chamassem a me mais de
seis vezes por dia, distribuindo cartes a cada uma, e do estratagema da mais nova que os poupava  tarde
para depois, uma vez deitada, chamar a me seis vezes seguidas durante o filme da noite.
           Fora depois destes pequenos prosaicos que a conversa resvalara para assuntos incmodos, como a
desordem dos midos, espelho da nossa, ou o gosto pelo feio, pelos brinquedos-monstros-armados em vez
dos pinquios, grilos e sininhos da nossa infncia, ou pelos vdeoclips com cantores vestidos de templrios,
com cruzes ao pescoo e dentes escorbticos, em vez da Julie Andrews a cantar "Just a spoon full of
sugar helps the medicine go down ... "
           Aquilo era srio, e era grave, quase to grave como um poente que um dia me apanhara
desprevenida e me deixara de rastos.
           - Por que  que eles agora gostaro do feio? - perguntava eu, como se o belo tivesse que ser s a
harmonia e logo por sorte a minha.
           - Porque  o feio que eles testemunham em ns, no percebes? Nas nossas discusses com
maridos e ex-maridos, no nosso exemplo a contrastar com os nossos sermes, na nossa batota toda, no que
os usmos para retaliao, a troc-los por fagueiros e camilhas, a negociar as idas ao pai com verbas para
livros, remdios e calado...
           No tnhamos, de facto, o direito de lhes roubar a infncia s porque andvamos nervosos e
perdidos.
           No tnhamos? E alternativa, tnhamos?
           E o Z Maria, e a Lusa, e eu, e a Iga, todos de olhar perdido a duvidarmos da nossa
responsabilidade, sem querermos confessar a nossa impotncia para lhes ensinar o belo, a nossa
impossibilidade, melhor dizendo, para lhes transmitir qualquer espcie de espiritualidade ou de maravilhoso
ou de fantstico ou de esperana ou de verdade.
         - Mas tu, por exemplo, s ptima me... - dizia-me a Iga.
         ptima me? - estranhava eu. - ptima me, ou me
        simplesmente?
         E tinha dvidas, claro.
         s vezes, sentia-me desconfortada com as consideraes demasiado poticas que se teciam a
respeito das mes em geral, como se uma me no fosse uma transgressora como outra qualquer, e,
sobretudo, como se esse estatuto tantas vezes involuntrio bastasse para nos absolver de todas as faltas
e quase santificar.
         Definitivamente, uma me no  a desesperada da enfermaria seis que expulsa aos berros uma
massa ensanguentada - essa ainda no  me, mas candidato -, nem to pouco a indigitada que vigia o sono,
d o peito a beber, muda as fraldas do recm-nascido incontinente: qualquer ama  capaz de fazer isso, por
afecto ou por dinheiro.
         Uma me , quanto muito, para alm da sua condio de hospedeira acidental, programada, imposta,
resignada, relutante ou babada de um futuro ser pensante, algum com coragem suficiente para investir a
fundo perdido em desconhecidos.
           Desconhecidos, sim: o que so os filhos seno desconhecidos, que podem um dia vir a negar-nos,
bater-nos, esquecer-nos, roubar-nos, ou ainda, na melhor das hipteses, amortalhar-nos em vida
juntamente com outras mmias?
           E vivia com aquela dvida.
           Seria que, como me, eu tentava corresponder a esse modelo de generosidade e desinteresse por
verdadeiro amor, ou apenas para tentar merecer o tal estatuto inimputvel que se concedia
indiscriminadamente a todas as mes do Mundo?
           No agiria eu, na maior parte das vezes, por sujeio a comportamentos morais institudos e
legtimo pavor da desclassificao social?
           Sim: o que seria dos filhos, sem a censura do Mundo?
           No, no era isso: no fundo, no que eu no acreditava era que houvesse, que alguma vez pudesse
existir uma prova material que distinguisse a boa me da geratriz briosa, tcnica ou galincea, ou seja algo
que nos conseguisse demonstrar, preto no branco, se uma me, quando triunfa, o consegue por amor, por
orgulho ou por bambrrio.
           - Me. Me!  me, no me ouve?
           A verdade  que fossem as mes as mais generosas, abnegadas e altrustas personagens desta
vida ou as mais dspotas, perversas e castrantes criaturas do Universo, o Mundo conceder-lhes-ia sempre
um benefcio de dvida ao abrigo do qual elas poderiam cometer os crimes mais hediondos.
           - Ouo, meu querido, ouo-te sempre...
           Mas, no importava.
           Desde que fossemos sabendo que o exerccio da maternidade comeava s depois daqueles nove
meses de enjoo e lgrima fcil e no se restringia ao acto de dar  luz naquela "hora pequenina", mas at 
morte de um filho, era possvel que, um dia, aprendssemos a controlar melhor o nosso instinto de lobas
para podermos merecer, ento, talvez, todas essas qualidades hiperblicas que os midos nos dedicam em
verso ou em prosa em cartes com laos e coraes comprados em cima da hora nos centros comerciais, e
que, por vezes, s servem para embaraar as mais honestas.
           - Ento, fomos ns? - perguntava o Z Maria, aflito, como se tivesse pensado nisso pela primeira
vez e j no fosse a tempo de reparar a distraco. - Ser mesmo por nossa causa que eles esto assim?
           - A culpa  do sculo - garantia a Iga. - Neste sculo passou-se tanta coisa que no nos foi
possvel digerir. Para nos adaptarmos, tivemos de os lesar a eles...
           E eu a concordar, angustiada:
           - E tudo isto que agora lhes reprovamos e tentamos inverter sem sucesso, esta droga da
televiso, dos CD, dos jogos electrnicos e dos computadores, tudo isso fomos ns que inventmos para que
os midos nos deixassem dormir pelo menos ao sbado!
           E de repente o meu filho ali, a fazer beicinho:
           - A me no ligou nada  minha ferida...
          E eu a lembrar-me do Vasco a encostar  berma e da empregada da secretaria a falar ao mesmo
tempo, e da minha sobrinha a perguntar, de certeza, no dia seguinte, "E agora? j me pode contar do seu
namorado?"
          E eu a encostar outra vez num stio estpido, com os carros a apitarem novamente atrs de mim,
zangados, pensando que havia poucos desastres, que afinal havia muito poucos desastres e em como seria
possvel que as pessoas no endoidecessem todas ao volante ou chocassem de frente umas com as outras, e
na nossa inconscincia em conduzir no meio de tanta gente desesperada ou distrada, no meio de tanta
gente em suspenso como eu naquele momento que poderia matar o primeiro cego que encontrasse por
causa de meia dzia de viagens num tapete de kilim.
          - Meu querido. A tua ferida  uma coisa importantssima. A me est-se a rir porque no  grave
e sabe que s corajoso! Vamos lanchar para eu te poder dar todos os bolos da pastelaria. Quantos queres?
Dez? Doze? A me esqueceu-se de trazer a carteira, mas vai roub-los para ti, queres? Vai ser uma
aventura! Tu ficas a vigiar se h algum empregado a olhar, e a me rouba, num instante, seis bolas de
Berlim para ti e seis palmiers-recheados para a mana!
          E sedutora:
          - Queres, meu querido?
          E o meu filho a ceder, enfim, no fundo agradecido por eu no me parecer como as mes dos seus
amigos que se levantavam s cinco da manh para lhes refogar as marmitas e lhes perguntavam  tarde
"lanchastes, filho?"
          Dessas. Que bordam toalhas enquanto os maridos se cosem com          outras, com a casa num
brinco e todo o corpo, incluindo o pouco que eles beijam na cama, a cheirar a lixvia, e o Vasco a
desaparecer do horizonte como que por encanto, sem consistncia ainda para entrar na minha vida, sem
contextura para rivalizar com o meu filho, e eu a convencer-me, e eu a estranhar, quem  o Vasco, no
conheo nenhum Vasco, no existe Vasco nenhum, afinal.

       ***

        - Tia! Agora j me pode contar do seu namorado?
        - Conta-me tu do teu: ouvi dizer que est doente...
        - Tem uns caroos no pescoo e ningum sabe o que .
       Mandaram-no repetir as anlises. Tia ... ? Est-me a ouvir, tia?
       Eu estar, estava. Mas no tinha corao para aquilo e fingi que o telefone se desligara.
        Quando a mida voltou a falar e no atendi, deixou-me o seguinte recado no gravador:

        "Tia. Percebi perfeitamente que desligou e que por esta altura j deve estar com remorsos. Mas
compreendo-a to bem que no me zango consigo. Adoro-a!"

          V l, a minha sobrinha desculpava-me.
          Ainda bem, porque havia alturas em que nem os problemas dos mais chegados conseguiam seduzir
a minha generosidade.
          Solucei at os meus filhos me perguntarem se eu me tinha zangado com o Nuno.
          - Nuno? Que Nuno? - perguntei, esquecida.
          E foi s nessa altura que me lembrei que tinha um namorado relativamente estvel que deveria
chegar nessa noite para jantar.
          Fui despintar-me rapidamente, e, quando o telefone tocou, no fim do meu dia, apanhou-me
desfeita.
          Era o Nuno, claro, a querer combinar as coisas, mas eu no era capaz de falar mais nem de trair
ningum.
          Antes no lhe mentira porque nem sequer me lembrara dele, mas a partir dali, sim, estaria a
faz-lo.
          E falei tudo muito explicadamente porque j era tarde, conhecia o temperamento dos homens
desde o princpio dos tempos e, sobretudo no tinha flego para nenhuma rplica.
          Era preciso que o discurso fosse suficiente e inapelvel:
          - Ouve: tenho uma coisa para te dizer. Conheci uma pessoa que me impressionou. No sei o que ,
nem me interessa, mas h qualquer coisa. Aguenta-te. Vocs vo para a tropa para qu?  que entre isto e
andar a mentir-te achei prefervel dizer-te. E no me perguntes se eu ainda gosto de ti e essas perguntas
tipo sim-ou-no, porque as mulheres no funcionam assim. Digo-te j que no sei, e nem sei se vou saber
to cedo. Gosto de ti porque foste meu, e gosto de ti porque poders voltar a s-lo um dia, se quiseres ou
achares que vale a pena. Agora no gosto tanto, porque como penso noutra pessoa no tenho conscincia de
mais nada.
          No o deixava falar de propsito, e fugia para a frente, apavorada.
          O drama era dele, mas o cansao era meu e naquela altura valiam o mesmo.
          - Isto dura h trs dias. No comeces j a perguntar-te se j se passava h mais tempo, nas tuas
costas. Aconteceu h trs dias, compreendes? No estavas c, estavas fora. Desculpa-me, se puderes...
          O drama era dele?
          Talvez que esta nova cincia da Matemtica Difusa, que ensaia novas valoraes para as coisas
at agora no mensurveis, como o amor ou a dor, me possa um dia esclarecer sobre o que  que custa mais:
deixar ou ser deixado.
          Ser deixado custa mais no momento, mas deixar custa o resto da vida e talvez seja isso o
envelhecimento.
          Na verdade, se a idade das pessoas se medisse pelo nmero de abandonos s casas, s coisas, s
pessoas e aos sonhos eu talvez j pudesse ser centenria.
          O telefone voltou a tocar, enquanto eu desafiava o espelho para ver se me seria possvel rasgar
um sorriso alegre enquanto estava com a alma num frangalho.
          E era possvel, santo Deus!
          Eu podia rir-me, fazer brilhar os olhos, afectar tranquilidade em toda a minha expresso,
enquanto recolhia ao quarto, nessa noite, a desejar que Deus, ou o meu crebro, ou ambos, no me
retivessem lcida depois dos sessenta.
          Mas no era o Nuno, era o Vasco, e a enxaqueca latejava.
          -  chato falar a esta hora?
          -  - aproveitei, baixando o tom. - Mandei o Afonso para a cama e agora no d muito jeito...
          Claro que as crianas dormiam as duas a sono solto e que o Vasco no poderia suspeitar que
aquela fmea de h poucas horas era a velha senhora que, antes de morrer uma vez mais, ainda arranjaria
coragem para preparar novo penso para colar no joelho do "neto" sem o acordar.

          ***

          Estvamos todos em casa da Mafalda, no campo, e eu babava-me de gozo a olhar para as minhas
amigas.
        A Mafalda com toda aquela leveza imoral, velha e nova, antiga e moderna, eterna, a assumir a sua
casta como nunca vira a ningum desde a Revoluo, de vison por cima da camisa de noite, redentora.
        E a Pilar, exprimindo-se naquele discurso articulado que era to bonito como um quadro ou uma
paisagem, um quadro imensamente belo, destes cheios de pormenores subtis para se admirarem, mas que
levam tempo a encontrar-se, sustentando a uma Iga queixosa:
          - Essa entrega toda que tu fazes aos homens ainda no  amor! Amor  outra coisa muito
diferente! Isso significa apenas que queres muito ser amada, isso no  amor!
          E apaixonada, como se estivesse zangada, quase histrica E com as mos a tremer:
        - Alis, quando uma mulher encontra o homem da sua vida ela j ama h que tempos! E ama mais e
com mais ardor por que o seu dfice  antigo! E  capaz de amar qualquer coisa - uma casa, um vestido, um
homem - porque precisa de, melhor ou pior, ir debelando o seu crdito!
          E comovida:
          - Sabes quem me ensinou a amar? Sabers por acaso quem me ensinou a amar? No foi o Manuel
nem o Joo, foi o meu filho Henrique que tem seis anos e anda na primeira classe!
          E prosseguindo, exaltada:
           - Alm disso um homem no se escolhe por ser inteligente, menina, e tu no podes profanar as
hierarquias!
           - Hierarquias? - perguntava a Iga, perdida. - No sei de que  ests a falar...
           E a Mafalda a ouvir do corredor e a abrir a porta, solcita, para lhe recitar a cartilha:
           - Primeiros os santos, depois os heris...
           Mas a Pilar obstinada, a levar aquilo a srio:
           - Vocs no podem esperar tudo do amor, caraas!
           O amor no d o que a pessoa no tem!
           E incrdula:
           - Ser que nunca vais perceber isso?
           E ela ainda, pujante, solar e apaixonada a desistir, estafada:
           - Sabes o que te digo? Sabes o que te digo? Eu, agora, de h uns tempos a esta parte, s discuto
quando no tenho razo!
           E a Mafalda a rend-la para chocar a Iga, de propsito:
           - E fica a saber que raramente escolhemos, menina! Na maior parte das vezes, o amor no  mais
do que fogo nem os homens mais do que lenha: mata, ou capim, arde tudo o que estiver ao lado!
           E a Iga a esconder a cara, derrotada, traduzindo toda a sua incapacidade de se justificar, e a
Pilar a agarr-la mesmo assim e a suster-lhe os soluos para lhe dizer:
         - Adoro-te, Iga, adoro-te, ainda bem que choras. Caramba: h
         quanto tempo no choravas tu?
         E o Eduardo e a Isabel, nico casal presente, defronte da lareira a olhar o fogo como se vissem
televiso, embrutecidos, fartos da vibrao do mulherio, e o mesmo Eduardo a levantar os olhos ao cu
para prevenir a mulher:
         - Sabes? Este desassossego todo est-me a cansar e eu vou-me deitar...
         E a Isabel, a leste, excluda daquelas cenas apenas por ser casada e ter todas as vantagens e todas
as perdas decorrentes, a levantar-se para atear o fogo da lareira para que ela no se extinguisse antes de
admitir a impresso que as mulheres divorciadas, exibindo todo aquele luxo de disponibilidade para o novo e
o imprevisto, lhe causavam, e a repisar, azeda:
           - Largam os maridos porque pensam que vai ser melhor, no ? Agora no se queixem, bolas!
Foram vocs que quiseram, no foram?
           E a Mafalda a cair sobre ela, demolidora:
           - Ouve, menina: o casamento no  ir  igreja trocarmo-nos por eles e sair de l contentes!
           E depois a Iga no quarto, e a Pilar no mesmo, com duas camisas de noite to brancas como as
colchas da cama, a lembrarem as gmeas da Enid Blyton no Colgio de Santa Clara, absolutamente virgens
com aquela idade, absolutamente iguais apesar de uma ser morena e a outra no, irresistveis para qualquer
homem naquele momento mas sem a presena de um nico, esbanjando para ningum toda a sua
feminilidade:
           - A mim no me interessa, Pilar! No me interessa o Mundo, nem a cultura, nem a carreira, nem
as paixes, nem nada, percebes? O que me interessa  voltar atrs, todos os dias dar um pequeno passo
para voltar atrs, com uma cautela infinita para no me enganar nem tropear, todos os dias dar um
pequeno passo atrs at regressar  barriga da minha me que foi o nico stio - o nico stio, entendes? - o
nico stio onde fui feliz!
           E a Pilar a sorrir com a mesma idade aparente, mas infinitamente mais velha e cheia de pregas na
alma, a perceb-la e a proteg-la ao mesmo tempo:
           - Nada disso  bem como tu dizes. Mas eu percebo que tu ests nervosa e esgotada e a
compreenso das coisas no interessa muito nestas alturas. O que tu querias era chorar e s vezes isso s
se consegue  custa de muita asneira, no ?
           E a Iga grata  Pilar, to grata por ela no se lembrar de rever as palavras e os significados como
as mestras de provncia, e fazer aquilo que s alguns sabem fazer, que  ler os livros ao contrrio e
procurar a verdade por detrs das coisas de grande efeito que se escrevem e se dizem, e desmontar a
forma como a mentira se alojou no exerccio dirio da fala e da vida, por vezes oposto a tudo o que
realmente se sente.
          - Obrigada, desculpa, olha: se calhar, aproveitei isto para chorar a morte do meu pai, admira-te!
          E insistindo, depois de um pequeno soluo que lhe devolvia a infncia:
          - Mas apetecia-me provar  Isabel que sou mais feliz do que ela que tem um homem ao lado,
percebes? Eu choro, eu sofro, eu luto e arrependo-me de tudo em todos os dias da minha vida, e ela no
faz nada disso, mas apesar de tudo eu posso estar mais pacificada do que ela, e viva, e inteira, e completa,
e ela tem de perceber isso e parar de ter pena de ns para no ter pena de si prpria porque isso nos
magoa, entendes?
          E ainda a Pilar, enternecido, a apoi-la:
          -  muito mais pela lstima que inspiramos do que pelo nosso suposto desamparo que nos sentimos
to tristes, no ?
          E a Mafalda ali de novo, a interromper, desdenhosa:
          - Os homens so pases e a Isabel nunca saiu do bairro onde vive! No pode saber isto porque no
v mais nada, mas a verdade  que um pouco mais de mundo s lhe faria bem...
          E reflectindo, absorta:
          - Mas no h dvida de que ela tambm tem a sua razo...
          - Qual? - duvidava a Pilar,
          - A partir de certa altura a gente perde o direito de chorar...
          E olhando a Iga, com dureza:
          - Porque  que deixaste o teu marido?
          - Mafalda, ests doida?
          - Porque  que o deixaste?
          - Tu sabes...
          - No, no sei. Ele batia-te?
          - No, Mafalda, no batia...
          - Tinha outras?
          - No, no tinha outras, Mafalda.
          - Ento bebia, era isso?
          - Mafalda: queres parar com isso?
          - Responde!
          - Nem sequer bebia lcool!
          - O que  que ele te fazia, ento?
          - Fazia, como?
          - Em que  que ele te chateava, porra?!
          - Sei l. Deixava o cho da casa de banho encharcado, por exemplo...
          - E depois?
          - E depois eu no gostava, achava aquilo humilhante!
          - E o que  que lhe dizias, exactamente, nessas alturas?
          -  Mafalda, no me tortures!
          - O que  que lhe dizias? Faz um esforo para te lembrares, que  importante!
          - Dizia: Joo, voltaste a alagar o cho!
          - E o que  que ele te respondia?
          - Respondia: custava-te muito apanhar a gua?
          - A tens!
          - A tens, o qu?
          - Tudo! - gritava a Mafalda, enervada. E insistindo: D outro exemplo!
          - Outro exemplo, como?
          - Outro exemplo do teu desencontro com ele!
          - No sei. A nossa comunicao era estranhssima...
          - Estranhssima, como?
          - Eu dizia-lhe:  Joo, eu j te pedi tantas vezes que no atirasses a roupa suja para o cho..!
          - E ele, o que  que te respondia?
          - Respondia: E tu? No chegaste ontem atrasada a casa?
            - Voil!
            - Voil, o qu?
            - Na maior parte das vezes no  o amor que falha...
            -  o qu, ento?
            -  o sistema nervoso!
            E a Pilar gorada, a salvar aquilo:
            - Mas tu tambm tens que perceber, mas tu tambm tens que perceber...
            E a Iga alarmada:
            - O qu, agora?
            - Que a paixo  emoo e que o amor  sentimento, e que, ao princpio, toda a gente faz a mesma
confuso!
           - Ento... - digeria ela, insegura. - Ento o que  que interessa classificar as coisas se no fim se
mistura tudo e ningum d pela diferena?
           E a Isabel a ouvir tudo isto antes de recolher ao quarto, silenciosa, e a fechar a porta
imediatamente para que no ouvssemos os roncos do marido porque a metfora era bvia demais e a
humilhava.
           Uma Isabel a formular mentalmente, para nos dar jeito:
           - Ganharam. Vocs sofrem mais, mas tambm se divertem e se calhar crescem mais depressa.
Eu confesso que trocaria de boa-vontade a minha comodidade pelo vosso sofrimento e pela vossa
possibilidade de ainda poder esperar tudo da vida, se no fosse o medo de lutar sozinha...
           E eu, eu a varrer a lareira e a arrumar os tarolos, a olhar para os cinzeiros que transbordavam e a
verificar que, na vida, mesmo entre amigos se fuma o dobro, e a pensar, uma vez mais a pensar que a
solido-mesmo, sem homens e sem ningum, ainda ia sendo a melhor forma de nos aguentarmos sem fumar
e sem morrer.
           E foi assim, debruado sobre as achas que a Isabel no conseguira atear e com a cabea j em
brasa, a varrer as ltimas cascas de castanhas, que eu descobri - sim, que eu descobri, porque felizmente
na vida de quem anda a marrar contra a parede desde que nasceu se descobrem todos os dias coisas novas
-, que eu descobri que precisava dos homens, sim, mas para continuar a viver sozinha.
           E a Mafalda a sair da casa de banho para se aliar a mim naquele momento impartilhvel, a tentar
devassar a minha impossibilidade de falar sobre o que se passara, com a Pilar e a Iga ainda a chorarem no
quarto abraados uma  outra, porque j se ouviam tambm os soluos da Pilar, e a Isabel a tentar dormir
apesar dos roncos do Eduardo, e ela, Mafalda, ainda de vison, a chegar-se a mim para me subornar:
           - Reparaste no estado de abatimento total em que a Isabel recolheu ao quarto? At agora, a
nossa infelicidade servia-lhe para se contentar com a sua vida, mas a partir de hoje isso j no lhe vai ser
possvel, viste?
           E eu a rir, para no chorar:
           - Somos ento trs mulheres felizes?
           - No somos - disse ela. - Mas somos mais do que ela e isto tambm foi importante para ns
porque acabmos de o descobrir!
           E assumindo toda a sua incoerncia de uma forma herica:
           - E eu c nem sou como vocs: eu persigo a paixo!
         E eu em agonia de repente, com uma esganada urgncia de lhe perguntar:
           - Mas a gente gosta de homens, caramba, no gosta?
         - Claro que gosta - respondeu ela para me sossegar. S que gostamos mais de ns e no nos
podemos amar a ns, compreendes?
         E eu sempre a querer mergulhar mais fundo, mais fundo, mesmo sem oxignio:
           - Porque  que ento no nos podemos amar a ns?
          E a Mafalda a dar-se tempo para pensar, acendendo um cigarro.
          Era enternecedora aquela nossa necessidade de nos exprimirmos com correco, escolhendo
sempre, ao contrrio da Isabel e da Iga que se perdiam invariavelmente nos nossos xeques-ao-rei, o
substantivo prprio, o adjectivo exacto, briosas nas palavras como se fossem a superioridade visvel da
nossa emancipao, e pudessem, de certa forma, atenuar as barbaridades que trocvamos:
           - No nos podemos amar umas s outras porque nos percebemos demasiado bem.
          E como se descobrisse a plvora:
         - Ns no gostamos deles por eles, percebes? Gostamos deles pelo mistrio que encerram, pelo
trabalho inacabado que comportam, pela sua incapacidade de nos perceberem, pelo repto intelectual que
nos garantem at ao resto da vida!
          E rindo-se, maliciosa:
          - Uma mulher no nos d isso e tu sabes muito bem!
         E eu a desatar a chorar porque era verdade e a verdade, assim descoberta, mesmo que fosse
efmera, provisria ou falaciosa, comovia-me sempre:
         -  Mafalda! Nem calculas o peso que me tiras de cima!
         - Claro - ria-se ela. - Ou julgavas que a gente no ia para a cama umas com as outras s porque no
ramos fufas?
         E eu a rir-me, a gaja era lixada, as mulheres eram tramadas e eu nunca na vida poderia am-las
porque elas percebiam as nossas coisas antes mesmo do que ns e s os homens  que tinham, de facto,
humildade para se deixarem esventrar.
          E a Iga de novo ali, ouvindo tudo, escandalizada:
          -  ento por isso que vocs gostam dos homens?
          E eu aflita por ela, ressalvando logo:
          - No faas caso, Iga. A gente sabe l o que  o amor! E a Mafalda lembrando-lhe,
escusadamente:
          - Duma coisa podes estar certa, menina: todo o amor  interesseiro!
          - E o amor a Deus? - perguntava a Iga, incrdula. O amor a Deus tambm  interesseiro?
          E a Mafalda logo, antes de mim, precipitando-se:
          - Promete-nos a vida eterna, caramba, queres mais interesseiro do que isso?

       ***

        Ao deitar-me, quando os seis telemveis retemperavam cordas nos recarregadores espalhados
pelas tomadas da casa inteira, tive, como todos temos, aquele pensamento sem nenhum valor esttico ou
intelectual, daqueles que servem apenas para nos interromper o transe e despojar-nos das ansiedades do
dia:
        - Quando chegar a casa vou lavar a despensa, que j precisa. O Afonso entornou cacau nas
prateleiras e aquilo est que no se pode...
        E adormeci com a almofada dobrada em duas, porque embora soubesse que dormir to alta assim
me fazia mal s costas ainda sentia a factura dos quarenta to longe como dos meus dezoito anos.
        E s muito depois, a meio da noite, ao acordar com uma sede enorme por causa da porcaria do
radiador que deixara ligado por distraco na temperatura mxima e me levantei para ir beber gua 
cozinha,  que ouvi, enfim, as lgrimas que a Isabel s assim, sem testemunhas, pudera enfim chorar.
          E foi ento que lhe bati  porta do quarto muito delicadamente para lhe perguntar:
          - Isabel? Queres vir  sala fumar um cigarro?
          Isto j s cinco da manh, com aquela preocupao to pouco viril de saber como passam as
nossas vtimas, aflita por ela, ouvindo os soluos do outro lado a calarem-se por dignidade, e tudo aquilo a
lembrar-me que o sofrimento  solitrio e silencioso e que as testemunhas s o podem prolongar.
          Quem fumou o cigarro fui eu, sozinha, de olhos perdidos nas brasas sobreviventes, a pensar que a
vida era extenuante e a perguntar-me admirada porque  que os outros tambm no se matavam como eu
naquele dia e em todos, ponderando, ao mesmo tempo, na sade que poderia haver naquele ltimo cigarro
fumado na maior lucidez.

       ***

         Na manh seguinte, tudo parecia resolvido,
         A Mafalda, a Pilar e a Iga acordaram radiosas porque a infelicidade era uma mentira to
duradoura como a felicidade, o Eduardo e a Isabel pareciam mais prximos um do outro, tambm porque
ns queramos que eles parecessem e a Isabel tambm devia querer que o pensssemos, e eu disfarava
como elas, cismando naquela fatalidade que a mim me parecia generalizada e que consistia em precisarmos
de nos destruirmos todas as noites para acordarmos inteiros na manh seguinte.
         E cada uma de ns, isoladamente, vestiu a sua pele outra vez:
         - Como  que era, Pilar, aquela frase do Malraux?
         E a Pilar, to especial, a aplicar para mim o seu francs:
       Un homme n'est pas ce qu'il coche. Un homme est ce qu'il
       fait, car, au fond de nos mes, nous sommes tous un peu les mmes.
        E toda a gente a lembrar-se do que se passara naquela noite e do que se tinha percebido ao todo,
apesar da visita ao desfiladeiro e  barragem, apesar do requeijo em bola e das trouxas de ovos, apesar
da criada que nos fazia as camas nunca nos dizer bom-dia, apesar do esparguete de tomate e da ltima
canja bebida em conjunto, apenas esta frase, invocada por mim e proferida pela Pilar em bom francs,
apenas esta frase ficaria de todo aquele fim-de-semana em que tnhamos gasto cerca de quarenta contos
por pessoa sem contar com as portagens e que, mesmo assim, custara uma pechincha.

       ***

        H alturas, e estas coisas ningum confessa a ningum, em que se vai para a cama com um homem a
seguir a uma combinao forada e que depois de nos sondarmos superficialmente chegamos  concluso de
que no sentimos absolutamente nada e que  o vazio que precede esses momentos.
          Num esforo de civilizao e moral, porque a moral nunca foi espontnea, interrogamo-nos como 
que aquilo  possvel, como  que aquilo  possvel connosco e porque nos sujeitamos ns quilo, pensando
que talvez fosse melhor termos ficado em casa a ver televiso porque a emoo seria igual seno maior no
caso da programao nos reservar uma surpresa, e damos connosco a averiguar a razo por que fomos ainda
assim, mesmo depois de confirmarmos toda aquela gratuitidade humilhante.
          J uma vez me acontecera.
          Na dificuldade logstica de nos encontrarmos em qualquer das casas, um amigo e eu, querendo
ambos encontrarmo-nos para nos deitarmos juntos, andmos semanas e semanas a protelar o encontro sem
conscincia nenhuma, pedindo as chaves de apartamentos de amigos e combinando sucessivos locais para as
deixarmos - uma vez num caf, outra num restaurante, outra ainda no lado esquerdo do andar em
perspectiva -, e diversos chaveiros foram, ao longo de semanas, depostos em lugares estratgicos e
retirados dias depois, sem que nenhum dos dois, por uma razo ou por outra, os levantssemos jamais,
desmarcando o encontro a todos os pretextos at ao dia em que eu arranjei coragem para parar com aquilo:
          - V-se que, no fundo, nenhum de ns quer muito estar com o outro. Ou seja: quer e no quer,
mas no quer mais do que quer e por isso vamos suspender isto, concordas?
          E como esse abenoara a minha deciso:
          - Ana,  Ana! Pode at ser um dia qualquer! Basta que um de ns queira muito e que esse desejo
seja to sentido que contagie o outro...
          Eu ri-me, e ele riu-se tambm, e ambos nos sentimos aliviados por no precisarmos de provar que
no se tratava de desamor ou desinteresse, porque na realidade no era isso que sucedia, mas a
impossibilidade, pressentida por ambos, de estarmos juntos sem a intimidade necessria.
          Ir para a cama sem se querer muito, sabe-se cedo, tem aquele sabor de se comer sem se ter
fome que nos faz sentir alarves.
          A gente despe-se com eles a olhar para ns sempre a leste do que nos vai na alma, o que
representa uma solido terrvel, tira a camisa, tira a saia, tira as meias e os sapatos, a matutar at ao
ltimo minuto o que nos levou ali apesar do amor que nos liga a todas as pessoas do Mundo e a eles tambm,
at ao momento preciso em que paramos de pensar e que um animal qualquer nos encarna para viver, ele
sim, com todo o direito que os animais que nos habitam tm de viver e de brincar, a legitimar assim tudo o
que se viver nesse intervalo.
          E, ento, torna-se emocionante descobrir como  que eles, com os seus braos fortes e cabelos
moles e timbres diferentes, quase s por isso e por terem condies anatmicas para nos invadirem, nos
vo a pouco e pouco amolecendo at  entrega total para logo a seguir nos devolverem a vacuidade.
          Foi nesse esprito preciso que fui ter com o Nuno nessa noite, como se lhe devesse uma
despedida, com ele desconfiado a pensar que aquele encontro seria absolutamente decisivo para si j que o
estaria a pr  prova por comparao.
          E quando, enfim, me rendi aos seus beijos, descobri que tanto se me dava que fosse ele ou o
Vasco desde que qualquer deles me fizesse esquecer o outro.
           assim que a gente pensa, muitas vezes, apesar das nossas juras de amor eterno, por razes que
passam por outros lugares distantes que nem sempre podemos descortinar e que s raramente tm que ver
com o que realmente se passa entre duas almas.
          Isto, ao mesmo tempo em que o Nuno me dava repetidos beijos no cabelo e eu lhe dizia, convicta,
sers sempre o homem da minha vida.
          Mas o Nuno tinha esse defeito terrvel que certos homens tm de no perceberem que na cama,
s na cama a gente tem direito a dizer exactamente o que nos vai na cabea, e a ser tudo, e que isso 
muito importante porque nos ajuda, fora dela, a sermos pessoas verdadeiramente saudveis e fiis.
          Mas ele no percebia, coitado, e digo coitado por saber que isso o vedava a alguma beleza, e tive
ento que lhe dar muito mais festas do que o costume, e fingir que estaria a provoc-lo para aumentar o
seu desejo, e ele acabou por convencer-se em aderir quilo fechando os olhos e agarrando-me como quem
se agarra a si prprio para no se atirar duma ponte abaixo.
          A cena fora srdida, violenta, desonesta, e eu pensava que o mais estranho de tudo era que nunca
o Nuno atingira antes um fervor to grande, seno enquanto estava a sentir-se trado como naquela altura,
o que me demonstrava  sociedade que, no fosse a infraco, haveria com certeza homens e mulheres que
morreriam sem grande conhecimento de si prprios o que  data me parecia imperdovel.
          Comigo foi diferente porque enquanto ele comprovou naquela noite que me amava s a mim, eu
descobri que no o amava a ele nem ao Vasco, o que me obrigou a estrear, por circunstncias que tinham
contribudo para aquilo e me transcendiam, mais uma semana de desconfortvel indignidade pessoal.
          O Vasco era novo, com tudo o que prometiam as novas possibilidades, e o Nuno era velho, e
conhecido, como a casa onde me podia estender sem sapatos ou usar um Soutien esbambeado na mquina
sem que nada disso fosse notado ou punido, o que tambm me era agradvel, seno imprescindvel.
          Uma voz qualquer dizia-me que teria de escolher, mas como a minha indiferena aumentava a
necessidade de ambos por mim, eu dispunha-me a ficar assim at que o tempo ou qualquer sinal facultado
pela vida me demonstrasse claramente se eles prefeririam a privao de minha pessoa  escolha de um s
ou ao abandono dos dois.
          No pensava em mim, e o que resultou foi que me voltei a vestir com o mesmo vazio em que me
despira, deixando o Nuno na ressaca daquele prazer que eu lhe dera e que nada tivera que ver com
empenhamento, nem com amor, nem mesmo com desejo, porque nem sempre o que se sente  claro ou se
pode desmontar facilmente.
          Estava fria quando passado pouco tempo me meti no carro, e s no me senti perdida no trnsito
nem com vontade de rir como quando fora buscar o Afonso ao colgio, porque toda aquela intensidade no
resultara de uma descoberta, mas do luto de uma confirmao.
          Quando voltei para casa, me estendi no sof e liguei a televiso, o vazio instalava-se para, logo a
seguir, me restituir uma paz interior maravilhosa por estar de novo ali e saborear aquele repouso luxuoso
que sentimos quando, apesar de amadas, sabemos que nenhum homem impor a sua presena continuada nas
nossas casas, nas nossas vidas ou junto dos nossos filhos.
          Foi nessa altura que me levantei para, completamente alvoroada pela liberdade que
experimentava naquele momento, ainda sem riscos, informar o meu filho que nos meados do sculo XVI
Portugal s tinha milho e meio de habitantes, e depois, com muito mais entusiasmo, mas isso j deveria ser
observado  luz de outras filosofias, entregar-me de alma e corao  tarefa de arear as pratas que
mobilizava todas as minhas redentoras e primitivas qualidades de castel.
          O Vasco ainda me falou para me convidar para jantar no dia seguinte, e eu aceitei apenas por me
parecer esse o passo lgico de uma equao que algum haveria de resolver por mim, dizendo-lhe que
tambm gostava dele inteiramente convencido de que havia de gostar um dia, apostada naquele
investimento a mdio prazo que se faz no incio de qualquer relao.
          Deixei as pratas mais brilhantes do que a minha alma e desafiei o meu filho para um gelado na
Baixa, que me apetecia mais a mim do que a ele, a pensar que as coisas que lhes dvamos, de ternura ou de
cuidados, eram ternuras ou cuidados de que ns precisvamos, como o casaco de malha que os mandvamos
vestir quando ns, e no eles, comevamos a sentir frio.

       ***

         Os cimes tinham, para mim, dois problemas gravssimos: alm de entrarem em conflito com certas
qualidades que me tinham ensinado a admirar - como o respeito pela liberdade alheia e pela
autodeterminao moral do outro -, eram impossveis de controlar nos quadros de insegurana ou de
dependncia afectiva que, por si s, desencadeavam.
         Era ver os mais slidos e lcidos indivduos chegarem ao homicdio, a negarem pai e me, a
desconhecerem os filhos ou a desfazerem vidas laboriosamente construdas movidos por impulsos
incontrolveis.
         A soluo poderia passar por uma estratgia que combatesse o cime com o cime, se a inteligncia
alguma vez conseguisse subalternizar os vexames e se esses jogos no acabassem sempre por nos
degradar.
         Invejava as pessoas que os no sentiam, mas no as admirava: eram quase sempre conduzidos a
circunstncias caricatas de irresponsabilidade ou negligncia, susceptveis de precipitar, por sua vez,
ameaas concretas.
         No era o caso do Nuno, para quem o cime era uma via sem regresso, capaz de destruir a sua vida
e de desmembr-la com muito mais eficcia do que uma tragdia efectiva.
         A existncia de um Vasco na minha vida provocava-lhe um abalo to forte no ego, no amor-prprio,
nas convices e nos projectos, que de um momento para o outro se tornou irreconhecvel como ser racional
dotado de bom-senso e guiado por leis morais.
         No caso dele, decorria mais da agonia da suspeita do que do golpe da confirmao.
         Bastava-lhe projectar no Vasco uma qualquer qualidade carismtica susceptvel de me arrebatar,
para me permitir assistir, a toda a hora, ao degradante espectculo do seu respeito por mim a
transformar-se em desprezo, a ternura em acidez, a paixo em dio, sem que isso comprometesse ou
desfalcasse, pouco que fosse, o verdadeiro sentimento que o ligava a mim.
         Foi talvez por tudo isto que, nessa noite, o Nuno apareceu em minha casa j com as crianas
deitadas, e s me lembro distintamente da tareia que me deu porque, receando estigmatizar os meus
filhos, no gritei nem pedi ajuda.
         O Afonso ainda acordou para pedir que pusssemos a televiso mais baixo - o estardalhao que
fazamos devia ser idntico ao de qualquer srie americana -, e ficmos os dois a brincar  esttuas
enquanto o mido no se retirou, o Nuno com um p no ar, atrasando o pontap, e eu a escudar-me entre os
cotovelos para que no me atingisse na cara, coisa que j acontecera momentos antes e que manchara de
sangue as almofadas de seda bordadas com pssaros e flores que eram a melhor recordao que eu
guardava da minha av enquanto as cosia e me contava, sorrindo, histrias de princesas felizes.
         - Ah! - dizia o meu filho, espantado. - O Nuno est c?
         No dia seguinte tinha um farrapo sentado  minha frente no caf do bairro a implorar-me perdo
sem eu ouvir o que dizia.
         Curiosamente pacificada e bem dormida, aproveitava o silncio que me assistia para especular
sobre se seria possvel existir uma alegria escondida no corao das vtimas. Uma espcie de ascendente
adquirido. Um poder saboroso sobre o escrpulo de um carrasco...
         Enquanto ele falava e plissava a cara em esgares de splica, "Eu adoro-te, fiz aquilo porque te
adoro", eu esforava-me por compreender, essencialmente, o que as minhas pisaduras dificilmente
poderiam sublimar.

       ***

       Pensava que soframos na pele a disfuno entre as nossas vidas sobrecarregadas e a fragilidade
de msculos que nem das agresses nos defendiam, e que a doura, essa doura que durante tantos sculos
fora o nosso maior trunfo para seduzir, converter ou desarmar os homens, seria praticamente impossvel
de recuperar em padres de vida to masculinos.
        De facto, era alarmante imaginar em que  que se poderia transformar a mulher se continuasse,
por muito mais tempo, a ser obrigada a sair de casa para procurar po e lenha, numa luta varonil que j fora
formalizada pelo uso das calas e que no se sabia se no terminaria, a mdio prazo, com a perda dos
nossos prprios caracteres sexuais, convertendo-os um dia em criaturas musculadas com plos nos brao,
timbres graves e bigodes.
        Mas havia ainda outro risco implcito em toda esta viragem: o do homem, mais lento na adaptao
s mudanas por razes filosficas ou simplesmente orgulhosas, no assimilar a dignidade que se esconde
por detrs da nossa persistncia e exigir o regresso da mulher fatal ou da formiguinha, remetendo-nos
para um terceiro, quarto ou quinto gnero maldito sem direito a ele.
        E disse alto ao Nuno, sem me aperceber:
        - Para conquistar a nossa integridade, temos ento de renunciar ao vosso amor?
        A verdade  que j avanramos alguma coisa.
        A mulher j demonstrara que podia produzir o mesmo, se estivesse disposta a abdicar de certas
prerrogativas, e o homem j se ia safando em casa sem ela, se no tivesse que mexer em lixvia.
        Pelo que conhecia das mulheres, sabia que a maior parte nem se importaria de renunciar  frente
profissional para se encarregar de tarefas fundamentais para o bem-estar da famlia e para o equilbrio do
Mundo, desde que o homem chegasse a casa e lhe beijasse os olhos.
        Ento, sim, talvez pudssemos admitir que fizramos falta aos nossos filhos e que o seu sacrifcio
nos destroara.
        E no s: voltar do trabalho com mais disposio para encher de malmequeres a jarra da entrada ou
passajar meias sem azedume.
           Mas era se o fizssemos de livre vontade e no com revlveres encostados  fonte.
           - Desculpas-me? Desculpas-me o que eu te fiz?
           Era um raio de uma subtileza que lhes custava a assimilar, produzira milhares de vtimas de palmo
e meio e lavrara rugas prematuras em muitas mulheres da minha gerao, mas que valeria a pena.
           - Ouve l: tu no me ests a ouvir! Queres que me humilhe,  isso? Que me ajoelhe aos teus ps?
           No eram j muitas as que lutavam, porque a necessidade de justia para algumas mulheres no
era ainda mais importante do que o corpo dos homens, a proteco dos homens, a companhia dos homens.
           E era v-las, tantas vezes, a recuar a meio dos seus percursos de autonomia, como se, sem eles,
no tivessem foras para lutar mais.
           - Gostas de mim, Ana?  a terceira vez que te pergunto!
           A mulher sempre falara do amor, mas eu perguntava-me se todas estas mudanas no nos
mobilizariam, neste fim de sculo, a fazer o balano de toda essa indigesto e a express-lo de uma forma
nova.
           Dantes falvamos dos homens, dos nossos sonhos e privaes; agora, temamos esse pacto que
tnhamos feito em nome da nossa integridade ignorando se lhe poderamos sobreviver.
          Como se, s agora, descobrssemos que a libertao no era ainda a Liberdade, e como se Ela, uma
vez conquistada, fosse absolutamente inglria sem a proteco dos homens.
          - Est bem, eu perdoo-te - disse, para o calar. - No se fala mais nisso!
          - Perdoas-me mesmo, minha querida? - perguntava o Nuno, de olhos molhados, como se uma
simples afirmativa lhe resgatasse a ordem interior.
          - Perdoo-te, sim, j disse - sustentei, de culos escuros por ateno ao bairro, mesmo sabendo
que aquele falso perdo o tornaria insuportvel aos meus olhos.
           Seria isso que eu queria?
        ***

         No, no era isso que eu queria, e fora s a meio de reler o livro que tinha em mos que o
descobrira.
         Era um volume pequeno publicado h mais de vinte anos, cuja autora comeava logo por arriscar a
pele na primeira pgina dedicando-o "Aos poucos homens que no se deixam amestrar, s poucas mulheres
que no se vendem, e aos felizes que no tm valor de mercado, porque so demasiado velhos, ou feios, ou
doentes".
          Nele, a escritora contava a histria ao contrrio.
          Para reforar a sua ideia de que "O amor para a mulher significa pretexto para explorao
comercial, e para o homem um libi impregnado de emoo para a sua escravatura", a autora tinha a
coragem de contrariar os ventos da contestao feminina para chapar no livro alguns comportamentos que
at os mais cegos defensores da mulher no podiam deixar de reconhecer: que muitas de ns utilizavam os
filhos como refns, o mundo profissional como coutada de caa, o sexo como recompensa e a F como libi.
          Mas o que mais a indignava, como ser humano envergonhado do seu gnero, era o talento que
certas mulheres tinham para reduzir o homem a uma mquina de trabalho de primeira categoria,
manipulando-o sem compaixo at ao enfarte.
          Dizia ela: " repugnante ver como os homens, esses sonhadores maravilhosos, traem no seu dia-a-
dia tudo aquilo para que nasceram. Como eles renunciam a todas as suas enormes capacidades e ajustam
voluntariamente o seu corpo e o seu esprito s necessidades primitivas das mulheres".
          Isto, para no falar de certo engenho prfido de que muitas se servem para rentabilizar a seu
favor os escrpulos masculinos, e ainda de certa energia perniciosa que a autora se esquecera de mencionar
e com que ns alternvamos a nossa suposta doura: a violncia.
          No homem aparentemente mais fsica, mais primria, mais impulsiva, mais desesperada e mais
arrependida, em ns mais verbal, urdida, erosiva, castrante e triunfal.
          Como eu a deitar-me com o Nuno, nessa mesma noite, inerte como uma morta e imune a todos os
beijos.

         ***
         Por vezes, a paixo por um homem no traduz mais do que a necessidade imperiosa de se esquecer
outro.
         O meu entusiasmo pelo Vasco aumentava na razo inversa do meu apego ao Nuno, como num
elementar sistema de vasos comunicantes.
         Falvamos constantemente e a toda a hora para os telefones de um e doutro, lamos os horscopos
de cada um, deixvamos recados quentes e inflamados nos gravadores, jazamos na cama sem
possibilidades de dormir pensando no outro ao mesmo tempo, conferamos todos estes sortilgios no dia
seguinte, e tudo isto, talvez, s porque a Mafalda um dia me dissera com a sua liberdade contagiosa:
         - Nunca, apesar de todas as morais, alguma vez me furtei a conhecer um homem que eu queria ou
me intrigava! Nem mesmo quando me dizem que pertence a outra, porque nesse momento ele me pertence
a mim e seria a mim que ele enganava!
         Era incrvel o efeito que as palavras tinham em mim, a forma com que a oralidade dos outros,
expressa com convico, me conseguia infectar, mas daquela vez no arranjava palativos para me
justificar.
         O que eu fazia era crime, sim, e que no me viessem com o argumento de que os casamentos nunca
eram estragados por ningum de fora.
           Os casamentos poderiam no ser, talvez, mas os homens e as mulheres podiam, sim, ser lesados,
uma vez que quando os de fora os desafiavam nem sempre se dispunham a ficar com eles para o resto da
vida.
           Arriscava-se muita coisa, s por um calor no peito.
           O Vasco adorava-me com convico e folclore e todos os dias me trazia presentes bons ou
ridculos: ou comprava no avio um perfume em duplicado - um para mim, outro para a mulher -, ou me
oferecia uma caixa de msica com uma bailarina em tou-tou esvoaante, ou trufas que eu detestava, ou
ainda um livro sem substncia nenhuma, escolhido pelo ttulo e apenas para se declarar atravs dele.
           Quando voltava para casa, era certo e sabido que no chegava a retir-los do papel, e que os
guardava numa cmoda, assim mesmo.
           No fundo, sentia que aquilo no ia durar muito e que dificilmente ele poderia vir a conferir se eu
usava ou guardava os seus presentes.
           Mas espantava-me: como  que se podia gostar de uma pessoa, e, ao mesmo tempo, desconsider-
la a este ponto?
           Talvez fosse simples: ao enganarem as outras era como se nos enganassem tambm.
           s vezes saa daquilo e, nas mesas dos restaurantes que j me comeavam a fartar, eu olhava o
Vasco como se o visse pela primeira vez, pensando que era inteiramente impossvel amar-se um homem
desconhecendo-lhe os precedentes.
           A infncia faz falta para conhecer muita coisa, sem termos de comparao no  possvel avaliar-
se os resultados de um percurso, e, no caso dos homens, nunca se pode apreciar devidamente o amor que
nos tm ignorando por completo o que dedicam s outras.
           Numa noite dessas, instado por mim, ]e cara na arara de me levar fotografias da famlia, e eu
senti-me subitamente derrotada por aquele peso todo, vergada pela pose da madame ainda a seduzir o
marido e agarrada a ele com medo de que fugisse, e, sobretudo, desencorajada pelo sorriso das crianas
mais o do co,
         Mais tarde, ao lembrar os retratos, tentava convencer-me de que nada daquilo era verdade, que os
sorrisos se abrem muito mais para as cmaras do que para os maridos de h vinte anos, que aquele deveria
ter sido o nico dia em que o co entrara na sala, que os meninos tinham todo o ar de lhe dar pontaps e
no s disso, de fazerem concursos de escarretas  janela em direco a velhinhas, e a me de ficar
histrica e a espumar da boca sempre que o Pastor entrasse na sala com as patas enlameados do jardim.
         E depois fazia troa das cortinas, e dos napperons nos braos dos sofs, e das flores falsas por
toda a casa, como se o mau gosto em que ele era capaz de viver j me permitisse dispens-lo, e acabava por
me convencer de que eles no estavam bem de mo dada e que aquela sombra indefinida, no canto da
fotografia, tanto poderia ser a mo dele sobre a dela como o bico da almofada cor-de-pssego, e depois
agoniava-me comigo mesma e proiba-o, terminantemente, de alguma vez na vida me voltar a sujeitar a uma
humilhao daquelas, apesar de ter ficado mais de dez minutos a inspeccionar cada cpia como se fossem
cartas de Tarot, reveladoras de todo o meu futuro.
         Mas era assim, graas a estas cenas criadais, que eu descobria que os meus cimes eram muito
piores do que os do Nuno, afinal, j que no se tratava de cobiar nada de meu, mas de outra, nem de sentir
o meu territrio invadido, mas de ser eu a invadir o dela, nem do terror da perda do objecto amado, porque
ainda no era possvel am-lo tanto como a mulher, e tudo isso mostrava-me o perverso e repulsivo da
situao em que embarcara.
         Mas o mais exasperante de tudo era quando ele se referia  mulher dizendo a minha mulher
         - No voltes a dizer "a minha mulher" porque isso  saloio, percebes? Ou dizes "uma das minhas
mulheres", porque tens duas pelo menos, ou ento referes-te a ela como "a Gi", "a Guidinha", ou "a
Margarida", que  ridculo, mas sempre  melhor, entendes?
         E ele despistado, arrependido do lapso que no era bem lapso, da mentira que podia ser verdade e
da verdade que podia ser injusta, e eu a concluir, infeliz, que nada daquilo era amor e que mais valia que
acabasse tudo ali.
         Mas depois olhava para ele e via-o to adorvel e to sincero e percebia que aquela situao tinha o
condo de convocar o pior de mim.
         - No se fala mais nisso, desculpa. Hoje, acordei com mau feitio...
           E ele a beijar-me as mos, e os ns dos dedos, e cada unha de sua vez, silencioso, e a pedir a
conta ao criado num gesto to pequenino, e a levantar-se, estico, e a envolver-me as costas para que eu me
levantasse sem frio e sem esforo, e eu a am-lo por lhe dever isso, com a certeza absoluta de que ele no
era capaz de ser to venenoso como eu em nenhuma circunstncia, e eu a am-lo, imagine-se, por
comparao comigo mesma.
           E desta vez a Pilar, ali ausente ao p de ns:
           - Tenho razo ou no? Devemos estar todos muito doentes porque de outra forma no seramos
capazes de querer tanto o que nos faz sofrer!
          Ou ento a contrapor, sombria:
          - Mas suponho que o homem deve ser o nico animal ir. racional do planeta, j que  o nico dotado
da faculdade de fazer mal a si prprio...
          A Pilar.
          Como seria bom emprestar-lhe o Vasco por uns tempos, deix-la dormir com ele durante um ms
sem risco de o perder ou de a perder a ela, para depois conferirmos juntas o que haveria ali, naquele
homem, na forma como nos olhava, nos beijava e nos despia.
         A Pilar no servia: compreendia os homens bem de mais.
          Dizia-se "Fulano espancou-a", "Fugiu com a secretrias ou "Viajou com a outra para Frana, que
era onde costumava levar a mulher", e a Pilar disparava, tremendo:
          - Burras! Vocs so burras! Est-se mesmo a ver que ele  uma pessoa que sofre, que no tem a
certeza de ser amado e que vive atormentado por isso!
         A Pilar no servia.
         - O Vasco, sinto-me to cansada. Chateei-te a cabea, no chateei?
         E o Vasco, esgotado, a esconder a cara entre as mos e a disfarar o cansao:
         - Chateia! Chateia  vontade se isso te faz bem. Eu no me importo...
         Mas eu ainda a querer que ele fosse pior do que eu, prementemente, para que daquela situao
sasse eu vtima, sem consciencializar nada na altura, mas j em vias de me arrepender:
         - Se achas que eu te chateio...
         E ele pela primeira vez impaciente, certamente a comparar-me com a mulher e a pensar "Para que
saio eu duma para me meter noutra", e eu irritada com ele por essa ideia que cruzava unicamente o meu
esprito, e a vingar-me dela como se fosse dele fechando a porta do carro com a fora com que gostaria de
lhe bater e largando para o acirrar:
         - Que merda de chauffage  esta que s comea a aquecer meia hora depois de se ligar?
         E ele, j nervoso:
         - Vou levar-te a casa, j percebi!  isso que queres, no ?
         E a minha voz a perguntar, mesmo sem razo:
         - Est na hora de voltar para a tua, no , meu cobardolas?
         E ele a explodir finalmente, abrindo um precedente que
         me alarmava e me extasiava ao mesmo tempo, num tom de voz farto e desabrido:
           - Precisamente! Transgrediria todos os horrios para estar contigo, mas assim, sinceramente, no
vale a pena!
            E a ligar o carro:
            - Para qu?
           E eu a dar comigo a pensar que talvez no tivesse querido irrit-lo mas, simplesmente, obrig-lo a
revelar algo que precisava de reconhecer em todos os homens do Mundo: uma autoridade que lhes vinha
unicamente do timbre, mas que, mesmo assim, era capaz de nos conter os excessos.
         E agradavelmente assustada pela forma como o vi a acelerar pela cidade na pressa de me deixar,
dei-lhe,  despedida, um beijo que o surpreendeu s a ele, j que, meia hora depois, estendida na cama a
olhar para a imagem de Cristo que diariamente testemunhava a minha desordem e Se ria dos meus
propsitos de emenda, Lhe perguntava, sincera:
         - Isto ainda no  amor, pois no? Mas se a gente no tem, a gente tem de inventar, no ?
        Era tambm nesta linguagem grosseira que eu falava com os meus botes, mas isso ningum
saberia. Cristo no era delator e, em pblico, eu esforava-me por falar com correco.

        ***

        - Cabra - dizia o Nuno, descobrindo que eu improvisava desculpas para no sair com ele. - Ainda
andas com o mesmo gajo, no andas?
        Afinal, no eram s as opinies proferidas com veemncia que me impressionavam, como as da
Mafalda ou as da Pilar; tambm os mimos com que eles nos brindavam por vezes provocavam na minha alma
verdadeiras ventanias.
        Em alturas assim, no era a primeira vez, regressava  infncia para me esconder numa rvore
privativa e chorar de medo.
        s vezes, nem eram bem as palavras que feriam, mas o tom em que eram despedidas:
          - Puta, no passas duma puta!
          - Ests enganado. Eu nunca peo dinheiro...
          Quando nos gritam, a expresso que nos fazem ou o tom que nos desferem pode ter muito mais
importncia do que o valor facal das coisas que se dizem e causar mais dor e mais ressentimento do que
uma bofetada em pleno rosto.
          Sabia-o por mim, que poucas vezes me lembrava do que os outros me diziam e constantemente
ilustrava as minhas queixas com explicaes pormenorizadas sobre a forma desagradvel ou antiptica com
que os outros se me dirigiam, no fosse esse, essencialmente, o nus da ofensa.
          Todavia, recorrendo s mulheres-bruxas, as que arrepanham o cabelo e espumam da boca
gritando improprios aos maridos poderiam no ser to violentas como a atitude deles que simulam no as
escutar e continuam a ler o jornal, imperturbveis.
          Ou do pai que pune os filhos aplicando-lhe os mais severos castigos sem levantar a voz ou perder
a compostura.
          Ou das mes que, depois de baterem nas crianas desalmadamente, lhes comeam a falar com
sbita doura porque chegou algum de fora.
          Ou at do Nuno que, no fundo, me queria dizer "Eu, a amar-te assim, desta forma desesperada, e
tu completamente nas tintas para o meu sofrimento! " e que, por orgulho ou preconceito, se limitava a
insultar-me.
          Daquela vez, nem fora bem o palavro que me ferira, mas a dor que, apesar de tanto escrpulo,
fora capaz de lhe causar.
        E, cobardemente, desliguei o telefone escudada no libi da ofensa que o calibre do vernculo
comportava.
        Limpei as lgrimas e fui arrumar a gaveta dos talheres, para, logo a seguir, depilar as sobrancelhas
a pensar que a mulher do Vasco era parecida com a menina que mas arranjava no cabeleireiro.

       ***

        E depois, no meio da nossa pssima administrao das relaes, h sempre um ou dois cavalheiros
que nos rondam sem nenhuma razo muito evidente.
        Quando uma mulher no  extraordinariamente bela fica com dvidas, no sabe mesmo para qu, e
quando  extraordinariamente bela fica com mais ainda, porque o sabe bem de mais.
        Enfim: sei que fui apresentada a este cavaleiro andante no fim-de-semana no campo, num almoo
em casa de amigos, e que, por inrcia, o fui deixando arrastar na minha vida.
          No h explicao para isto.
          Quando os homens descobrem que, tal como eles, tambm somos capazes de manter estas
gavetas secretas, ficam muito desconcertados; no compreendem se nos deixamos erotizar por esses
zorros ocasionais, se ser por armazenagem ou por simples cabritice que os conservamos.
          No meu caso no era por nenhuma dessas razes, mas por algo mais indigente ainda: comoviam-me
sempre os afectos dos outros, sobretudo os que me eram dedicados.
          Este homem, em particular, no me arrebatava.
          Era bonito, talvez, mas tratava-me por "a menina" e chamava-se Vtor ao mesmo tempo.
          Impingiu-se para subir, depois de me levar  porta, e cravou-me um whisky.
          Eu no gostava de os receber em casa no s por causa da solido das vizinhas, mas sobretudo
porque tinha as crianas a dormir a essas horas e, se fosse pequena, tambm no gostaria de acordar a
meio da noite para fazer chichi e dar de caras com um desconhecido esparralhado na sala a falar com a
minha me numa voz estranha.
          Comecei por lhe dizer que era tri-divorciada, o que era mentira, que a minha vida era um caos, o
que no era to verdade assim, e que os meus amigos me chamavam "a viva-negra" por causa da minha raiva
contra os homens, o que era absolutamente inventado.
          Era um quadro falseado, sim, mas absolutamente moral dada a minha incapacidade de formular
recusas explcitas, e eu carregava nas tintas para ver se o desmotivava.
          Mas aquilo em lugar de o assustar - todos os homens se apavoram com mulheres enredadas em
teias de problemas parecia descompromet-lo:
            - Ento, temos mesmo que celebrar, no temos?  a mesma gerao que se encontra e eu tenho
tambm uma vida complicadssima que gostava de lhe contar!
            Valha-me Deus.
            O homem era, calcule-se, botnico, e eu confesso que a ltima coisa de que me apetecia falar s
duas e meia da manh, hora a que chegara de fora, era da vida maravilhosa das plantas.
            No consegui evit-lo.
            Torturou-me duas horas seguidas com uma conversa absolutamente esquizofrnica sobre
tubrculos e colmos, e era o meu polimento, o mesmo polimento que tantas situaes ambguas j me criara
no passado, que me retinha ali, a falar com aquele emplastro.
            - Voc no est a ouvir nada do que eu lhe estou a dizer...
            Pudera.
            Ele acabara de me explicar que os pssaros comem o fruto e engolem a semente sem contudo a
digerirem, devolvendo-a beneficiada pelos sucos digestivos, e insistia, dramatizando:
            - Com um pouco de sorte, a semente agarra-se ao torro onde foi depositada, ou quele para onde
o vento a arrastou, e a nova planta, graas ao seu amigo pssaro, pode enfim deitar razes e conquistar o
seu lugar ao sol longe da sombra nefasta dos ramos maternos!
            Que deleite.
            E como esse, ainda por cima, tinha daqueles olhos que se grudam s pessoas e no nos deixam
sequer desviar os nossos para os pousar nos quadros, o esforo que eu fazia para conservar os meus no
mesmo plano causava-me um sono invencvel.
            Ouvia-o portanto num estado de modorra hemiplgica, ou seja, com metade do corpo a dormir e a
outra metade acordada apenas o suficiente para lhe poder ir dizendo "que giro" ou "ah, sim?", mas ele era
to desatento que no se apercebia do meu sono nem da minha fadiga, ou pior, fingia que no se apercebia
porque o whisky era velho e a solido egosta.
           -  to bom falar com quem nos compreende!... - suspirava ele, gratssimo.
           Era o tipo de situao absolutamente impossvel de se passar com uma mulher: sempre que
sentimos que maamos ou pesamos, detectamo-lo antes do homem.
           - Pois  - dizia eu, no limite. - Mas olhe que dormir  quase to importante como isso e j  to
tarde...
           - O que interessam as horas? - chocava-se ele, recostando-se no sof. - O que interessam as
horas se este tempo que aqui passamos juntos nos faz recuperar muito daquele que perdemos?
           Falava evidentemente por ele porque, quanto a mim, comeava a amaldioar aquela silhueta
desfocada pelo sono, embora toda a minha expresso aparentasse o contrrio e se esforasse por
transmitir uma imagem corts e atenciosa.
         - Quer outro whisky?
         Sentia-me devassada mas, sempre que ele se calava, via-me na obrigao de lhe mostrar que
acompanhava a conversa e tornava-me pattica, absolutamente pattica e com uma nusea que subia por
mim acima e me chegava aos olhos:
         - Ainda me lembro de que, no fruto, a semente  dividida em tegumento e amndoa, no ?
         Mas rapidamente estragava tudo, traindo o meu desinteresse:
         - Tem graa como eu ainda me lembro destas merdas! Quando era pequena fazia tanto esforo
para no as decorar, e, mesmo assim, colaram-se a mim...
         E j cruel:
         - Isto e os Caminhos de Ferro de Benguela que, neste momento, devem estar todos intransitveis!
          Partiu-se dos frutos para a poltica e desta para os divrcios de um e doutro, e eu apercebia-me
de que, ao mesmo tempo, ele aproveitava para tirar informaes a meu respeito com sucessivos "H quanto
tempo vive nesta casa" ou "Esta casa  sua ou do seu marido" e a minha crispao aumentava enquanto a
minha educao me tolhia os movimentos e a prpria fala.
         Respondia por snteses brevssimas e quase enigmticas na esperana de que ele atingisse que no
estava disposta a partilhar com ele absolutamente nada da minha vida privada, mas ele era to
desconcertante que assinou a sua sentena de morte desta forma sexy:
            - E s por curiosidade: quanto  que ganha por ms?
           Fiquei interdita a olhar para ele pensando que nenhuma mulher do mundo seria capaz de uma
cavalidade daquelas, e, de to furiosa, a nica coisa que me ocorreu foi fechar os olhos para o fazer crer
que a sua conversa me adormecera profundamente.
           Mas quem acabou por ser enrolada fui eu, que passei desse pequeno truque ingnuo a um
adormecimento efectivo, para acordar trs horas depois e deparar com ele a remexer nos meus CD como
se estivesse em casa, e a fumar um charuto cujo cheiro nauseabundo no escaparia, no dia seguinte, ao faro
vigilante dos meus filhos.
           Faltava meia hora para acordarem quando o expulsei dali com uma delicadeza j firme, um
ressentimento a trepar por mim acima e todos os ossos do meu corpo a protestarem contra a infeliz ideia
de me ter deixado dormir sentada por cima das pernas, de sapatos calados e com as costas desamparadas
de almofadas.
           No dia seguinte acordei com uma dor nas costas escarninha e a voz do prprio ao telefone, e, 
tarde, no me consegui livrar de um convite seu para almoar, apesar de toda a criatividade investido na
alegao de compromissos, comeando por dizer que segunda no, e tera tambm no, e quarta que ento
me era completamente impossvel, mas ele descobriu-me uma brecha que no me foi possvel declinar
porque, por qualquer mecanismo incompreensvel, perdera entretanto a coragem:
           - Sexta? Sexta talvez. Onde?
           - Onde a menina quiser.
           E foi s quando ele se fez aparecer  hora combinada, com o ar de quem abre uma excepo e de
que no faz parte dos seus hbitos atravessar a cidade para se encontrar com algum que s lhe dispensa
duas horas miserveis, que eu lhe declarei guerra por cima de uma feijoada de lebre e debaixo de um
contentamento postio, aproveitando uma altura em que ele, dissertando sobre a sua personalidade,
mencionara o alter-ego:
           - Est-se a referir  conscincia crtica, no est? - interrompi.
           Ele pestanejou e reagiu com orgulho: - Precisamente.
           - Ento, era super-ego que voc queria dizer...
           - No era.
           - Ai isso  que era, desculpe...
           - No era.
           - Est bem, pronto, no era...
           Mas ele queria ganhar, precisava de ganhar, e com toda a razo, talvez:
           - Desculpe: voc no sabe ao que eu me referia...
           - No sei porqu, claro que sei, ouvi-o perfeitamente! Ri-me, subindo o tom. E alarmando a tasca
inteira: - O que voc queria dizer era super-ego e eu tenho absoluta certeza do que lhe estou a dizer! No
percebo nem de plantas, nem de frutos, nem de troncos, nem de sarmentos ou espiques, mas percebo
alguma coisa, note-se, apenas alguma coisa de psicologia e sei do que estou a falar!
           - Sabe?
           - Sei.
           - Tem a certeza?
           - Tenho!
           - Como  que pode ter a certeza?
           Aquilo era um calvrio, um verdadeiro calvrio:
           - Porque ainda no me esqueci do Freud, infelizmente!
           A defesa era confrangedora:
           - Espere l: mas o super-ego no pode ser tambm aquela espcie de duplo onde nos revemos?
           Mas eu j no disfarava, fervia:
           - No. Isso  o alter-ego!!!
           Finalmente, ele percebeu que o que estava em causa no era propriamente a definio do termo
utilizado, mas a da sua imagem aos meus olhos:
           - O que eu no percebo  o que significa essa agressividade toda contra mim...
           E j sem hipteses nenhumas:
           - Fiz-lhe algum mal?
          No fim daquele almoo interminvel, em que ele tentara desesperadamente resgatar a sua
imagem entre o fl e o descafenado, provando-me que era erudito em muitas outras matrias, levantei-me
da mesa com uma vontade imensa de tomar banho para ver se me desenvencilhava no de fragmentos dele
no meu corpo, como costumam ansiar as violadas, mas dessa menoridade que me perseguia desde sempre
para me fazer cair em situaes que apenas acentuavam a minha solido.
          - Ento, at sempre! Foi muito agradvel...
          - Mas, no quer repetir o almoo um destes dias? - perguntou ele, gorado. - Comportei-me de uma
maneira que a esfriou, foi?
        Como  que eu lhe podia responder honestamente sem o incapacitar para a vida?
        - No, no, pelo contrrio: este almocinho foi at muito simptico! Mas no tive tempo de lhe dizer
que tenho um namorado, sabe? E um namorado ciumento que no percebe nem quer perceber estas coisas
paralelas que de vez em quando sucedem a todos ns, compreende?
        - Compreendo - disse ele. - Eu tambm tenho uma namorada.
        Olhei-o interdita, pensando: um homem parvo e ainda por cima partilhado?
          Ficou parado a ver-me entrar no carro, cheia de pressa, e s em casa consegui reconstituir a sua
ltima frase:
          - Espere! Trazia aqui um livro para lhe oferecer ...

        ***

           Eu renascia nos braos do Vasco, pensando que o sexo era mais uma prova insofismvel do gnio
de Deus, essa coisa de se poder viv-lo com a mesma expectativa de sucesso ou insucesso, sem privilgios
de instruo, inteligncia, plstica, bero ou saldo bancrio.
           Mas precisava de no o desbaratar porque o sexo era, de facto, uma ddiva.
           Uma ddiva na fora que tinha para derrubar fronteiras e classes, na autonomia de que gozava
para dispensar instrutores, na virtualidade que continha para se parecer com o amor. - Foi a nica
perverso de Deus - garantia a Mafalda. - A nica: esconder o amor dentro do sexo.
           E fora.
           Fazem-se exactamente os mesmos gestos, do-se exactamente os mesmos beijos a uma pessoa
que amemos ou que apenas nos atraia.
            talvez esse mistrio que o torna to inexoravelmente indeclinvel: o facto de ser igual e
diferente para toda a gente, limitado e infinito, sagrado e sacrlego, hmido e doce, suado e bestial, lcido
e insano, extenuante e sempre insuficiente.
            redentor constatar, embora no dia seguinte nos repugne admitir, que fomos capazes de beijar,
abraar e apertar com devoo pessoas que nos so estranhas, pessoas que no so nossas.
           E mesmo a mais ardente das entregas, e mesmo a mais crua das palavras, por muito viciosa ou
srdida que parea, tem sempre a sua candura prpria, uma raiz infantil, uma qualquer razo que a ser vital
nunca pode valer nem mais nem menos do que a razo em si.
           E, em ltima anlise, estaremos sempre credores dos seus poderes teraputicas, energticos,
profilcticos, alqumicos.
           Tambm porque o sexo gera gente de carne e osso, primeiro pequena e depois grande, ou
primeiro grande e depois pequena que  outro dos seus mistrios, mas no o maior: o maior so as pulses, a
inspirao renovada pelo bater do corao, a fuso da alma com o esprito e com a inteligncia artesanal
das festas que se fazem, o pudor e a libertao, os dois ou trs esconderijos do corpo que nos permitem
encontrar o belo no grotesco, a mgoa na violncia, a ternura na pressa, e adorar tudo isso da mesma forma
cerimoniosa e aos poucos e poucos voraz.
           Na cama, tudo o que se quer  gente de carne e osso ao nosso lado, abandonada, desarmada, feliz,
esquecida das suas dores e acima de tudo nossa.
           Dure o que durar, nossa.
           Verdadeira ou falsa, ignorante ou sbia, mas igualmente capaz e sempre nossa em qualquer dos
casos.
           E  s na cama, talvez, que a beleza pode ser irrelevante, a imperfeio bela, a verve
desnecessria, a cultura v, o poder ridculo.
          Na cama, tudo o que se quer  ter ao lado uma pessoa que nos queira.
           possvel que no dia, que no momento seguinte todo o mal reaparea, todo o nosso egosmo e
crueldade e escrnio e oportunismo regressem intactos, mas o dia ou o momento seguinte  to longe
naquela altura que no importa, nada importa, nem mesmo, como nos demonstra o Mundo de antes e de
depois da Doena, nem mesmo a morte importa.
          E nem o amor consegue cegar tanto!
          O sexo  o abandono, a rendio, as pazes com o Mundo e com ns mesmos, a companhia, o perdo
e a desforra sem propsito de vingana, o paradoxo da posse descarada ou da prepotncia mxima que nem
sempre faz vtimas e s vezes at consola.
           to grande, e  to mgico, e  to profcuo, que atravs dele aprendemos a amar, a estimar, a
ler, a conhecer, a compreender e a perdoar a imperfeio do Mundo, a fragilidade das pessoas e sobretudo
a nossa, e s por isso vale o que vale: vale-nos.
          E  to recente, o sexo.
          S h pouco saiu dos livros para as salas, dos filmes para as conversas, dos homens para as
mulheres, das casas para as ruas, da cama dos outros para a nossa.
           at compreensvel que poucos se interessem em decifrar-lhe os enigmas, aprender-lhe os
truques, seguir as instrues dos manuais, ou fazer batota com a ajuda de afrodisacos ou arsenais porque
o que est em causa somos ns,  isso que o sexo tem de mgico e criador, a nossa capacidade de dar vida a
uma massa inerte, a nossa intrepidez para nos desenrascarmos sozinhos numa barcaa no mar alto, de nos
atirarmos de pra-quedas pela primeira vez, em cada corpo que passa, em cada corao convalescente,
apavorado.
          Devia ser morto quem lhe chamara relao ou intercourse, devia ser abenoado quem lhe chamara
aventura. No se deveria cair no lugar-comum de lhe chamar descoberta se o lugar-comum no fosse,
sempre, um achado de evidncia inquestionvel.
           descoberta, sim, porque o sexo  uma estante a convidar-nos a ler, a compreender o ser
humano em toda a sua misria e grandeza, em toda a sua suficincia e dependncia, sem contudo se querer
nunca violar o mistrio, sem contudo se querer nunca desvend-lo completamente, porque  na sua, por
assim dizer, opacidade, que se esconde o segredo do seu perptuo aliciante.
          E as pulses so simples, afinal: vm de tudo o que no pudmos, de tudo a que no chegmos, de
tudo o que no devemos, de tudo o que nos falta ou a que nos afeiomos, de tudo o que no nos deram ou
deram a mais ou de nada de especial.
          Porque isso varia de pessoa para pessoa e de ns em ns, porque, fundamentalmente,  no sexo
que est, que esteve sempre, a nica escola no cabotina da liberdade, a nica catequese no beata da
generosidade, a nica faculdade no terica da psicologia, e  atravs dele, dele e da to reprimida e mais
do que nunca perigosa infidelidade, que todos ns, queiramos ou no, acabamos por nos beijar uns aos
outros.
          E as chamadas zonas ergenas, que tambm se podem chamar teclas ou cordas para fingir que a
coisa  mais artstica do que , que talvez nos inquietem por de vez em quando nos recordarem a nossa
condio de brinquedos - ds corda ao ursinho e ele bate palmas -, isoladas e estimuladas maquinalmente
como quem faz respirao boca-a-boca, ou seja, como quem beija para recuperar um afogado, so para os
desfavorecidos que partem para a cama de manual de instrues debaixo do brao.
          Tambm o so para ns, claro, j que todos lhes somos vulnerveis, mas sem uma inteligncia a
pressenti-las, uma sensibilidade a indic-las, uma intuio a descobri-las, valem, quando muito, o choque
elctrico provocado por umas mos molhadas em contacto com um fio descarnado, uma coisa com a mera
dimenso de coisa de que no fica lembrana nem saudade.
          O que me interessa na carne  o esprito, mentia a Mansfield.
          Na cama a pessoa nunca  s carne, a pessoa nunca  s esprito.
          Nela, cada pessoa gosta de uma coisa diferente, precisa de uma coisa diferente, quer tmida e
desesperadamente uma coisa diferente, de si ou do outro, e quer sobretudo dissolver todos os pudores
para poder descobrir o outro e revelar-se a si mesma.
          Quando  falado, comungado, chorado ou rido, pode-se viver do sexo dias, semanas, meses ou
anos s com a simples evocao.
          E quando se experimenta aquela espcie de gratido que vem a seguir e que torna duas pessoas
eternas na memria de ambas, convm at no vandalizar, no profanar, no sobrepor com outras pessoas,
no dar outros beijos logo.
          Porque  de certeza aquele o quadro mais belo, o soneto mais perfeito, a ria mais sublime, o livro
mais grato.
          Embora seja ainda mais do que um quadro, porque se pode tocar a pele das figuras da tela, mais
do que uma ria, porque se encostarmos a cabea com cuidado podemos escutar distintamente o corao
dos msicos, e at mais do que um livro porque, no tendo letras nem enredo nem estampas,  nele que
esto todas, ou quase todas, as respostas da vida.
          Mas o Vasco pedia-me, delicado, que avaliasse o seu desempenho :
          - Foi bom?
          E eu respondia s assim, porque a vida era outra coisa:
          - Foi.

        ***

         As pessoas bem podem lamentar que os seus actos no correspondam a movimentos interiores
transcendentais, mas  a ordens menores que quase sempre obedecemos.
         Deixara entrar o botnico em minha casa, naquela noite interminvel, apenas para fugir ao
imperativo moral e s moral de escolher entre o Nuno e o Vasco - um, impossvel por no ter futuro, outro,
inexistente por no ter passado.
         O mais certo seria no gostar nem dum nem doutro e servir-me do botnico para iludir esse vazio.
         Mas se, por um lado, me era penosa a ideia de no amar ningum, por outro sentia alvio.
         No dia seguinte, era at possvel que nada daquilo me beliscasse: j no havia Nuno, j no havia
Vasco, j no havia hormonas nem fantasias porque, na realidade, s a vida me arrebatava.
         Era a esse desafio, o da Vida, a esse jogo de glria apaixonante que eu estava grata realmente.
         As pequenas vitrias impartilhveis, os sortilgios que s a mim me diziam, as coisas que no tinham
significado na altura e que o adquiriam mais tarde, a renovao sistemtica que os outros me facultavam, o
tempo a revelar-me a pouco e pouco, tudo isso era capaz de despertar em mim vibraes mais intensas do
que o sexo ou do que os homens.
          Mas, apesar disso, dava comigo a ligar o nmero do botnico, envergonhada com as misrias da
minha alma e confessando-o logo:
          - Ol, sou eu. Falei-lhe nem sei bem porqu...
          Sabia, achava que sabia. No fundo, o que eu queria era dizer-lhe: "Eu sei que no podes, coitado,
que no tens possibilidades; mas faz uma pirueta qualquer e ajuda-me, por favor!
         Mas faz uma pirueta qualquer e ajuda-me, por favor! Ajuda-me a sair desta, porque no tenho mais
ningum ... "
         Mas s de ouvir a sua voz a reconhecer a minha, pressurosa, arrependia-me. Afinal, o nico
interesse dele era ter outra mulher.
          - Ol, Ana! Sinceramente, julguei que j nem se lembrava de mim...
          Era verdade, e nem ele nem eu sabamos quanto.
          - No era para nada, a srio. A situao com o meu namorado mantm-se. Mas como, no outro
dia, a seguir ao almoo, o ouvi dizer que tinha um presente para mim...
          No estava zangado.
          Os homens ou estavam em ns ou estavam fora e este ainda estava comigo:
          - Tinha um livro para si, tinha, e sabe o que era? - perguntou, criando mistrio.
          - O qu? - interessei-me a medo.
          Respondeu apotetico, como se me satisfizesse um velho sonho:
          - Um livro antigo sobre aucenas!
          - Ah! - fiz eu, atnita. - Que giro...
          E logo ele, entusiasmado:
          - Sabia que o ramo de aucenas mantm o seu significado nas cerimnias nupciais?
          No, no sabia, no me interessava, e desejava ardentemente que todo aquele vestibular no
servisse para, no fim, me brindar com uma aluso descabida.
          - Sim, talvez. Tinha uma vaga ideia...
         - Mas no fazia ideia de que eu ia pedi-la em casamento nesse dia, pois no, Ana?
         Fiquei de boca aberta de telefone na mo, primeiro afnica e depois indignada:
          - Mas, estar louco por acaso? Voc nem me conhece
          - A  que a menina se engana - disse. - Conheo-a muito melhor do que julga...
          Nada me irritava mais do que aquela frase calista.
          - No conhece nada! - protestei, furiosa. - Se as pessoas fossem capazes de me conhecer assim,
to depressa, quase que no valeria a pena viver! No me pode conhecer e muito menos gostar de mim!
          E provando-lhe:
          - Eu nem sequer fui simptica consigo!
          - Est bem - admitiu ele. - Mas eu gosto de si independentemente do que voc  ou faz...
          Outra mentira, outra impossibilidade absoluta!
          - Ento  indiferente ser eu ou outra qualquer, percebe?
          Tudo aquilo me parecia to imbecil que nem sequer chegava a comover-me.
          - Oia, Vtor: no estamos outra vez muito sinfnicos, para variar. A ltima coisa que eu faria
agora era casar-me. E, alm disso, se quer que lhe confesse e se conseguir no se ofender, a verdade  que
no gosto de ningum. Nem de si, nem mesmo dos meus namorados...
          - Namorados?
          Estava no seu direito de estranhar o plural.
          - Sim, namorados! No lhe contei para no o escandalizar, mas neste momento ando s voltas com
duas pessoas ao mesmo tempo...
          E abreviando:
          - Duma talvez goste, mas atrapalha-me na mesma...
          - Nesse caso - interrompeu, orgulhoso -, retiro-me j e no se fala mais nisso...
          - Exactamente! - aproveitei. - No se fala mais nisso e, quando se deixar de romantismos,
telefone-me para irmos ao cinema!
          E sem o querer perder, apesar de tudo:
          - Quer?

        ***
        Acontecera numa tarde vulgarssima em que fora ao centro comercial com o meu filho disposta a
comprar-lhe umas sapatilhas de basquete, mal vestida e desmazelada, num daqueles dias em que as
mulheres se convencem, talvez por estarem com os filhos, que no vo encontrar ningum que conheam ou
repare nelas.
        Estava pois a olhar para a montra da loja concentrada na escolha, com o mido a apontar-me as
sapatilhas mais caras do escaparate e eu a convenc-lo de que, a crescer como estava, no era
absolutamente imprescindvel que fossem eternas, quando distingui, pelo vidro da montra, a silhueta do
Vasco a deslizar atrs de mim.
        Virei-me imediatamente para acreditar nos meus olhos: estava com a mulher, de brao dado!
        Passeavam os dois muito calmos, vendo as montras como peas de museu, rindo e trocando graas,
numa atmosfera to amiga que me gelou o sangue.
        Mas o Afonso queria que eu entrasse na loja naquele instante, puxando-me pelo brao, impaciente.
        E tinha razo: a seleco j fora feita da montra e s faltava provar.
        - Venha, me, j sabemos quais so! Venha...
        - Espera - pedi-lhe, sem pulsao. E j a tremer das pernas: - Espera, que eu estou a ver uma
pessoa que j no vejo h muito tempo...
        O Afonso preparava-se para ser malcriado quando lhe apertei o brao, severa:
        - No faas fitas, os sapatos no fogem! No saas daqui, que a me j vem...
        Corri ento direita a eles como um fuso, sem escutar nem os protestos do meu filho nem as
premissas da minha alma, e foi s no fim do corredor que os alcancei.
           J arfava, ao abord-los:
           - Sabem dizer-me onde fica a loja dos discos?
           Queria ver a reaco dele e a surpresa da patroa, mas nunca por nunca me passara pela cabea
que ela pudesse ser melhor ao natural.
           Foi o Vasco quem primeiro reagiu, ao mesmo tempo lvido e corajoso:
           - Ol, Ana...
           A mulher rodou imediatamente a cabea na minha direco, para perceber o que se passava, e
passou os olhos por mim, desinteressada.
           - A, era voc? - perguntei ao Vasco, teatral. - Desculpe, no reparei. S os vi de costas...
           E justificando-me:
           - J ando aqui h meia hora s voltas e no consigo dar com o raio da loja! So as terceiras
pessoas a quem pergunto!
           E estendendo-lhe a mo:
           - Est bom?
           A mulher agora j intua qualquer coisa, mas no podia provar nada. O Vasco precipitou-se a
apresentar-ma da forma que eu lhe ensinara:
           -  a Gi...
           - E eu sou a Ana - devolvi, cravando os olhos no seu tailleur controverso. E para evitar dar-lhe um
beijo: - Isto est to cheio, no est?
           Mas algo com que no contava ocorreu: o Afonso, farto de esperar por mim, vinha ao meu
encontro para me tirar a febre:
           -  me! E os sapatos? j se esqueceu?
           A deixa comprometia-me, tive de disfarar:
           - Olha. Fala a estes senhores, que so amigos da me ...
           O Afonso disse ol e ela sorriu, polida, subitamente enternecida com a presena dele:
         - Que idade tens?
         - Nove.
         - J andas na escola?
         Era estpida, devia ser muito estpida aquela mulher.
         - Bom - abreviei eu, no limite de tudo ficar perceptvel.
         - Sabem ento dizer-me onde fica a loja?
           - Aqui - respondeu o Vasco, vingando-se. - Precisamente aqui...
         E, de olhos acesos, apontava-me a loja ali ao lado.
         - Obrigada - disse eu, com um sorriso ictrico. - Despisto-me sempre que ando nestes corredores...
         E apressando as despedidas: - Adeus, at qualquer dia!
         Mas, para meu azar, o meu filho voltava a reincidir na presena dela:
         - Loja? Que loja? A me andava a procura de uma loja e deixou-me ali sozinho? No disse que
tinha visto um amigo?
         - Cala-te - rosnei, j depois de lhes ter virado as costas. No podes compreender tudo o que se
passa  tua volta!
         E furibunda:
         - Vamos l comprar os teus sapatos!
         De regresso a casa, intoxicada pelo cheiro pestilento de uns sapatos podres trocados ali mesmo e
atirados para a trascra do carro, s pensava na sntese que o Vasco faria para me justificar aos olhos da
mulher.
         De todas, intu esta:
         -  advogada. Trabalhou l no escritrio durante uns tempos.  meio desmiolada...
         E a madame a pontificar, implacvel:
         -  trapalhona e arranja-se mal.
           Esmagada pela impossibilidade do Vasco, cheguei a casa e chorei durante algum tempo, trancada
no quarto.
           O Afonso estranhava o meu nervosismo desde a cena da sapataria. Muito delicadamente, o que
no era seu hbito, bateu  porta e perguntou baixinho:
           - O que  que a me tem?
          - Nada - soluava eu, dramtica. - A me no tem nada, a me no tem nada de nada!
          Mas o mido percebia, to pequeno, o alcance do trocadilho:
           - A me tem-me a mim...
            Mas eu, estpida, em vez de me mostrar contente, redobrava o pranto e abafava os soluos na
 almofada:
            -  meu querido, tu tens uma me maluca! Tens a certeza de que no queres outra?
            - No quero! - recusava o mido, chocado. - No quero outra, quero esta!
           E impondo as suas condies:
           - Quero esta, mas sem estar a chorar!
          - Ento  impossvel - gritei. - Todos ns nascemos a chorar!
          Mas depois suspendi os soluos, lembrando-me de que no tinha o direito de impressionar a
criana. As mulheres precisam destas cenas como de po para a boca, mas os filhos no, os filhos sofrem
com elas.
           Abri a porta com um ar reabilitado para a vida, peguei nele ao colo com uma guinada nas costas e
 anunciei-lhe, com uma nova fora:
           - Amanh, vou dar-te dinheiro para comeres no bar! Ests farto da cantina, no ests?
           E ele riu-se ento, desconfiado, como se reconhecesse aquela msica:
           - Est outra vez a comprar-me um sorriso?
           - Estou - admiti com desplante. - Para que  que serve o dinheiro, seno para comprar sorrisos?
           - Mas no  justo - protestou o mido -, eu a si no lhe posso comprar nenhum sorriso! A me,
esta semana, esqueceu-se de me dar a semanada...
           E, sem querer, o meu filho lembrava-me: tambm os sorrisos que me faziam eram pagos por mim.

       ***

        O Vasco procurara-me logo, abismado com o meu topete:
        - Que bicho te mordeu? Quiseste conhecer a Gi, foi?
        - Sim - respondi, crispada s de ouvir aquele nome talvez...
        Irritou-o o meu ar ausente:
           - Mas, se queres conhec-la, no h problema nenhum: convido-te para jantar um dia destes...
           - Ai, sim? - gritei. - E quando  que podia ser?
           Resolveu baixar a voz, alarmado pela minha:
        Ests a gritar, Ana. No podemos falar civilizadamente?
        - Civilizadamente? - formulei, incrdula. E berrando-lhe, irracional: - Moiss foi civilizado quando
partiu as tbuas da lei? Cristo foi civilizado templo?
           Preparava-se para responder como eu merecia, mas no lhe dei tempo:
           - Quando? - perguntei. - Quando  que podia ser?
           Ele olhou-me prudente, eu aproveitei:
           - O que lhe disseste a meu respeito?
           - O que querias tu que eu lhe dissesse? Apanhaste-me assim, completamente desprevenido...
           - Mas o que  que lhe disseste? - insisti.
           - Que eras advogada e tinhas trabalhado em tempos l no escritrio...
          - Tenho cara de advogada? - perguntei, ferida, sem saber porqu, no mais fundo da minha alma. -
 No podias ter inventado nada mais prestigiante?
            - Ana - lembrou ele, baixinho. - Eu tambm sou advogado...
           Ri-me por reflexo, no por estar divertida:
           - Que comentrios  que ela fez?
          - Nenhuns - respondeu, puxando pela memria. Perguntou-me de facto quem tu eras, disse-me que
no se lembrava de nenhuma Ana, e depois...
       - E depois o qu? - ameacei.
       Mas aqui foi ele que se riu:
       - Disse-me que no devias ser uma me por a alm...
       - Uma me por a alm, foi isso que ela disse? - perguntei, chispando dio. - A tua mulher  um
bocado estpida, no , Vasco?
       E ele safou-se assim:
       - Qual delas?
       Acontecia-me sempre quando ele chegava para mim, no sabia perder:
       - Sabes porque  que vocs, homens, no tm nunca tanto interesse como poderiam ter?
       - Porqu? - perguntou ele, armando-se de coragem para a estocada final. - Diz l porqu...
       - Porque nos aturam.
       E demonaca:
       - Um verdadeiro homem no nos atura!

       ***

          O Vasco passou a buscar-me para jantar nessa mesma noite, sem rancores.
          - Como te arranjas em casa para nunca me faltares? perguntei-lhe, arrependida. - Ests a ter
problemas por causa de mim?
          Percebi que sim, pela expresso que fez, mas via-se que no queria confessar-mo.
          As mulheres eram resistentes, mas os homens eram esticos, caramba!
          Deus, quanto o amava.
          Quanto o amava pela sua coragem, pela sua sinceridade, pelo esforo que fazia para me conservar
apesar do cardo em que me tornara ultimamente - ou talvez s por ser homem, quem sabe, e estar ali ao p
de mim...
          - Sabes - aproveitou ele -, as mulheres sabem sempre tudo. A Gi deve estar a coleccionar as
contas todas para mas fazer pagar ao mesmo tempo...
          E procurando-me os olhos, receoso:
          - -te familiar, este tipo de cobrana?
          Claro que sim, em certas coisas ramos todas iguais; mas nem morta o confessaria.
        - Queres desistir? Ainda ests a tempo...  desafiei cobardemente.
        Ele declinou a minha "generosidade" de uma forma que me assustou:
        - Eu sei que estou sempre a tempo, no precisas de mo lembrar...
        - Ouve, Vasco - disse eu. - Aqui h tempos, levei uma sova de um homem...
        Vieram-me lgrimas aos olhos, mas no sabia se era fita. No, no era fita: de vez em quando
precisvamos de chorar para que acreditassem em ns.
           - Lembras-te quando te disse que andava com conjuntivite?
           O Vasco levantou-se imediatamente, nervoso: - Tens outro homem?
           No era a minha dor que ele sentia, era a dele. Talvez por isso tive que mentir s um bocadinho.
Exactamente do que ele precisava e nem mais um palavra.
          - Tinha. Agora j no tenho. Acabou contigo. Foi por causa de ti...
          - Quem  esse gajo? - perguntou ele, transfigurado, esticando os punhos e o pescoo ao mesmo
tempo.
          - O meu antigo namorado. Uma coisa arrastada, sem transcendncia nenhuma...
          - Vou-lhe  cara - disse. - Desfao-lhe as trombas em dois tempos, tu no me conheces..
          E pronto. j no era preciso que o fizesse. j me tinha provado que o faria. j me sentia vingada.
          - O que ganhas em estar comigo? - perguntei-lhe, quando se preparava para me deixar em casa.
          - Aprendo que a infidelidade  impossvel, com mulheres como tu ao lado...
          A resposta era uma faca de dois gumes, mas no me desagradou inteiramente.
          - Isso  muito curto. Isso j tu sabias. Isso tambm  verdade com qualquer outro tipo de
mulher!
          - No  - negou peremptrio. - Eu j tive outro tipo de mulheres a insinuarem-se...
          - Quem? - saltei.
         - Gajas - respondeu ele. - Gajas que no nos levam a ser verdadeiramente infiis. Gajas que no
substituem ningum...
         Desgostava-me que se referissem assim s mulheres e reagi por todas elas:
          - Por serem feias? Por serem ordinrias?
          Ele suspirou antes de responder:
          - No, Ana. Por no nos fazem sofrer o suficiente. Para se ser infiel, se a nossa mulher no
sabe, a outra tem de nos fazer sofrer o suficiente...
          Ficmos assim, naquele dia, sem mexer mais dentro de ns. Despedi-me com um beijo que lhe
pedia perdo por todos os excessos. E tambm por no me limitar a ser gaja.
          - Amo-te - disse ele.
          Mas aquilo soou-me a "Gosto de ti, apesar de tudo" e eu confirmava que amar um homem sem
retaliao no era possvel, at porque eles precisavam dela para expiar as suas culpas.

       ***

          sempre de manh, depois de acordar e antes de abrir os olhos, que tomo conscincia das minhas
fragilidades.
         Era nessas alturas, em que fao um balano impiedoso de mim prpria, que deveria tomar as
grandes resolues da minha vida; mas estou sempre ensonada demais para evoluir e depois de lavar os
dentes j no h nada a fazer: calo com os sapatos a personalidade da vspera e moldo-me sem
resistncia quela plasticina parecida comigo.
           Mas sei a que me sabem esses momentos.
            um angstia localizada na garganta, de medo do futuro e de completa desproteco, e isso
talvez se deva  falta objectiva que um homem me faz dentro de casa.
           No para fazer voz grossa aos outros homens, nem para me dar dinheiro ao fim do ms; para me
proteger fisicamente dessa ameaa que sentem todas as mulheres do mundo a viverem sozinhas com os
seus filhos, e que passa, talvez, pela conscincia de uma inferioridade muscular, o medo latente de
assaltantes, de guerras, de falta de sade e de catstrofes.
           A mesma aflio que deveria sentir a mulher do cow-boy, a viver com os dez filhos no rancho da
pradaria, ao v-lo partir para caar e ficando  merc da vingana dos ndios, da libido dos forasteiros ou
da fome dos lobos.
           Era um fantasma que eu afugentava constantemente como se, da at ser velha, tivesse tempo
de sobra para encontrar um companheiro.
           No entanto, ainda no me sentia capaz de trocar a paixo pela paz do amor, e queria estar
disponvel para a vida, fosse ela boa ou m, para a surpresa da vida, para a imensido da vida, como se a
unio a um mesmo homem me ceifasse todas as possibilidades de lhe pertencer.
           No  a liberdade que  criativa,  a luta - dissera-me um dia uma senhora de setenta anos,
casada h cinquenta anos com o mesmo marido e alegre como um cuco.
           Em que  que ficvamos? O casamento tambm podia ser criativo? Sim, talvez, mas tinha ento
de ser muito infeliz para converter essa dor em criao. E os casamentos nunca nos faziam sentir
verdadeiramente infelizes, apenas outras.
           Contudo, se por um lado devia alguma coisa do que era ao egosmo dos homens, por outro as
foras comeavam a faltar-me.
          Andava simultaneamente preguiosa da ideia do Vasco e do futuro arriscado que ele
representava, e efectivamente dependente.
          Era uma clivagem que me desfazia em mil pedaos e me doa como um espinho sempre que saa de
junto dele e a magia se quebrava, tornando-o um estranho na minha vida e na minha memria.

       ***

       - A me no tem nada para eu arranjar? - perguntava-me o meu filho, num arroubo sbito pela
marcenaria.
          Tinha de ser uma coisa velha, que ele pudesse consertar e espatifar ao mesmo tempo.
          - Toma a chaves da arrecadao. Vai l buscar uma cadeira que l est, que era da av.  a mais
estragado de todas. V se lhe consegues colar a perna. Era ptimo se lhe conseguisses colar a perna...
           - E empresta-me a sua caixa de ferramentas?
           Aquilo ia dar-me um trabalho. Quase sempre, as brincadeiras das crianas implicam trabalho
acrescido para os pais.
           As delas e as nossas, pensava eu, a arranjar coragem para me separar do livro que tinha nas mos
e lhe possibilitar um entretenimento estimulante.
           - Toma. Tem cuidado para no martelares nenhum dedo...
           A diverso dele empatou-me o domingo todo.
           Primeiro, exigiu-me que o acompanhasse  cave para trazer no uma, mas todas as cadeiras que l
tinha.
           Eu j previa o logro da empreitada, mas era obrigada a fingir que acreditava no seu expediente.
           Educar um filho passava por tudo isto.
           Segundo, deixou-me a sala de pantanas, com fagulhas enterradas na alcatifa, os sofs sujos de
serradora, duas cadeiras mais estragados do que estavam, uma desistncia sbita agora j chega, agora
quero ir lanchar -, e ainda um golpe na mo com o serrote ferrugento que me obrigou sucessivamente a
trocar de roupa, a levantar dinheiro da mquina, a pr gasolina e a procurar uma farmcia de servio.
           Danada pela devassa que representava algum arrancar-me  minha solido e  minha tristeza -
merda, estava eu to bem aqui a sofrer -, uma profunda comoo por aquele dez reis de gente que era
simultaneamente a minha testemunha e o meu heri.
           - D c um beijo. Sais ao teu pai com essa mania de arranjar as coisas em casa...
           Aquele mido, qualquer criana merece toda a generosidade do Mundo; at porque quando lhes
damos alguma coisa, estamos a dar  criana que j fomos e que morreu cedo demais.
           Todo o amor era interesseiro, a Mafalda tinha razo, e eu comeava a fartar-me dessa
desmontagem permanente que fazia de todos os meus gestos, como se constantemente duvidasse da minha
virtude.
           Quando finalmente o vi na cama pronto para dormir e ele me pediu para lhe contar uma histria,
desanimei:
           - Agora j chega, querido. Estive todo o dia ao teu servio, no achas que j chega?
           O Afonso no achava.
         - Conte-me s uma. Pequenina...
           O telefone tocava ao mesmo tempo e era o Vasco, de certeza.
           - Tenho de atender o telefone...
           Passou-me os braos por detrs da cabea e apertou-me contra si, para me reter:
           - S uma, est bem? Pequenina...
           Era completamente impossvel resistir quilo. No tinha disponibilidade mental para ele, mas
resistir quilo parecia-me criminoso.
           - No. Agora vais dormir. Sonha com coisas boas. Sabes que os sonhos se podem escolher?
           Era mentira; mas obrig-lo a inventariar ideias gratas antes de dormir parecia-me, naquela
pressa de me ver sozinha, compensador.
          Mas, antes de fechar a porta, reparei que o meu filho tinha a mo ligada estendida na minha
direco e um sorriso alusivo.
          Fechei os olhos: o Afonso queria um beijo na mo ferida, como se os meus beijos tivessem
propriedades cicatrizantes.
          E tinham.
          Lembrava-me daquela situao em pequena, com a minha me, e em adulta, com os meus homens.
Era uma necessidade que permanecia, muito depois das mes morrerem.
          Aproximei-me dele, como se carregasse uma mochila de pedras.
          A irm j dormia, e aquele cotomio continuava ali, a exigir-me inteira.
          Bolas, os meus filhos.
          Como continuar a lutar sem os esquecer, a trabalhar sem os negligenciar, a conservar a doura
desentupindo ralos e mudando pneus, a educ-los sem transportar para eles toda a minha revolta, por um
lado, e toda a minha necessidade de proteco,
         por outro?
          Ningum poderia imaginar o esforo que eu fazia para lhe dar um beijo naquele momento.
          O telefone deixara de tocar, e eu nunca poderia contar a ningum que o beijara nessa noite cheia
de raiva e ressentimento, amando-o como o amava.
          - Boa noite, meu querido.
          - Boa noite - disse ele. E informando-me: - No vou adormecer j. Se entretanto lhe apetecer
contar-me uma histria, conte-me aquela das trs laranjinhas de ouro, lembra-se? - Lembro-me, filho,
lembro-me - despachei, sem a menor inteno de lhe fazer a vontade.
           - No feche a porta! - pediu ainda. - Gosto de adormecer a ouvir os barulhos da casa!
           - Est bem, filho, a me no fecha. Dorme, que a me no fecha...
           Mas j na sala e de livro em punho, voluptuosa daquele luxo, vi tudo recomear como se o demnio
me tentasse:
          - Me!  me! Esqueci-me de lavar os dentes! E tambm me esqueci de lhe pedir dinheiro para
pagar a excurso ao Aqurio! E a me passou-me as minhas calas verdes?
          Para os dentes estava-me nas tintas; para as calas tambm; para o Aqurio era diferente e fui
obrigada a levantar-me outra vez para procurar a carteira, que nunca estava onde pensava.
          - Pronto! - explodi. - Agora j chega! No inventes mais pretextos, no?
          E fechando a porta do quarto j furiosa, indiferente aos seus protestos to ternos, ainda o ouvi
dizer:
          -  que custa-me tanto separar-me da me todas as noites...

       ***

          E se agora, pensava eu, por algum passo de magia, tivesse tempo para fazer tudo aquilo que no
fazia por falta dele?
          Realizar as milhares de coisas aparentemente proveitosas que empreenderia se tivesse outra
disponibilidade?
          Tempo para tratar do corpo, fazer ginstica ou diagnstico precoce? Tempo para contar
histrias aos filhos, passear com eles, ouvir os seus dramas? Tempo para ler, fazer pacincias, escrever
cartas? Tempo para passear sem destino, viajar sem pressas, conversar com estranhos? Tempo para ouvir
os pssaros, escutar o mar, fruir o silncio? Tempo para a gratido, para a inveno, para a preguia?
          Seria que tudo isso me restituiria a ordem interior? Me faria mais feliz, mais completa, mais
humana? Ou seria que todo esse tempo serviria apenas para confirmar o meu egosmo, confrontar-me com
a minha pequens, reencontrar as minhas incapacidades?
          No seria o tempo, ou a falta dele, o libi onde gostava de me perder para nunca me encontrar?
          Para que queria eu o tempo? Por que o perseguiria eu? Achar-me-ia mais forte, independente e
criativa do que os outros para o enfrentar e desfrutar?
          No me chegava todo o tempo que havia, o mesmo de toda a gente?
          E, se tivesse mais, seria que no me faria falta a falta de tempo?
          Ou seria que todas essas coisas que eu faria com o tempo no eram verdadeiramente essenciais?
Ou pelo menos no to essenciais como aquelas que fazia sem ele?
          Mas, se toda essa disponibilidade me trouxesse verdadeira felicidade eu no a teria j alcanado?
Ou comearia a ser normal conceber o paradoxo de que a felicidade me poderia tornar deslocado, perdida,
infeliz?
          De outra forma, porque razo insistia em privilegiar as coisas que me no traziam alegria em
prejuzo daquelas que me poderiam trazer paz?
          Por exemplo: por que  que eu ainda alimentava o que me causava dor?
          Sim, at eu j compreendera que a hora era breve, o instante nico, a oportunidade irrepetvel;
mas seria possvel que a felicidade fosse uma noo demasiado abstracta para mim? Demasiado suspeita?
Demasiado indemonstrvel?
        Seria possvel que houvesse em mim um qualquer crivo misterioso que, observada a instncia e
medida a possibilidade, ditasse  minha intuio que, apesar de bela, essa possibilidade me no convinha?
        Ou seria o conceito de Deus que me tolhia as foras e desanimava?
           Seria possvel que eu tivesse dificuldade em ver-me to perfeita que me desse vontade de rir
 essa verso misericordiosa e sbia de mim mesma?
           Mas, porque  que o espectro da perfeio me aterrorizava tanto? Porque seria que,
 deliberadamente, eu atrasava o passo?
           O que haveria de medonho no cumprimento de mim prpria? De sinistro na virtude? De
 montono na sabedoria? De perverso na graa?
           Porque  que eu no conseguia? Porque  que eu no conseguia nunca?
           Seria por culpa da falta de tempo, ou, pelo contrrio, seria a essa inesgotvel desculpa que eu
 deveria agradecer a possibilidade no poder ser mais do que eu prpria?
          - Mezinha..?
         - No posso acreditar: no fim disto tudo ainda no adormeceste?
       - Era s para perguntar uma coisa...
       - Diz depressa ou vou-me irritar...
         - A me amanh conta-me a histria das trs laranjinhas de ouro?
          - Vai-te deitar, Afonso...
          - Mas diga-me: conta-me?
          - Vai para a cama e no me chateies!
          - Mas conta, me?
          - Conto, talvez, que chatice! Se tiver tempo!

       ***

           A Mafalda telefonara-me um dia, indignada com o meu afastamento.
         - Definitivamente, no gosto desse homem!
         - Porqu?
           - Porque te impede de estar connosco. E ressentida: Eu lembro-me dele! Tinha todo o ar de
parvalho!...
           Enterneciam-me as duas: ela e a Pilar.
          - No  parvalho nenhum. Eu  que no tenho tempo para tudo: os filhos, a casa, o trabalho.
Como  que eu ainda ia desencantar tempo para vocs?
          - No sei nem me interessa - protestava ela. - Os amigos tm direitos! No podem ser chutados
sempre que um novo homem aparece!
          No havia hostilidade; apenas contentamento, inveja s e muita curiosidade romanesca.
          - Arranja um jantar para o conhecermos melhor! Nunca mais o vimos desde aquela noite, no bar.
A Pilar est sempre a falar disso. Acho indecente...
           - Nunca! - gritei em pnico. - S se fosse doida!
           - No sejas parva, menina! Tens medo da concorrncia?
             Que ideia ingnua. At me lisonjeava toda aquela libido em suspenso. Estavam to ou mais
   excitadas do que eu...
         - Seja. Esta noite em minha casa,  pegar ou largar. Trazes um doce, e pedes  Pilar que me traga
whisky que o meu j acabou. A Ins faz o lombo. Ela  ptima a fazer lombo! E sopa j tenho, sirvo a que
tenho em casa.  de nabias, e os homens gostam dessas coisas com cheirinho a porteira...
         - E tu, o que  que fazes, minha calona?
         - Eu sofro, achas pouco? Eu vou passar o resto da tarde a sofrer! - E defendendo-me: -  que 
uma estreia, percebes? A Ins no o conhece...
         - J sabe que  casado?
         Que incmoda a realidade.
         - No, nem precisa de saber. Isto no vai durar muito, tenho a certeza. Alm disso, no so
exemplos que me apetea dar  minha filha, no achas?
         - No te abespinhes, at logo! Vou dizer  Pilar!
         - Olha - preveni eu. -, vou estar jeans...
         - Problema teu - ameaou ela.
         Divertia-me aquela cumplicidade de um homem partilhado por mais mulheres, at aos limites do
possvel.
         Viviam-no atravs de mim, discutiam-no como se fosse delas, punham-se do lado dele e confundiam
todo aquele sexo implcito com amizade.
         As mulheres percebiam isso e no se importavam.
         Era um jogo perigoso, que nem todas sabiam jogar. Muitas descontrolavam-se a meio, por fome ou
solido, e passavam os limites. E eu, nessas alturas, depois da exploso do cime, voltava a dar-me com
elas.
         Coitadas das mulheres; no passavam de um velho inimigo inofensivo.

        ***

          O Vasco chegou. Sem timidez nem aparato, chegou simplesmente.
          A minha filha olhou-o com curiosidade; j percebera tudo e, contudo, eu nada lhe contara.
          O Afonso, esse, mediu-o com a desconfiana de quem se mantm fiel ao pai. Mas no era s isso:
era tambm o pequeno homem a acordar precocemente, a perfilar-se na defesa da me.
          Ainda bem que era assim. Que algum velasse por mim, ainda que tivesse metro e meio.
          Apesar de tudo, muito educado, ele:
          - Quer beber alguma coisa? A me j me ensinou a servir whisky...
          - No bebo lcool, filho - agradeceu-lhe o Vasco, sorrindo. - A tua me j te ensinou a fazer
limonada?
          O mido no quis dar parte fraca e os seus olhos procuraram os meus:
           - Posso usar o espremedor elctrico?
           Fiz-lhe que sim com a cabea e ele, brioso, disparou a trote em direco  cozinha.
           Instalado no nico sof de orelhas da sala, o Vasco pousou os olhos na minha filha e espantou-se:
           - Nunca julguei que fosses to grande..!
           - Tenho dezoito - disse ela.
           E corando:
           - Acabei de os fazer...
           - Tem exactamente a idade da tua filha - lembrei eu, talvez depressa.
           Mas ele estava inocente. Isento, continuava a olhar para a mida sem cautelas.
           - Como  que te chamas?
           - Ins.
           - Nunca te lembres de arranjar um namorado Pedro, no?
           Queria rir tambm, mas no consegui - voava-me um corvo na cabea.
           - A Pilar e a Mafalda j devem estar a chegar - desviei, olhando o relgio. E virando-me para ele,
insinuante: - Interessa-te uma breve recapitulao prvia?
           - Fora - disse ele, principiando a sentir-se confortvel. - J no me lembro bem das tuas
amigas...
           A Ins antecipou-se:
           - A Mafalda  divertida, perversa e feminina e tem um grande sentido de humor. A Pilar  mais
neurtica, mas  to inteligente que compensa...
           - s vezes, grita a discutir com a minha me! - completou o Afonso, estendendo ao Vasco um copo
cheio demais.
           - Tens alguma coisa a acrescentar a este quadro? - perguntou-me o Vasco, depois de sorver o
excesso.
           - No, no, est perfeito - condescendi eu. - Eu prpria no as saberia descrever to bem!
           Os midos olhavam para mim e para o Vasco alternadamente, sondando o grau de intimidade; e,
por detrs das suas avaliaes desamparadas, eu reparava que no s se dispunham a renunciar  ideia de
um mitolgico regresso do pai, como a colocar o seu territrio  disposio da minha felicidade.
          S quem ainda no sabe nada da vida pode ser to generoso.
          A campainha tocou, os midos foram abrir, e o Vasco segredou-me, divertido:
          -  a primeira vez que estou a ver a tua casa. No tinhas na sala um violino?
          E esfregando a testa, esquecido: - Ou era uma harpa?
          - Ests  maluco! - ri-me eu.
          E levantei-me para abrir a porta quelas duas que, disparatadas, se apresentavam espampanantes.
          - Vocs perderam a cabea! - disse-lhes, comprometida por todo aquele exagero.
          E lembrando-lhes, baixando o tom:
          - Isto no  um pedido de casamento!
          A Mafalda ainda me segredou "pudera" antes de entrar na sala e rasgar o seu mais poderoso
sorriso para o Vasco:
          - At que enfim! j nem nos lembrvamos das suas feies!
          Jantou-se bem e sem pressas, com os midos sempre a rir das nossas diatribes, mas o Vasco
tratava a Ins com uma delicadeza excessiva, como se fosse feita de loua e se pudesse quebrar a
qualquer momento.
          - Quer mais framboesas, Ins?
          - Quantos cafs? - interrompia eu.
          - Podes.
          Mas, sem querer, sentia uma necessidade compulsiva de a remeter para a sua idade:
          - Desde quando  que bebes caf?
          A seguir ao jantar jogou-se a um jogo de perguntas e respostas, em voga na poca. Sempre que
no eram questes miudinhas como a longevidade da sanguessuga ou a igreja onde o Churchill fora
baptizado, o Vasco mostrava-se  vontade em todos os temas.
          Isso teve o condo de galvanizar as minhas amigas que comearam a torcer por ele
imediatamente, lanando gritinhos de jbilo sempre que o viam acertar. A meio do jogo, impressionada por
tanta memria, a prpria Ins se deixou contagiar.
          E eu reincidia, inconsciente:
          - No tens de te levantar cedo amanh?
           Mas o jogo continuava sem ela e j s o Afonso sofria por mim, dirigindo-me as perguntas com um
pungente ar esperanoso:
           - A me sabe esta, eu sei que a me sabe esta!
           Mas eu nunca fora boa nem em data nem em nomenclatura. No me ralava com isso, porque
sempre me interessara mais perceber as coisas do que debit-las, mas tinha pena de desapontar o meu
filho daquela maneira.
           - Em que ano a China invadiu o Nepal?
           - No fao a mnima ideia, meu querido. Nem nunca soube, se queres que te diga...
           O mulherio estalava a rir e o Afonso ficava calado, a arrumar os cartes na caixa.
           - E o Vasco, sabe? - perguntava ele, j sem esperanas de uma negativa. E com uma expresso
nostlgica de partir o corao: - O meu pai acertava logo nesta!..
           - Deixa c ver... - dizia o Vasco, ponderando se, dada a sensibilidade do mido, no deveria
renunciar ao brilharete.
           Mas a Pilar e a Mafalda no o deixavam ser nobre:
           - Responda, Vasco, responda! Aqui, a nossa Ana, precisa de uma lio de humildade!
           E o Vasco rendia-se ento, sem qualquer fanfarronice:
           - Foi em 1792. No me perguntem porqu, mas sei que foi exactamente no ano em que a Frana
declarou guerra  ustria e  Prssia...
           Respondia sem qualquer prospia, mas o Afonso segredava-me:
           - Este seu amigo  um bocado convencido, no ?
           No era, mas a verdade  que acabava de ganhar a todos com vantagem e o mido arrumava o
jogo, silencioso.
           - Amanh tenho futebol - disse-me, despedindo-se. Posso levar uma coca-cola do frigorfico?
           Levantei-me para lhe preparar um lanchinho e deit-lo imediatamente. j eram horas.
           - Hoje, a me no me conta nenhuma histria, pois no? Tem c o seu amigo...
           Estava a medir foras com o Vasco e eu pensei, cansada, que talvez daquela ele merecesse
ganhar:
        - No faz mal, conto-te uma rpida...
        - A das trs laranjinhas?
          Abusava, porque aquela era grande e no pequena, mas mesmo assim condescendi.
          E s quando voltei  sala e os ouvi  - gargalhada me dei conta da extenso do meu cansao. As
emoes do dia tinham-me feito beber demais e o vinho entorpecia-me.
          Resultado: minutos depois adormecia no sof.
          S no dia seguinte, portanto, pude saber como terminara aquela noite; parece que a Mafalda e a
Pilar me arrastaram para a cama e me tiraram os sapatos, ajudadas pelo Vasco, e que, depois, ainda foram
os trs cear a qualquer stio.
          No me interessei em saber onde porque a histria me irritara, mas duma coisa me lembrava:
depois de sarem, ao acordar semi-vestida na cama, dirigi-me ao quarto da minha filha j de camisa de noite
e adormeci agarrada a ela para a proteger dos meus demnios.

          ***

         A situao no era nova: estvamos os dois juntos, outra vez, no mesmo hotel.
         No entanto, j no havia o jbilo do encontro, nem o ardor da descoberta, nem o xtase da
expectativa, nem a esperana de um milagre: o amor perdera a ingenuidade.
           J sabamos o que custvamos um ao outro e isso comeava a assombrar os sentimentos.
           Ele olhava para o relgio, eu demorava-me.
           - Vamos indo que j  tarde?
           - Vamos... - dizia eu, distrada.
           Mas ele parecia preocupado: teriam faltado beijos quele domingo?
           - Queres? Queres outra vez?
           No, no queria. Ele era generoso na cama e no me devia nada.
           - Deixa, tambm tenho de ir para casa...
           No carro, o meu silncio a pesar-lhe:
           - Temos de variar de hotel. Este, j deu o que tinha a dar...
           No era bem isso o que ele queria dizer, fora um acto falhado; ramos ns que j tnhamos dado
tudo um ao outro.
           - O Vasco - perguntei, assustada. - Isto, entre ns, est a acabar?
           O seu espanto foi sincero.
           - Por que dizes isso?
           - No sei, as coisas esto a ficar diferentes...
           - Diferentes, talvez. Mas no piores, pois no?
           - No tenho a certeza. s vezes sinto que o melhor j se foi...
           - Mentira - protestou ele. - No podemos  viver sempre nas nuvens! O que acontece  que
chegou a altura de mostrarmos o que valemos! Sem facilidades, sem agentes intermedirios!
           E apertando-me a mo, entusistico:
           - A histria vai comear aqui, Ana!
             Iria?
           - Isso que ests a dizer  perigosssimo - disse-lhe, angustiada. - Sem nuvens, ficamos demasiado
ntidos...
           Ele continuava a guiar, atento  estrada e a mim:
           - No achas que o melhor de tudo  podermos ver as nossas expectativas confirmadas?
           E tocando-me no joelho, devagarinho:
           - No achas?
          Quais expectativas, perguntei-me eu. Mas a ele foi:
          - Gostas de mim?
          Era uma pergunta ociosa e ele podia ter-se rido na minha cara. No o fez. Encostou o carro,
puxou-me de encontro a si e deu-me um beijo como se fosse o primeiro.
          E no fim riu-se, to doce:
          - Vou levar-te outra vez ao hotel. Isto, hoje, no ficou bem acabado...
          - No vamos nada - recusei, agreste. - Ainda hoje no vi os midos!
          - Ento - disse ele, distrado. - Ento, pronto, vamos para casa...
          Para casa? Que casa? No tnhamos casa nenhuma e aquilo tinha que ser deslindado.
Insuportvel, pedi-lhe que encostasse o carro outra vez.
          - Diz, minha querida...
          No havia um nico sinal na sua expresso que indicasse cansao ou impacincia, mas eu abusava
da sorte:
          - Nunca falmos de ns. Costumas imaginarmos no futuro? Num futuro juntos?
          Vi-o anoitecer de repente. Eram coisas que no se permitia pensar e eu magoava-o, sem querer.
          - Deixa, no digas nada - pedi-lhe, sabendo que nem sempre se podia ser honesto.
          E quando cheguei a casa encontrei, em cima do meu travesseiro, uma caixa de chocolates com o
seguinte bilhete:

        Com toda a dossura que a mofe merece.

         Olhei para o calendrio digital para experimentar qualquer coisa de parecido com a morte
cerebral: era o Dia da Me e eu esquecera-me!
         Dormira fora na noite anterior e limitara-me a deixar-lhes um recado no gravador:

          A Ins estragou-me as minhas botas novas, mas depois falamos. H panados de queijo e fiambre
no frigorfico. Se quiserem, faam ovos. O Afonso que me grave a novela.
          Beijnhos, adoro-vos!

         Senti uma paulada no corao e chorei copiosamente, agarrada ao bilhete. Tinha um erro de
ortografia, no de amor.
         Quis acord-los para lhes pedir desculpa, mas dormiam os dois a sono solto. Naquele momento
faria qualquer coisa para os ver rir; qualquer coisa que me removesse da alma aquela crude de culpa.
         Fui ao quarto dum e doutro e detive-me a olhar para eles, sem contar o tempo.
         Cus, como os adorava.
         O Afonso agarrado a um urso, j sem idade para aquilo, e a Ins com uma beatitude que
desmentia o caos do quarto.
         Como lastimava aquele desencontro permanente. Como esperava, com todas as foras do meu ser,
que eles percebessem uma verdade to simples que at a mim me custava a assimilar: que o amor nem
sempre podia ser demonstrado.
         Deixei uma carta para os dois, colada ao espelho da casa de banho. Saam os dois muito cedo, de
manh, e tinham sempre o cuidado de no me acordarem....

       Segundo uma crena antiga, num pas muito distante (agora no me lembro do nome), as Mes
podem escolher o seu prprio dia para festejarem. E eu escolhi HOJE! Encontramo-nos s cinco, aqui em
casa. O meu presente para o Afonso  uma histria por dia durante um ms. e o meu presente para a Ins
 uma secretria nova.

        No, no servia.
        Apesar de adorar as minhas histrias, o Afonso repararia na desproporo dos presentes. Alm
da me, havia de querer uma coisa. E a Ins o contrrio: alm de uma coisa, haveria tambm de querer
me. Rasguei aquele e escrevi outro:
          Meus queridos, adorados filhos! Os calendrios de todo o Mundo enganaram-se e vocs tambm:
o dia da me  HOJE! Encontramo-nos s cinco aqui em casa. Preparem-se para muitas surpresas!

          No era melhor do que o primeiro, mas no era isso que interessava; o que interessava era saber
at quando se disporiam eles a colaborar.
          Estava outra vez a comprar sorrisos, mas no tinha outro remdio. Impotente para me redimir
pelo meu crime, naquele momento eu s queria que as coisas no fossem irreparveis.
          E quando o telefone tocou, nessa mesma noite, achei que o mnimo que podia fazer pelos meus
filhos era renunciar ao ltimo beijo do Vasco.
          Nem me quero lembrar do que senti quando ele me telefonou duma cabine a participar que tinha
sado de casa e que estava disposto a viver comigo.
          Senti-me igual queles homens que, ao serem notificados de que vo ser pais, no conseguem
sequer afectar contentamento.
         E reparei que lhe fiz a primeira pergunta como se tivesse acontecido uma catstrofe:
          - Como  que foi?
         - A Gi desmantelou tudo e quis armar-se em forte, percebes? Descobriu os nossos jantares e os
nossos hotis atravs do Visa e deu-me uma semana para sair de casa.
           - E tu?
           - Eu sa naquele momento, no me perguntes porqu.
           E depois de um pequeno silncio:
            - Nunca te falo disto, mas para mim j estava a ser muito difcil conciliar as coisas em casa.
  Ultimamente, ela andava muito azeda e rebarbativa...
           - E com toda a razo, coitada!
            Passava imediatamente para o lado dela, mas no me espantava: como no estar do lado dela se o
  lado dela seria agora o meu?
           - Claro, no digo que no - continuou ele, vendido.
            S que no tive vegetais suficientes para o p de vento que ela quis armar em frente das
  Crianas. Exactamente por ela ter razo, no me senti com autoridade moral para discutir com ela,
  compreendes? Fui cobarde, e aproveitei aquilo para precipitar as coisas. No fundo, estou-lhe
  agradecido...
           - E agora? - perguntei.
           - Agora, no sei. Pressinto que no ters as portas abertas para me receber, por isso vou dormir
para um hotel e depois logo se v.
           E esgotado:
           - Pelo menos, j podemos pensar em futuro!
           Pelo menos.
           - E os teus filhos?
           - Os meus filhos so os meus filhos, o que queres dizer com isso?
            Meu Deus. A nica coisa que me preocupava naquele momento era recordar-lhe todos os
  entraves.
           - Precisas de mim ao p de ti? - perguntei-lhe.
            - No posso, tenho de trabalhar. No te disse, mas com isto tudo tenho faltado muito ao
  escritrio. Preciso de l ir pelo menos umas horas. Reza para que eu mantenha a calma e no deite tudo a
  perder. Ela tem razo e pode explorar isso at...
        E mortificado:
        - Percebes o meu medo? O medo que eu tenho de me ir abaixo?
        - Percebo, querido, percebo. Vai trabalhar, ento...
        - Ento adeus, meu amor. Preciso de ti mais do que nunca, acreditas?
        Acreditava, claro que acreditava. Acreditava tanto que me senti na obrigao de lhe dizer:
        - Olha, Vasco: fiquei a saber que gostas mesmo de mim.
        No se troca uma vida como a tua, assim, de nimo leve...
        No entanto, mais uma vez, ele j me tinha provado que o faria. Precisaria de o fazer mesmo?
        - Pois no, meu amor - disse ele. E ansioso: - Mas, diz-me: achas que fiz bem?
        O qu? Largar uma mulher ao fim de vinte anos de vida em comum?
        Teria de vender a alma ao diabo para lhe responder: - Fizeste o que sentiste, no te martirizes
agora. j est, j est!
        - Obrigado, querida, obrigado... - dizia ele, elevando a minha mera existncia  qualidade de apoio. -
Agora, tudo  possvel connosco se no me deixares ir abaixo...
          Eu j era me de dois filhos e nem para isso servia.
          - No, est descansado. No te vou deixar ir abaixo... - Sinto-me perdido e preciso de ti. Vai l
ter comigo e janta comigo, sim?
        - Claro que vou - prometi, fixando o nmero do quarto.
          - s cinco?
        - s cinco.
        - No te demores.
        - No me demoro.
        - Gostas de mim?
        - Claro, querido, que pergunta!
          Mas, desnorteada como estava, nem me lembrei de que era aquele o Dia da Me que eu escolhera
para festejar.
                                                        II

         Quando uma mulher parte uma unha a lavar roupa ou a estend-la dramatiza a ponto de pensar que
alguma coisa falhou na sua vida.
         O choque demora segundos, mas chega-se a chorar dele.  o tipo de coisas de que os homens nem
suspeitam: quando quebramos uma unha j grande e bem tratada, somos obrigadas a sacrificar todas as
outras limando-as pelo mesmo nvel e esperar cerca de trs semanas para que voltem a crescer.
         Pode parecer disparatado, mas algumas sentem-no como uma espcie de mutilao.
         Desgostosa a olhar para o indicador, lembrava-me de que nunca passara mais de uma semana sem
partir as unhas, apesar de tomar gelatina durante trs meses por ano para as fortalecer, e que isso se
devia certamente ao mesmo excesso de generosidade de que morriam os comandos, durante os treinos.
         Das unhas, sem vir a propsito, lembrei-me da minha av, a mesma av que era sublime a bordar
almofadas de seda, antecipando-me, lapidar, algumas etapas da vida:
         - Aos vinte anos a mulher quer ser bonita, aos trinta, inteligente, aos quarenta, independente, e,
aos cinquenta, equilibrada.
         E de eu prpria a perguntar-lhe, pensando na sua idade: - E aos noventa?
         - Aos noventa - riu-se ela -, aos noventa, tudo o que se quer  que os intestinos funcionem!
         S agora percebia o que ela me tentava dizer; recentemente, estreava um novo captulo da minha
vida em que vigiava os meus hbitos com a maior apreenso.
         A preguia de atender o telefone, a alegria perdida na descoberta dos outros, a resistncia que
tinha a sair de casa, um nervosismo parecido a fumar e a comer, o mesmo vazio defronte de um televisor ou
de um amigo, o suspiro fundo que largava no banho todas as manhs, o automatismo com que trabalhava em
casa ou no escritrio.
         Chegara a uma fase da vida em que no me conseguia nem explicar, nem deduzir, nem demonstrar.
         Era uma esquizofrenia esquisita, que talvez no decorresse de nenhuma razo determinada, mas de
uma srie de acontecimentos acumulados cuja digesto nunca me permitira fazer.
         Sim, era isso: numa sntese prosaica, era uma paragem de digesto.
         Como se o meu corpo e o meu corao se recusassem a prolongar uma farsa, e o meu crebro,
subitamente consciente da importncia do tempo, se negasse a viver sem ele.
         No me referia ao tempo cronolgico, mas  disponibilidade mental para todas aquelas coisas
decisivas para a sanidade mental de uma pessoa como o tdio, o sono, a futilidade ou as funes biolgicas.
         Andava desfasada em relao  vida, e, por vezes, ouvia a minha voz como se fosse a de outra
pessoa e estranhava-lhe as inflexes.
         Isto causava-me um desajuste esquisito na minha relao com os outros e com a famlia, como se
uma parte de mim reagisse s ordens da vida como um soldado, comportando-se como esperavam que me
comportasse, e a outra observasse aqueles gestos sem coragem para os combater.
         No entanto, percebia que essa faceta cumpridora era importante para no levantar suspeitas a
ningum e garantir a minha privacidade sobre o que me sucedia interiormente.
         Teria perdido a capacidade de me misturar com os outros?
         Era possvel.
         Os livros passaram-me a maar de um dia para o outro, porque comecei a achar que eram escritos
por homens to bsicos que ainda precisavam do apreo dos outros para subsistirem; neles, o motor criador
no advinha de uma pulso mgica, mas mendiga de estmulo.
         Alis, sempre achara os escritores mentirosos e incapazes de beleza; ou melhor: capazes de
transmitir beleza, mas incapazes de a integrar.
         Subitamente deixei de ler, e reparava que as prprias discusses entre amigos, que dantes me
mobilizavam, deixavam a pouco e pouco de me reptar.
         E at o espectculo de uma inteligncia em exerccio, numa sala ou numa tribuna, que fora dos
programas mais hipnticos que me podiam proporcionar, j no tinha em mim o mesmo impacto.
         Ao mesmo tempo, roda a minha ateno se fixava no que ainda me conseguia produzir alguma
espontaneidade: uma ou outra vibrao primria com os meus filhos, a dor fsica, a privao do conforto, o
escrpulo de pontualidade como obedincia a uma ordem interior j automtica, tudo coisas antigas que
reagiam por mim.
         De resto, entrara num perodo de raras flutuaes emocionais.
         As notas dos midos, os desastres areos, os dramas das minhas amigas, a fome no Mundo, tudo
isso tinha o mesmo valor para mim: nenhum.
         Poderia consultar um psiquiatra, se o que eu estivesse a viver no fosse o resultado provvel de
anos e anos de uma qualquer anlise que, sem mestres nem instrutores, levara a vida a fazer a mim mesma.
         Foi nessa poca que descobri que o mais difcil da vida era esconder dos outros a nossa insanidade
mental.
         - Ests boa? O que  que tens feito? - perguntavam-me, por vezes,
         Esta pergunta, a que sempre respondera uma trivialidade qualquer do tipo "Bem, graas a Deus" ou
"Nada de especial, vai-se andando", impossibilitava-me agora de servir um clich.
         Nunca antes pensara nisso, mas, vendo melhor, "O que  que tens feito?" era uma pergunta sinistra.
         Ningum tinha nada a ver com o que fazamos e a nica represlia possvel a uma tal indiscrio era
servir um nmero razovel de mentiras para convencer o interessado a deixar-nos em paz e a arrepender-
se de nos ter perguntado.
         Falava-se na sade, nos estudos das crianas, nas obras da casa ou na frente profissional, mas,
para alm de ser impossvel sintetizar o que realmente interessava, ningum era capaz de revelar a
verdade porque a verdade era penosa:
         - No tenho feito nada. Mexo-me muito, fao mil coisas por dia, chego sempre a casa extenuada,
mas, por dentro, que  onde as coisas podem de facto avanar, mantenho-me de um imobilismo
preocupante.
         Ou, mais honestamente:
         - A verdade  que desde a ltima vez que me viste no fiz absolutamente nada. Continuo refm da
minha preguia e prisioneira das minhas fraquezas, e se no consigo dissolver um s dos meus vcios no 
por causa da minha situao profissional, nem dos problemas familiares, mas por absoluta incapacidade de
vencer a resistncia.
         Ou ainda:
         - O que  que tens feito?
         - Morrido.
         Era este o balano que eu queria  viva fora evitar quando antes me lanava em relatos
interminveis para contornar a perguntinha funesta.
         Nunca se iludia ningum, porque todo o inquiridor era espelho da nossa prpria estagnao, mas o
embarao que essa pergunta me passara a causar era sintomtico de que existiria dentro de mim um
qualquer sentimento de repugnncia por todos os anos, todas as semanas, todos os dias e a todas horas
assistir  falncia dos meus ideais de mudana ou de aprendizagem.
         E mesmo para o inquiridor apressado que mo perguntava na rua com uma festa na cabea, o meu
olhar, perdido ou assustado, era mais eloquente do que todas as palavras.
         A Pilar, que era das pessoas mais escrupulosamente honestas que conhecera na vida e que nunca se
pretendia mostrar nem mais alegre ou estimulada, nem mais activa ou solicitada do que em qualquer outra
fase da vida, respondia invariavelmente "o costume" a quem quer que lho perguntasse.
         O tempo passava. Eu no.
         De vez em quando ainda dava comigo a ligar distraidamente um ou outro nmero da minha agenda,
mas quando as vozes se prontificavam a devorar-me do outro lado desligava rapidamente, apavorada de cair
nas suas redes.
         As vozes eram aracndeas e as palavras, essas, teias pegajosas.
         Ao mesmo tempo, aparentemente liberta da ameaa romntica, os homens eram insolveis em mim,
como o leo na gua.
         A mistura com os outros tornara-se-me portanto impraticvel, e isso talvez no decorresse de um
desgosto, mas de uma qualquer impossibilidade que nem sequer era suficientemente trgica para
impressionar o Mundo.
         De certa maneira, padecia do mesmo mal dos suicidas: alm da dificuldade de existir, a falta de um
sofrimento visvel que comovesse as pessoas.
        Estava incapacitada para o tipo de vida que levara anteriormente e recusava-me a experimentar
qualquer outra frmula que implicasse novidade.
        O novo assustava-me agora, como um animal desconhecido.
        Era uma reaprendizagem completa, impossvel de explicar a terceiros sem correr o risco de
parecer extravagante.
        Foi com este esprito que aprendi a bordar, para hilaridade das poucas pessoas que tinham sobrado
do meu passado em tantos anos de investimento afectivo.
        Bordava constantemente, como num exerccio de pacincia que simultaneamente debelava a minha
inquietude e me prometia respostas.
        Bordava mal, os meus avessos eram vergonhosos, mas a pouco e pouco fui evoluindo e sendo capaz
de coser almofadas no to bonitas como as da minha av, mas quase.
        Ao mesmo tempo deixara crescer as unhas e passara, pela primeira vez, a lavar a loua de luvas;
aplicava creme nas mos todas as noites como se o seu estado traduzisse uma ordem interior recuperada.
        Tornei-me obsessiva nisto, e, como tinha a pele seca, passei tambm a tomar banho de luvas para
que a gua excessivamente quente me no ressequisse as mos ou mas enrugasse.
        As mos e os meus trabalhos de costura passaram pois a adquirir uma importncia de ritual, como
para resgatar um qualquer arqutipo perdido, imprescindvel ao meu equilbrio.
        Todavia, no eram s os gestos que eu fazia que eram importantes, eram tambm as palavras.
        Agora poupava-as como a moedas de oiro e fazia ainda mais luxo no meu vocabulrio e na minha
gramtica como se a qualquer momento pudesse tornar-me muda.
        O mundo, naquele lapso de tempo, tornara-se uma selva.
        Via as pessoas a correrem na rua, congestionadas, e espantava-me como nunca se olhavam nos
olhos.
        A pouco e pouco os outros foram-me desgostando, e instaurei uma espcie de esttica prpria
ajustada  minha nova sensibilidade: em minha casa no se gritava e no se corria, nem que se jantasse 
meia-noite.
        Os midos sentiam-se mais tranquilos, porque pela primeira vez na vida eu ouvia o que me
perguntavam e pensava antes de lhes responder.
        A televiso s era ligada aos mais nobres pretextos e o telefone tocava sem que ningum corresse
a atend-lo.
         noite, j com as crianas deitadas, dava comigo a identificar sons e rumores esquecidos em
tantos anos de prioridades erradas: o estalar da madeira, a gua a correr nos canos, o voo dos insectos, o
caruncho a roer-me a cmoda, o bater do corao.
        Ainda sentia alguma nostalgia do xtase das grandes vibraes, mas como aprendera entretanto a
observar cada gesto e o tempo era muito maior do que eu pensava, degustava, pela primeira vez, o sabor da
eternidade.
        Ao mesmo tempo, preocupava-me saber o que poderia significar aquela mudana to drstica.
        Falei com a minha irm, que me perguntou se seria a menopausa, e tambm com a Mafalda, que
opinou sem uma dvida:
        - Ests cansada por tudo o que te aconteceu na vida,  natural...
        Rapidamente, apercebi-me de que aquele meu estado era tomado por mais uma fase de cuja
constncia todos duvidavam.
        Mas a transformao era evidente: os estmulos que me produziam sensaes no passado perdiam
gradualmente eficcia.
        Progressivamente demitia-me das funes sociais, como se tivesse perdido essa vocao, e se
deixava uma parte de mim a desempenhar essa tarefa era exclusivamente para no dar nas vistas.
        Um dia, fui ao cinema sozinha e encontrei no intervalo a Mafalda e Pilar.
        Estive a conversar com elas, respondi ao que me perguntaram com penosa coerncia, mas fixava os
olhos no enorme espelho veneziana pregado  minha frente e no conseguia arred-los - quem era aquela?

       ***
         A etapa mais drstica da crise que acabei de descrever passou-me em vinte e oito dias, depois de
ter quebrado uma unha a enfiar dois sacos de supermercado na mala do automvel.
         Fora mais uma fase, afinal, e a Mafalda tinha razo.
         Parecera-me longa e definitiva, mas durara apenas um ciclo menstrual.
         Culminara com a chegada do perodo e terminara com o ltimo tampax, depois daquele banho
santificado em que as mulheres se regeneram ao verificar que j no sangram.
         A ideia de um Vasco inteiro na minha vida apavorara-me e fora dela que fugira meses atrs, 
mesma hora em que combinara encontrar-me com ele no hotel e com os meus filhos em casa para festejar o
Dia da Me.
         As crianas tinham sido um impedimento real, mas no suficiente para eu nunca mais lhe ter
atendido um telefonema.
         Nem dele, nem do Nuno, nem mesmo do Botnico que, nessa altura, insistia em me mostrar a sua
estufa e me deixava bilhetes envolvidos em folhas secas, na caixa do correio.
         Soubera que o Vasco regressara a casa e  sua mulher legtima - e digo legtima sem nenhuma carga
jurdica, mas moral- , uma semana depois de me recusar a falar com ele.
         Respirei fundo.
         A verdade  que o Vasco nunca existira porque o tempo era importante e ns no o tivramos.
         Ainda me escreveu, numa carta que era muito mais uma expiao das suas incapacidades do que
uma recriminao magoada; no final, dizia-me qualquer coisa sobre a eternidade, mas nada daquilo teve
ressonncia em mim.
         O Nuno tambm me procurara, ligando-me com insistncia, mas como eu estranhava a sua voz ao
telefone desligava sem articular.
         E quando, meses depois, me disseram que ele casara, senti algum alvio por confirmar que tudo se
tinha consertado sem necessidade do meu sacrifcio.
         Nem me queria lembrar desses tempos.
         Entretinha a existncia com o conhecido pnico de me encontrar frente a frente comigo, que  das
provaes mais onerosas por que uma pessoa pode passar se no consegue passar da humilhao 
humildade.
         Por tudo isso retirara-me da vida, como um pinquio que, depois de a experimentar, regressa a casa
para dizer a um gepeto espantado que prefere voltar a ser boneco.
         O prprio botnico me escrevera mais tarde a participar que ia casar, em seis linhas que
desconsideravam a noiva e eu tomaria por vndalas em qualquer outra fase da minha vida:

         "Como a menina no me quis... "

          A avaliar pela pressa daqueles trs, fora por um triz que eu me safara.
          A unio a outras pessoas sempre me aterrara e chegava a altura de o admitir.
          Mesmo o sim imponderado e romntico que se pronunciava no cartrio ou na igreja, era formulado
na mais completa ignorncia do que representava estar ao lado da mesma pessoa para o resto da vida, numa
idade em que a nossa solidez nunca fora testada e em que o nosso temperamento estava longe de se
definir.
          Sempre intura que o casamento no era apenas uma coincidncia sentimental enternecedora, mas
uma proposio que precisava de ser demonstrada diariamente, e que qualquer estado de enamoramento
era susceptvel de toldar a realidade.
          Chegava-se ao Altar,  Conservatria, ou directamente a um sexto andar da avenida sem
experincia que nos permitisse prever o grau de resistncia face  corroso conjugal.
          No havia soluo para isto, o que transformava qualquer projecto convicto num acto
irresponsvel ou numa tmbola da sorte.
          No conhecia muitos casamentos de sucesso mas, quando algum resultava em cheio, gostava de
imaginar a dose de bom senso, intuio e disciplina que fora necessria para o sustentar.
          Em idade adulta, ou em segundas tentativas, os riscos agravavam-se: as pessoas partiam
escaldadas para relaes de continuidade, cheias de reservas, e a adaptao ao outro era ainda mais
renitente.
          A ddiva arrefecia, a tolerncia calava as tamanquinhas, os defeitos perdiam a vergonha e os
feitios moldavam-se a ferros.
          Mas a grande asfixia da relao a dois, para os teimosos do sonho, era, mais do que a rotina, a
predestinao.
          O mistrio da vida sumia-se, o futuro tornava-se conjecturvel, o acaso e a aventura no
esperavam que as crianas adormecessem, os prazeres eram agendados, o sexo era atamancado nas
brechas da fadiga, os sonhos passavam a deslizar numa cinta fabril e as casas podiam transformar-se de
um momento para o outro em crceres espirituais sem salvao.
          E era muitas vezes utpico, sobretudo quando havia filhos a obstruir este propsito, imprimir a
tnica de liberdade, improviso e renovao necessria  interaco estimulante que a teoria aconselhava.
          Por outro lado, quando um casal conseguia sobreviver a um casamento de cinquenta anos sem
perder o melhor da vida e de si prprio teria dado ao Mundo a maior prova de maturidade acabada.
          E, para quem via na existncia um estgio de aprimoramento pessoal, o casamento podia at
constituir um repto intelectual irresistvel para crebros exigentes.
          O problema  que nem toda a gente tinha esse escrpulo intelectual nas ligaes, como se s as
provas de amor cor-de-rosa fossem importantes, e a primeira coisa que se fazia a seguir a juntar os trapos
era achinelar defronte da televiso ou das salsichas e pendurar a sensibilidade no cabide.
          - E a estabilidade? - perguntava-me a Mafalda, hesitante. - No conta?
          - A estabilidade? - ria-me eu. - A estabilidade de que toda a gente fala no depende de um
homem, burra! Depende do dinheiro!
          - E a outra?
          - A outra no conheo!
          O romantismo era muito culpado disto, mas cada vez mais me convencia de que o que falhava nas
relaes no era o sentimento; era a prpria Vida que acabava por se arrumar na despensa juntamente com
sabrinas e canas de pesca.
          E eu era to fraca, to estpida, ou to cptica na altura que nem o amor, nem a F, nem a famlia
me livravam da tentao de gozar, mesmo pagando, o imprevisto da vida.

        ***

         Fora portanto aps a vertigem de um perigo que eu retomara a vida com outra colocao.
         As grandes travessias eram importantes, porque o que se perdia pelo caminho aliviava a bagagem.
         Os homens que me tinham tentado estrangular no passado j no existiam.
         O Nuno e o Vasco, em especial, tinham-se extinguido de vez, e eu olhava em redor da vida como
uma leoparda esganada.
         Nessa altura tudo me parecia comestvel, at o olhar de alguns homens que no servia seno para
despertar em mim uma feminilidade que jamais lhes dedicaria.
         Estava empenhada em voltar a viver, com tudo o que implicasse de risco e sofrimento, porque
acabava de descobrir que a ausncia da dor nada tinha que ver com a alegria.
         No entanto, se perdera iluses e ganhara lucidez, as coisas eram agora mais difceis de entender.
         O amor j no era romntico nem eterno, mas to fsico como a sede ou a fome; e a necessidade de
o dedicar a um homem, essa, independente do homem e mesmo anterior a ele.
         Das emoes, infelizmente, ainda no podia prescindir.
         Os meus filhos adaptavam-se, conformados, a mais uma metamorfose, e eu reparava que, nem eles,
ao crescer, eram capazes de mudar tanto.
         A Ins ainda me disse "A me est mais alegre outra vez", mas a voz com que o dizia no estava
ainda segura.
         A alegria era uma coisa de infncia, e a infncia um estado de esprito que se ia merecendo ao longo
da vida.
         - E o Vasco? Que  feito dele? - perguntara-me ela, num desses dias.
         - No tenho tempo para namorados - respondi-lhe, ligeira.
        E achava que, no fundo, eles gostavam de o ouvir; a recuperao da minha exclusividade
compensava-os de me saberem, ainda, desencontrada com a vida. E como eu suspeitava de que nem a
realizao de alguns sonhos me completaria alguma vez, dava-me toda a eles, sem medo de estar a perder
nada de importante.
        O meu problema era antigo, como o de toda a gente, e nada que chegasse agora poderia resolv-lo.
          Agora, era pelas perplexidades estampadas na expresso dos meus filhos, ainda espontneas, que
eu aferia os meus estados de alma.
          A Ins, em particular, era o meu barmetro afectivo:
          - Se a me estivesse mesmo apaixonada, tinha tempo... - dizia-me ela, que j experimentara uma
forma de amor mais equivocada, mas mais segura do que a minha. - Se quer que lhe diga, eu nunca vi a me
apaixonada...
          No era verdade.
          O que acontecia era que eu sempre procurara preserv-los das minhas exaltaes.
          Mas percebia o que ela queria dizer: o ideal de viver com um homem dissolvia-se a pouco e pouco.
          E como o medo de me anular me fizera absolutamente irredutvel  natureza dos homens,
restringia as minhas relaes com eles  sua mais pobre expresso - transformava todos os meus casos em
pimpinelas baratas de quimeras e desenganos, excluindo-lhes, inconscientemente, toda a construo e
criao necessrias para que pudessem vingar.
          Como se materializar os sentimentos fosse um crime, e a coabitao uma espcie de mldio que os
matasse.
          Por alguma razo fora implacvel a enterrar os meus homens a minha vida contra a deles.
          No entanto, a esperana do impossvel continuava viva, apesar de tudo.
          Estive mais de dois anos sem fazer amor, no porque no me apetecesse idealmente, mas porque
o meu corpo se recusava.
          Estava convencido de que no se tratava de uma frigidez fsica, mas de uma incapacidade de
sujeitar a minha alma a mais ensaios de laboratrio.
          Os homens que tivera queriam o meu corpo para me descobrir a mim, ou queriam-me a mim para
se descobrirem a si mesmos, e embora tudo isso me tivesse empolgado no passado a desmontagem
permanente dos seus estmulos tinha acabado por me ceifar os meus.
          E, passado um ano do episdio com o Vasco, era como se estivesse virgem outra vez.

       ***

        Suspeitaro os escritores que uma das valncias da sua Arte  esta de nos conduzirem a assuntos
que nada tm que ver com a sua prosa? Sabero eles que, entre todos os servios que nos prestam, esse 
talvez dos melhores? Que ao maarem-nos tantas vezes com a sua inteligncia retocada nos do asas para
fugir?
        Foi assim, ao desistir de um livro que me enfadava, que um desconhecido apareceu nas minhas
noites.
        Chegava ali sem fazer rudo, beijava-me o cabelo, segredava-me ao ouvido, tapava-me com os
cobertores, e, quando voltava a sair, deixava-me a dormir.
        Era uma fico que me enchia toda, mas que estabelecia uma bitola absolutamente impossvel de
ser ultrapassada por um homem de carne e osso.
        Para mim, era esse o Homem Perfeito, e eu ria-me da audcia dos candidatos que me apareciam
durante o dia como do guarda-livros feio, mediano e pobre que se atreve a pedir a mo da princesa.
        Eu tinha melhor, muito melhor, e a simples comparao tornava-os a todos ridculos.
        Com o tempo esta inveno foi ganhando corpo, e j no me sentia a mentir quando declinava as
propostas das minhas amigas dizendo-lhes que no queria sair porque tinha companhia.
          Divertia-me a sua irritaro por no conhecerem o segredo de tanta independncia, e alegrava-me
por saber que aquela minha construo era bem melhor do que os cavalheiros com quem elas danavam ou
me cediam.
          s vezes chegava a sair com elas, s para o confirmar:
         - Por amor de Deus, meninas! Este vosso amigo nem sabe que a terra  redonda!
         Sem querer tornava-me de uma selectividade incorruptvel, e comeava a perceber que um
homem no era para nos proteger, um homem era para nos encantar.
         E quando me perguntavam, por vezes, se eu no gostaria de me apaixonar ou de encontrar um
homem que me fizesse feliz, qualquer resposta que eu servisse, negativa ou afirmativa, era inteiramente
verdadeira.

       ***

         Estar sozinha como eu estava, por uma questo de exigncia, era uma extravagncia em que
ningum acreditava; para as pessoas, mesmo as mais inteligentes, uma mulher sozinha  uma mulher que
ningum quer.
         Talvez por isso, evitava acima de tudo dar-me com casais tinha a sensao de que me lastimavam
como se fosse aleijada.
         Dispunha-me a sair de vez em quando, sim, mas pelas mesmas razes de toda a gente: para vigiar o
comportamento dos outros e saber como resistiam  vida.
         Era interessante assistir a um grupo de pessoas que no se conheciam serem atiradas para uma
mesma sala por razes sociais, a pretexto de uns anos ou de um jantar, e surpreend-las a pouco e pouco a
vencerem a resistncia do desconhecido ou a preguia do diferente, a tomarem contacto umas com as
outras por obrigao, a vencerem os complexos ou a polirem as atitudes, a declinarem a participao nas
conversas por falta de estmulo, ou a afirmarem-se social ou intelectualmente pelo humor, a cultura, a
profisso, o relgio.
         Era divertido observar quem se destacava imediatamente e quem se salientava s no fim da noite,
assistir  disputa de dois "actores" pelo mesmo papel e o mesmo pblico, topar as investidos abortadas dos
tmidos para contarem uma anedota, patinar com as tiradas certeiras dos reservados que desvalorizvamos
pelo aspecto e nos davam lies, aturar os palermas que se exibiam, as coquettes que investiam, os trgicos
que se lamentavam ou os espirituosos que nos impediam de sair da nossa concha para experimentar a glria.
         Era cansativo, mas tambm gratificante, aquele desafio de conquistar uma audincia que nada sabia
a nosso respeito e se dispunha a aderir por sede de novidade, medir a extenso exacta das nossas
inibies, apurar o que as potenciava ou eliminava, reconfirmar que a cultura dos outros nos coibia, que a
sua inferioridade nos descontraa ou que o seu interesse por ns nos dava brilho e incentivava.
         Da que as relaes sociais fossem to irremediavelmente desgastantes.
         Com um invlucro de facilidade e descontraco, eram todavia responsveis por incmodos e
embaraos por vezes asfixiantes.
         Ter  frente algum com quem no se consegue sintonizar ou cuja conversa nada nos inspira,
algum que fala sem parar ou de um silncio impenetrvel, algum junto de quem as nossas chalaas morrem
 nascena ou as melhores histrias perdem o interesse, algum junto de quem nos sentimos invisveis ou
de que no nos  possvel livrarmo-nos por cortesia, pode deixar-nos mais arrombados do que um ms de
trabalho.
           A sensao que me dava era que, para atinar com certas pessoas to radicalmente diferentes de
mim e to preocupadas com outras coisas, seria necessrio regressar  infncia e mudar de pais e irmos.
           - Como  que se chama?
           - Ana.
           - Ana Maria?
           - No, no. S Ana...
           - Tem graa. Tem cara de Ana Maria...

       ***

         Queramos ser mais do que aquilo mas, afinal, ramos s a nossa actualidade:
       - O que  um homem sexy? - desafiava a Mafalda.
       - Um homem sexy? - espantava-me eu.
        E a Pilar arriscava, cuidadosa:
          - Eu diria que o homem sexy no  aquele que provoca em ns uma atraco acfala, superficial e
efmera, mas uma expectativa de virilidade e confiana capaz de nos prender para o resto da vida!
          - Ou perder - tentava a Mafalda.
          - Sim - anua eu, pensativa. - Deus ou o demnio, mas sempre qualquer coisa de contnuo...
          - Isso  literatura! - desvalorizava a Mafalda. E materializando: - Que no seja bonito nem feio,
mas que tenha olhos! No olhos azuis ou verdes, como j se usaram e se tornou enjoativo, mas fundos e
perdidos, se possvel...
          - Amarelos ou cinzentos?
          - Talvez mais mediterrnicos?
          - Sim, e que chorem. Que saibam chorar!
          E outra vez ela, apelando ao abismo:
          - Tambm  fundamental que se lhe adivinhem dvidas, dilemas, algum conflito em existir...
          - E as pestanas?
          - As pestanas tornam-no bonitinho e por isso as dispensamos. Mas, se tiver olheiras....
          - Melhor ainda!
          - Pode significar que pensa ou que sofre e qualquer das coisas engrandece!
          - E o corpo?
          - O corpo pode ser alto ou baixo, ou gordo ou magro...
          - ... desde que parea nosso! - conclua ela.
          O que no se perdoa  que no esteja limpo a qualquer hora do dia... - achava eu.
          - ... e perfeitamente inodoro! - achava a Pilar.
          Sim. gua de colnia, talvez, mas s a seguir ao banho!
          Exactamente. S mesmo durante aqueles escassos minutos em que o cabelo ainda est molhado e
o corpo, mal enxuto, humedece as costas da camisa...
          - E a boca?
          - A boca, sim, tem que existir!
          - E os dentes?
          - Os dentes devem constar bem tratados, como manda o sculo!
          - Para sorrirem bem?
          - Sim, j no h desculpa para dentes acinzentados ou omissos, e nisso no cedemos...
          E eu ajudava:
          - Podemos contemporizar, por grandeza ou solido, mas desgostamo-nos muito com sorrisos
velhos, no desgostamos?
          - Pode-se falar da roupa?
          - Pode-se, mas muito pouco. j ningum liga bia a etiquetas!
          - Liga a cortes, vai dar ao mesmo!
          - No interessa. O que gostaramos era de poder ver os nossos homens to bem vestidos, to
bem vestidos que fosse possvel no se reparar nas suas roupas!
          - E com os relgios, sapatos, carteiras e carros  a mesmssima coisa...
          - Tens razo: deviam ser invisveis!
        - Como tudo o mais que  caro neles, alis...
        - O qu?
        - A inteligncia, o carcter, a sensibilidade...
          - Concordo! Tudo isso devia ser insinuado e no escarrado como as tais etiquetas que se
dispensam nas roupas...
          - Mas a coragem fsica  sexy, no , meninas? - convoquei eu.
          E a Pilar aderia, novamente:
        - Sim. Mas s se no for maior do que a coragem moral!
        - Essa  mais rara...
          - E mais equvoca!
          - Exige mais tempo para tirar a limpo!
           - E  nessa ambiguidade que muitos cobardes se escondem... - lembrava a Pilar, pensativa.
           E eu desviava:
           - Outra coisa: eu acho os homens avarentos to feios... - Monstros! Ns somos capazes de
depositar tudo o que temos num corao generoso!
           E a Pilar logo, vigilante:
           - Fala por ti, algumas abusam! Tentei outro tpico:
        - As inteligncias. Nem todas so atraentes, pois no?
        - No. Nem todas elas estimulam...
        - Algumas at adormecem!
           -  difcil...
           - Acabamos por ser mais exigentes do que eles, se calhar...
           - No  verdade. Eles exigem a beleza!
           - Mas casam com mulheres feias, no casam?
           - E a Mafalda:
           - Mas deixam-nas. Mais tarde ou mais cedo deixam-nas! - E, se no as deixam, enganam-nas.  a
mesmssima coisa!
           - J viste alguma mulher feia e burra abandonada pelo marido?
           - Feia, sim...
           - Burra, no!
           - Sim, para qu?
           Mas a Pilar j estava noutro lugar:
        - Mas ns tambm nunca estamos satisfeitas...
        - , nada nos serve...
           - Os mundanos agoniam-nos, os faladores adormecem-nos...
           - Mesmo assim: condescendemos mais do que eles!
        - No podemos escolher tanto como eles, queres tu dizer!
        - E a timidez? Atrai, no atrai? - instiguei eu.
           - Pudera! Em nenhum outro terreno nos sentimos to soberanas!
           - E a insegurana que eles jogam na seduo?
        - Achas que  jogo? - duvidei. - E a fragilidade?
        - A fragilidade?
           - A fragilidade pode ser to doce que desculpe a falta de uma carreira...
           - E o sexo pode ser fraco ou abundante desde que gostemos deles!
           E a desgarrada prosseguia, facciosa:
        - Vendo bem, ns perdoamos muita coisa...
        - Muita coisa?
        - A obsesso do desporto, os jornais nos sofs...
        - O ressonar, a barba no lavatrio...
        - O surro na banheira...
       - A hipocondria!
       - As camisas sem fibra!
       - As meias rotas no calcanhar!
       - As gravatas com ndoas!
         - A relutncia de perguntar o caminho quando se perdem na estrada...
       - A profunda resistncia  especulao psicolgica!
       - A ataxia das mos a levantar uma mesa...
       - Nunca mais saamos daqui..!
       - S no lhe perdoamos uma coisa...
       - A injustia, a sensaboria, o desamor?
       - S a esto trs...
       - Afinal, no lhes perdoamos uma data de coisas...
       - No lhe perdoamos a mentira...
       - No lhe perdoamos as amantes...
       - Quando as amantes no somos ns!
       - No lhes perdoamos as tareias...
         - As tareias no contam. Nenhuma de ns tem razo de queixa, caramba!
         Rindo, esquecidas, concordvamos as trs.
         E a Pilar conclua, ensimesmada:
         - Mas, no fundo, s h uma coisa que no lhe perdoamos...
         - O qu? - interessmo-nos as duas, suspensas na concluso.
       - Que nos obrigem a desempenhar um papel que  deles!
       - Qual?
         Mas a Pilar, confusa, tambm no sabia explicar.

       ***

        Havia quem continuasse a rondar-me, mas eu h muito que deixara de sonhar com almas
convenientes. Queria era que me fascinassem, como as estrelas do cu fazem s pessoas, ou o talento dos
homens.
        No suportava aqueles perfis que no mostravam nem defeitos radicais pronunciados nem grandes
qualidades visveis.
        Os que me apareciam eram quase sempre exemplares sem grandes ideias ou opinies, nem muito
estpidos nem muito inteligentes, com poucas exigncias ou caprichos de vontade, cumpridores de todos
os cdigos e cobardes na transgresso, facilmente influenciveis e geralmente cordatos.
        E chocava-me comigo mesma.
        O que haveria de errado, enfadonho ou deficitrio nessas pessoas que viviam sem prejudicar
ningum e morriam sem deixar saudades?
        Mimticas de tudo o que as rodeava e plagirias da personalidade dos outros? Sem espinha para se
afirmarem e renunciantes a uma vontade prpria?
        Perguntava-me muitas vezes se deixariam de cumprir a sua verdadeira essncia por cobardia,
vacuidade ou genuna bondade.
        E o defeito seria delas, por carecerem de imaginao, improviso ou grandeza e levarem uma vida
semelhante a uma dieta sem sal, ou antes meu, que, sem querer, principiava a aderir a um mundo onde a
proclamao do ego se confundia com o gnio e a exibio das fraquezas e dos instintos deixava
gradualmente de ser grosseira para passar a interessante?
        Havia ainda uma outra hiptese que, tal como a anterior, se arriscava a ser injusta: a de suspeitar
da virtude rotineira e da simplicidade estvel como de coisas improvveis, e de conseguir ver melhor numa
ndole genuna, mesmo quando incomodava ou escandalizava, os elementos positivos que a integram.
        Talvez por isso continuava a esperar que algum especial encarnasse o meu sonho; mas como ao
mesmo tempo no acreditava em sonhos, tinha o resto da vida para ganhar juzo.
        A inteligncia era sobretudo necessria para amar, e isso, s vezes, podia ser to ou mais
estimulante do que pintar um quadro ou escrever uma partitura.

       ***

        A Mafalda acordara-me numa madrugada qualquer, a meio de um processo de paixo que a tomava
toda, numa toada torrencial contagiante:
          - No te descrevo o que isto ! Ele chega a minha casa, ocupa dois milmetros da minha mesa de
cabeceira com as chaves e com o isqueiro, pousa o estojo de barbear em vinte centmetros de cmoda, e
depois enche a casa toda com a sua voz, as suas lgrimas, as suas declaraes e eu sinto que vou morrer se
o perder, percebes, Ana?
          Eu percebia, ela continuava:
          - E eu vou para a casa de banho v-lo, Ana. V-lo sentado no trono, Ana. V-lo a lavar os dentes,
v-lo a olhar-se ao espelho, percebes, e sinto-me de repente uma desgraada, no te sei explicar, mas di
tanto, tanto, Ana, a possibilidade de o poder perder um dia...
           To desmesurada, a Mafalda:
           - Quando se vai embora e me diz o ltimo adeus , quando depois disso me fala do carro seis ou
sete vezes seguidas para te dizer "adoro-te, meu amor", "adoro-te, meu amor", quando ainda me faz o
ltimo telefonema-surpresa directamente para a cama e me acorda para desligar a seguir, eu sinto que
morro, Ana, eu sinto que morro porque naquele dia eu no vou v-lo mais e porque durante a noite ele pode
morrer!
           E aflita, s de imaginar:
           - J viste o que era se ele morresse?
           Eu via, e estremecia ao mesmo tempo, pensando que tudo aquilo era verdade porque ela sentia,
que podia ser mentira um dia, mas que naquela altura era verdade e tinha fora, mas ao mesmo tempo doa-
me porque parecia que ela me roubava o "meu homem", aquele homem que eu inventara para ver morrer
naquele momento e daquela maneira, aquele homem que era afinal o de todas as outras enquanto durava, e
eu tentava alert-la, e eu tentava alert-la por uma questo de sobrevivncia dela e tambm minha,
procurando entrever, por detrs daquela febre, se ele teria estofo para aguentar o que viria a seguir:
         - Mas tu tens esperanas? Tens esperana nisso?
         - O menina, tu no ests a perceber! - chocava-se ela. - Eu encontrei um homem! Um homem,
percebes? Pela primeira vez na minha vida encontrei um homem, um homem que faz chichi na casa de
banho como se fosse um cavalo e que depois, de noite, se enrosca em mim como um gato e chora s da
possibilidade de me perder!
           - Chora mesmo? - perguntava eu, maravilhada. Eu que sempre achara as lgrimas de um homem a
manifestao suprema da virilidade: - Chora mesmo? Com lgrimas verdadeiras?
           - Com lgrimas verdadeiras, dizes tu? - perguntava ela, incrdula. E castigando-me: - Com
lgrimas verdadeiras, sim, menina! Com lgrimas verdadeiras de gua e cloreto de sdio a correrem pela
cara abaixo, de quatro em quatro! Com lgrimas grossas a encharcarem-lhe a camisa! Com lgrimas
pesadas a ensoparem-me o travesseiro, percebes?
           E no contente:
            - Um homem, percebes? Um verdadeiro homem que me beija as mos e os ps com devoo, um
  homem que me ouve a fazer-me festas no cabelo, um homem que...
           Tudo aquilo me fazia lembrar algum.
           -  casado? - perguntou a minha voz.
           - , mas no interessa - respondeu a boca dela. - No me interessa, porque isto que eu vivi j
  ningum me tira!
         E jurando-me:
         - Eu adoro-o, Ana, adoro-o, e fico aqui numa molstia a olhar para o telefone, uma coisa que me
transcende, que me rouba as foras, o telefone passou a ser tudo, percebes? Os meus inimigos passaram a
ser quem o ocupa aqui em casa, quem me pede para fazer telefonemas, quem se senta no sof onde eu
costumo ouvi-lo, quem se deita na cama onde ele permanece ausente...
         E j insana:
         - A minha cama  dele, o meu corpo  dele, a minha vida  dele, e, se me perguntassem se eu
  preferia viver sem ele ou morrer daqui a oito dias acompanhada por ele, sabes o que eu respondia, Ana?
         - O qu, Mafalda?
         - Que preferia morrer daqui a oito dias!
         Eram sempre desconformes estes dilogos, uma mulher seca de um lado, a azedar com a sua ltima
experincia, e a outra a exultar como se abenoada por Deus e diligenciada pelo Cupdo em pessoa.
         - Mas, tens confiana nele?
           S percebi que ela no queria ouvir isto tarde de mais, quando se calou por momentos para me
atirar, enraivecido:
           - V-se mesmo que nunca te apaixonaste e que nem mesmo reconheces a sensao!
           Subiu uma fria por mim acima:
           - Nunca me apaixonei? Nunca me apaixonei?
           - No! - berrou ela. - Nunca te apaixonaste porque se te tivesses apaixonado uma s vez que
fosse limitavas-te a ouvir-me e nem te atrevias, ouve, nem te passava pela cabea vulnerabilizares-me com
as tuas questes previdentes nesta altura do campeonato!
          Desligou-me o telefone na cara e eu fiquei com ela a arder, paralisada, a indagar dentro de mim
se alguma vez me apaixonara.

       ***

        At ento, o corao fora uma coisa central dentro de mim, mas mdica. Uma funo trivial
exercida algures nas minhas entranhas, mas discreta. Um orgo vital para a circulao do sangue, mas
tambm um msculo repugnante e de forma cnica que pulsava em mim e nos animais.
        Inclusivamente, um mido que boiava nas canjas e se digeria com as cabidelas.
        Uma eminncia parda em que era obrigada a reparar a certa altura porque me passava a doer de um
momento para o outro, lancinantemente, a ganhar existncia histrica, a crescer, a arder, a cair-nos aos
ps.
        Porque o apanhava na garganta a enforcar-me a voz, porque o segurava no peito, para evitar que
fugisse, porque falava com ele nas mos, para que acreditassem em mim.
        A partir da, tornava-se uma florzinha de estufa que flectia e murchava  menor aragem, qualquer
coisa que no se podia ignorar porque a sentia a toda a hora, que se impunha acima de tudo como uma ferida
aberta ou um sexto sentido.
        E no s ele, tambm o telefone.
        Aquilo que me parecia imprescindvel apenas para dar recados, encomendar bilhas de gs, ouvir a
voz dos amigos, as intrigas dos colegas ou as recomendaes da famlia, passara a fenmeno de sujeio.
        Era por isso que o telefone e o corao se tornavam cmplices to rapidamente: se um tocava o
outro vibrava, se um se calava o outro sangrava.
        Mas, no era tudo.
        Havia ainda outro elemento essencial nesse processo destruidor ou vital: a cama, a minha cama, a
cama da Mafalda e a cama de toda a gente que passava a ser usada no para dormir, mas para desfalecer.
          Eram as suspeitas que o telefone lanava, mais os sobressaltos que o corao despedia que me
obrigavam a usar a cama no como uma pea de mobilirio que me retemperava as foras todas as noites,
mas como uma enxerga onde me debatia com a morte numa luta corpo-a-corpo e que s lentamente me
convalescia.
        O corao, o telefone e a cama: trs personagens centrais desta tragdia grega chamada paixo e
que tanto arrastava montanhas como me sugava o sangue.
        - A me gostou do pai? Quando casou com ele estava apaixonada?
        (Meu Deus: o que  uma coisa tinha a ver com a outra?)
        Mas existia ainda um quarto elemento que a Mafalda se esquecera de mencionar: a voz.
        A voz desejada e ao mesmo tempo dspota do outro.
        O timbre, a entoao, os requebros, as pausas e as inflexes da voz do outro tambm passavam a
comandar-nos a vida como generais no activo.
        Se era quente e carinhosa precisava da cama para exultar sem testemunhas; se era agreste ou
apressada, precisava dela para sofrer em condies.

         Durante a paixo, o sofrimento era doena desejada, necessria, prioritria, que exigia um cenrio
prprio para alastrar  vontade: pouca luz, conforto fsico, isolamento.
         Sem estes requisitos, a dor da paixo era elevada ao suplcio.
         Sofrer, duvidar, esperar, definhar, soluar, agonizar e morrer pelo menos uma vez por dia, tudo
isso fazia parte de uma boa paixo.
         Alm disso, a paixo era o nico estado de esprito que me fazia verdadeiramente desvalorizar a
morte e esquecer tudo o resto porque o Mundo passava a ser uma s coisa: a estalagem onde o outro
habitava, a ponte que me levava a ele, a estrada
         Era mentira, mas estava provado: que a paixo era um abismo em que as pessoas se lanavam de
livre vontade, convencidas de que a supresso do outro era uma agonia pior do que a privao da vida.
        E era verdade, sim, que o corao batia mais e no menos durante a paixo; e que nos fazia sentir
to vivos e to humanos
        e to frteis e to fortes e to corajosos e to animais e to divinos que nem pela felicidade a
trocaramos.
        Percebia a Mafalda, claro que percebia.
        E se insistira em lhe perguntar "irrelevncias" sobre o seu novo namorado, era por uma nica razo:
porque me lembrava distintamente das dores e das alegrias da paixo, mas j no me conseguia lembrar
muito bem de quem mas provocara.
        - Estava, sim, minha querida. Estava completamente apaixonada quando casei com o teu pai!

       ***

        O namorado da minha sobrinha Leonor morreu numa sexta-feira-treze, para consolo de todos os
supersticiosos que souberam.
        A mida era espalhafatosa no seu sofrimento e gritou durante todo o enterro - a verdade  que
mesmo para quem no conhecia o rapaz foi igualmente difcil aguent-lo sem lgrimas.
        Para mim, no, que espantei os meus prprios filhos: - A me, no chorou nada...
        Eu prpria me questionei.
        Seria que a dor era inibida de se espraiar quando a vida me mobilizava noutras frentes? Que o
tempo me fizera incubar anticorpos para o sofrimento? Que essa apatia era a minha forma muito prpria
de acusar os deuses e de declarar a minha inocncia? Que existia um crdito do sofrimento at
determinado montante, o qual, uma vez ultrapassado, me insensibilizara
        E a dor? Poderia ser adiada como um encontro indesejvel ou uma chatice vulgar?
        Ou seria que esse confronto com a perda ou o desgosto de algum era uma ameaa to
previsivelmente nociva para a minha ordem interior que era forada a embalar a dor e a protelar essa
catstrofe de ordem fsica, psquica e moral pura e simplesmente congelando o corao?
        No sabia, nunca se sabe nada, mas desconfiava que a vida me levara a desenvolver um qualquer
mecanismo de defesa que ou me tinha desumanizado para sempre, ou me permitiria aguentar novos e
repetidos golpes por muitos e longos anos.
        Duma coisa estava certa: mesmo quando parecia indolor, sofrimento era como o cancro. Alastrava
sem se dar por isso e espalhava metstases por toda a alma.

       ***

        Tive a prova disso quando, dias depois, me desfiz em lgrimas s por encontrar, esquecidas numa
caixa, as minhas almofadas bordadas.
        Nessa altura, sim, pude chorar o namorado da Leonor, o desgosto dela, a minha insensibilidade to
estranha, no funeral.
        Fora aquilo, como poderia ter sido outra coisa: as lgrimas adiadas rebentam sempre a pretextos
indirectos.
        Uma palavra desagradvel, um choque com o carro da frente ou um filme com patos e criancinhas
teriam produzido, provavelmente, o mesmo efeito.
        Ao lado das almofadas estava tambm a caixa das fotografias que, por qualquer razo, nunca
juntara ao lbum.
          Levei-a para a sala, e, estendida no cho, entreguei-me morbidamente  tarefa de reviver, uma a
uma, as grandes pulsaes da minha vida.
          E cheguei quase a senti-las.
          Um rapaz de cales, com uma fisga na mo, a roubar-me um beijo na quinta da minha infncia.
Um estrangeiro apaixonado que se revelara epilptico durante um concerto de Mahler. O meu marido a
rachar lenha, em tronco nu, num fim-de-semana na serra. O Nuno e o Vasco em minha casa, em Natais
diferentes,  frente da mesma rvore. Um amigo do meu pai, de colete abotoado, num recorte de jornal.
Um hippie abraado a uma viola berrando "Vou amar-te at morrer" que, no dia seguinte, perderia de vista
para sempre.
         Qualquer deles, com um pouco mais de tempo, um pouco mais de jeito, um pouco mais de f
poderia estar deitado a meu lado, naquele momento, a rir-se dos outros.
         E eu pensava que chorava, era certo, mas no ainda como o fazia a Leonor.

       ***

         Loura, bonita, bege - era mesmo bege-salmo a cor da minhafilha.
         Cabelos desgrenhados, acabou de acordar.
         - Bom dia!
         - Bom dia...
         - Dormiste bem?
         - Dormi mais ou menos.
           Ensonada e rida, esta primeira entrevista. - O que vais fazer hoje?
         - Anh?
         -O que vais fazer hoje?
         O segundo "anh" foi para ganhar tempo.
         -Fiz-te uma pergunta: responde.
         - Devo estar com o pai e depois com o T, ainda no sei bem...
         - E mais?
         - E mais, o qu?
         J no est ali. Quatro dedos pousados na cara, um deles a roar a testa; no pulso direito uma fita
esfarrapada, destas que do sorte. Sentada na cama, os joelhos levantados dentro da camisa, a tocar no
queixo, quase a rebent-la...
           - No faas isso  camisa de noite, que impresso! E vai pr aquilo mais baixo. O que  que ests
a ouvir?
           - "Never say goodbye".
           - De quem?
           - Do Bon Jovi.
           - Qual Bon Jovi? - pergunto-lhe, agreste.
           - Aquele! Eu j expliquei  me. Aquele que tem uma tatuagem no brao...
           Desiste, encolhe os ombros, olha atravs da janela.
         Onde pousaro os seus olhos? Nas casas, no rio, no cu? Preciso absolutamente de lhe perguntar,
no posso deixar passar nem mais um segundo:
         - Para onde ests a olhar?
         - Para uma rvore - responde-me, impaciente.
         E eu custica, nervosa:
         - Para o abeto ou para o carvalho?
         Volta-se para mim, abre muito os olhos, no quer acreditar:
         - A me no tem nada que fazer?
         Desmanchamo-nos as duas, j no est zangada:
         - Acho que era para o abeto...
           Posso voltar a olh-la  vontade, j se esqueceu de mim. Mas no posso, afinal no posso de
maneira nenhuma deixar que se esquea de mim:
           - Ests a pensar em qu?
           - Que a me, hoje, no me deixa em paz...
           Rimo-nos as duas. O amor e o humor bem sncronos, como nos melhores momentos.
         - Quantas horas dormiste hoje?
         - Nove.
         - Nove?
           Volta a olhar-me, deixa de sorrir: - O que  que a me tem?
           - O que  que eu tenho, o qu?
          - Nada... - diz ela. E propondo: - Quer vir tomar o pequeno-almoo comigo?
          E eu de repente, sem saber porqu, a engolir em seco: - Est bem, se quiseres ... Fazes tu os
ovos?
           E desta vez ela, chegando-se a mim, ralhando baixinho: - Com franqueza, me: todo este trabalho
para me pedir um beijo?
           Para alm do meu filho e da minha sobrinha, a Ins, a Pilar e a Mafalda eram agora as minhas
nicas parceiras e testemunhas.
           Tinham sobrevivido a todas as fases da minha vida e abenoadamente viam-me ainda como a
mesma pessoa.
           A minha filha era eu, num tempo muito atrs, a lembrar-me a beleza perdida e a beleza a
resgatar, se Deus me desse foras. O respeito que tinha por ela, planetrio, era o respeito que ainda tinha
por mim e por isso a adorava.
           Tudo o que tinha de puro e verdadeiro estava nela, ainda inclume, como um esplio selado.
           A sua honestidade, nunca corrompida, a sua pureza, nunca profanada, tinham sido eu e eram ainda
eu, se algo me restasse.
           A Pilar era o que eu pensava e a Mafalda o que eu sentia, apesar de tanta, de tanta contradio:
           - No admira, menina: se tu visses o charme dele, os olhos dele, a cara dele, a beleza indescritvel
das mos dele...
         - Quando  que mo apresentas?
         - Qualquer dia.
           - Qualquer dia, no - protestei. - Hoje, em tua casa, s nove!
           E para no lhe dar chances de recusar:
           - Levo a salada.
           Mas ouvia a respirao dela, entrecortada. Sentia-lhe o medo do outro lado do fio:
           - Espera! Talvez ainda seja cedo demais...
           - Cedo demais? O que queres dizer com isso? - perguntei, como se no soubesse que, no incio de
um homem, tudo o que sasse da eternidade de um colcho era arriscado.
           De facto, s mais tarde, muito mais tarde era possvel mistur-los com o nosso mundo,
           Mas, para meu grande espanto, a Mafalda aceitava o desafio:
           - Seja! Seja o que Deus quiser! Venham s s nove, que ainda tenho de lavar a cabea. Vou
encomendar tudo de fora, no arrisco. Quero estar mais bonita do que vocs porque j sei que te vais
querer vingar e tenho um medo de ti que me pelo!
           Ri-me, antes de desligar.
           No sabia bem porque insistira naquilo, mas tinha a perfeita noo de que, da mesma forma que
perfilhava todas as crianas do mundo como se fossem minhas, tambm os homens das minhas amigas eram
um pouco meus.
           Mas, no s por isso: as descries que a Mafalda me fazia dele eram de tal forma encantatrias
que eu morria de impacincia por confirmar se todo aquele entusiasmo teria alguma correspondncia com o
objecto em si.
           Sentia-me curiosa e excitada, e talvez por isso demorei a escolher a roupa.
           Depois de rejeitar aquela ideia fixa nacional de um vestido preto - ultimamente o preto pesava-
me, tremendamente -, escolhi umas calas de caxemira azul-alfazema e um conjunto de malha muito fina,
da mesma cor.
           As prolas j no se usavam, mas os homens ainda no tinham percebido e por isso no me
importei que a Mafalda e a Pilar, mais tarde, se rissem delas.
           Limitei-me a substituir um anel de ouro antigo por dois de prata, modernos, que nenhuma
conhecia, para lhes desviar as atenes.
           Fora o Vasco que me dera o colar, e eu hesitava se deveria ou no us-lo nessa noite ao recordar-
me da imensa alegria com que mo oferecera nos anos.
           O Vasco, caramba.
           Como o amava nessa poca, como era impossvel saber se o amava ainda ou se alguma vez o tinha
amado.
           Depois de alegrar as bochechas da cara, de espalhar na boca um bton s com brilho e de
escolher o perfume, descobri ao espelho, conformada, que me arranjava muito mais para os homens das
outras do que para os meus.
           Era daquelas coisas que irrompiam do mais insondvel feminino e de que nenhuma se censurava.
           Preparei a salada com requintes especiais, e cheguei a casa da Mafalda propositadamente
atrasada, com um tigela transparente nas mos e o ar mais inexpressivo que consegui afectar.
           - S agora? Bolas, so dez da noite!
           Chamava-se Pedro - um nome que, para mim, influenciada pela memria de uma Heidi a escabrear
nas montanhas com um amiguinho pastor, tresandava a cloga.
           - Pedro? Que giro! - E virando-me para a Mafalda: Nunca mo tinhas dito...
           Era mentira, mas eu apostava que a Mafalda apreciaria aquela displicncia fingida por razes que
faziam parte do mais ancestral teatro feminino e que demorariam sculos a explicar.
           - Ol, Ana - disse ele.
           E dirigindo-se  Mafalda, sem perceber que se vingava:
           - Nunca me tinhas falado destas tuas amigas que, alm de serem encantadoras, se vestem
maravilhosamente...
           - Como  possvel, Mafalda? - perguntou a Pilar, fingindo que acreditava. - Como  possvel que lhe
tenhas omitido as duas pessoas mais importantes da tua vida?
           Eram perfdias brancas, que a amizade das mulheres comportava bem; uma espcie de praxe
inicitica para os novos homens apresentados.
           A Mafalda estava excitada de mais para responder porque, para ela, a nossa aprovao
relativamente ao Pedro era quase mais decisiva do que a dela prpria ou mesmo do que a dele a nosso
respeito.
           A Mafalda era uma mulher de mulheres, como eu ou como a Pilar, mas os homens pervertiam-na.
            mesa, experimentei a humilhao de o no ouvir pronunciar-se sobre a salada, e de o ver dirigir
todos os elogios para a sobremesa da Pilar de uma forma que quase me engasgou:
           - S a minha av fazia assim o arroz-doce!
           A culpa era minha.
           Esquecera-me de que os nossos homens jamais vibrariam com saladas ricas e criativas,
misturadas com queijo branco, natas ou frutos secos, porque, em matria de verduras, nada os arrebatava
a no ser, quando muito, a tradicional salada de alface e agries temperada com vinagre de vinho tinto e
azeite virgem graduado.
           E, espantoso: bastara-me aquela pequena desfeita para dessexualizar a sua figura aos meus olhos
e passar a julg-lo com uma exigncia de sogra.
           E enquanto disse  Mafalda, no dia seguinte, que o Pedro me parecera "vird", "maduro" e
"interessante", j  Pilar no hesitei em classific-lo de "seco", "demasiado seguro" e "pouco feminino".
           E embora ambas as verses lhe assentassem na perfeio a Pilar estranhou o ltimo juzo:
         - Pouco feminino?
           - Sim, pouco feminino - repeti. E sem certeza nenhuma: - O garanho atrai as mulheres, mas  o
sensvel quem as conserva!

        ***

        A verdade  que toda a testemunha feminina no envolvida pode substituir, com menos custos e
sustos, uma vidente.
        No passara uma semana desde o jantar em sua casa para que a Mafalda, a pouco e pouco, nos
comeasse a dar a entender que o Pedro no era a pea que pensava.
        A Pilar e eu ainda tentmos dissuadi-la dessa ideia com veemncia, no por acharmos que ela se
enganava, mas para prolongar o mximo que pudssemos a iluso que vivia.
        - Um homem no se conhece assim! - gritava a Pilar, com genuna indulgncia. - O que se passa  que
ele se sente inseguro de ti, compreendes? No sabe nada do teu passado, ouviu histrias a teu respeito,
tem medo de ser deixado como toda a gente, e uma coisa sabe ele: a mulher pode no ser grande
espingarda, mas oferece-lhe segurana, percebes? Segurana para viver ao lado dele at morrer e ainda
trat-lo na velhice!
        E lembrando-nos:
        - Aos cinquenta anos, isso pode valer muito mais do que uma mulher estimulante!
        E eu ajudava, com os lugares-comuns habituais:
        -  isso! Amar  uma coisa e viver  outra! As duas coisas nem sempre so compatveis!
        Mas j as trs pressentamos que o fim se aproximava quando a Mafalda, numa manh de chuva, me
falara a participar que estava grvida.
        - Grvida? - articulei, incrdula.
        Mas, por muito que o meu tom expressasse horror, nunca conseguiria traduzir o choque que aquela
notcia me provocava. - Sim, grvida! Ainda posso ter fflhos, ou j te esqueceste?
        E eu, estpida, s lhe conseguia perguntar: - E agora? O que vais fazer?
        - Sei l o que vou fazer! Soube s h vinte minutos e j me querias a caminhar para a parteira?
        Mas, no fundo, j pressentia que o Mundo jamais se enterneceria com o seu deslize
        Envergonhada, pediu-nos apenas que a deixssemos ter iluses um quarto de hora. S por um
quarto de hora, dizia ela.
        Mas a lucidez produzia monstros.
        - Nem penses! - gritei. - Nem sequer te afeioes  ideia! Falo por mim e no por ti! Se no tens
confiana nele e achas que ele te vai deixar, no alimentes a ideia nem por um quarto de hora, ouviste?
No te afeioes  ideia, no te afeioes  criana, porque na realidade no ests a fazer nem uma coisa
nem outra, mas a sonhar acordada!
        E agoirenta:
        - Vais estragar tudo!
        - Tudo? - perguntou, raivosa. - Que espcie de tudo?
        - Digo-te j: vais obrig-lo a revelar-se, a dizer-te o que deves decidir, a odi-lo! Pra j com isso,
hoje mesmo! Os homens deixam-se no limiar de uma boa recordao e nunca depois, percebes? Nunca
depois!
        E suplicante, como se fosse comigo:
        - No te maltrates, Mafalda. Por favor, no te maltrates ...

           ***

           A Mafalda no estava grvida, afinal, e tanto a Pilar como eu perdramos uma boa ocasio de estar
caladas.
        Por ironia, tnhamos sido ns a revelarmo-nos em vez do Pedro, s por causa de uma anlise
trocada.
        O medo do ridculo e dos vexames fora maior do que o apoio que ela nos pedira e isso fora
imperdovel.
        Agora, vamo-la de vez em quando, mas j no era a mesma coisa:
          - Mafalda! Que  feito de ti e do Pedro?
          - Ele  ptimo na cama, sabias?
          - Mas ests bem, vives bem assim?
          - Bem, no vivo. Mas no tenho alternativa, pois no?
          E eu cegava:
          - No tens alternativa? No tens alternativa? Claro que tens alternativa! Podes sempre deix-
lo, conhecer outra pessoa...
          - No posso deix-lo! As coisas no so assim to simples...
        - Falaste-lhe do susto que tiveste?
        - No - disse ela.
          - Porqu?
        Obrigava-a a dizer-me o que eu j sabia: - Porque um amante no  um amigo, Ana. Ests
satisfeita? E eu a agarrar-me quilo, para salvar a pele: - E era a que estava o problema, no era? Mas ela
no caa na ratoeira, olha quem: - No vejo porqu. H alturas em que nem os amigos so amigos, quanto
mais os amantes!
        E fora s nessa noite, em casa, jantando com os midos e aninhando-me na sua companhia, que me
lembrei de que a Mafalda nunca pudera ter filhos e do que sofria com isso.
        Falei-lhe imediatamente, como se a tivesse esterilizado e quisesse reparar o meu erro:
        - Mafalda! Ainda bem que te apanho, queria muito dizer-te uma coisa...
        No havia qualquer expectativa do outro lado do fio.
        - Diz l.
        -  que estive a pensar melhor, e... - E enchendo-me de coragem: - Por que  que no pedes um filho
ao Pedro?
        E antes de a deixar reagir:
        - Eu sei que ele  casado. Mas, como ests no limite mxmo para engravidar, e...
        Mas ela no me deixou acabar:
         - Olha, Ana, sabes o que te digo?
         - Sim?
         - Vai  merda!

            ***

           Com a Pilar, o processo fora outro.
           Era a mais misteriosa das trs, a mais discreta e secreta nos seus envolvimentos sentimentais.
           Isto costumava enfurecer-nos, a mim e  Mafalda:
           - No h direito! Tu esventras-nos! Tu queres saber tudo a nosso respeito porque dizes que s
sabendo tudo podes formar os teus prprios juzos!
           - E depois tu a ns no nos contas nada! Nunca! No nos apresentas aos teus homens! No os
descreves! A gente ouve-te falar deles como de personagens de fico! No mencionas sequer o nome
deles! Intelectualizas as confidncias! Falas por metforas! Bolas, isto no pode ser uma amizade
unilateral!
           - No  justo, percebes? No  justo!
           - A amizade tem direitos e tu sempre reclamaste os teus! Agora, chegou a tua vez de te
abrires...
           Era um interesse de rapina:
           - Vemos-te aluada...
           - Distrada!
           - Demasiado complacente...
           - Ser possvel que andes apaixonada e no nos digas?
           Sabamos que ela tinha os seus casos, de vez em quando, mas a existncia de um filho pequeno
sem avs sempre a tinham impedido de se entregar a paixes.
           Mas, ao contrrio do que pensvamos, daquela vez ela dispunha-se a contar-nos o que se passava.
Criando suspense, preparou-nos:
           - Sentem-se, que a histria  grande...
           A histria era grande, sim, mas banalssima, embora a cumplicidade do trio a tornasse
avassaladora.
           Conhecera-o no jornal onde trabalhava.
            casado?
           No. Est separado h muitos anos e tem a mulher a viver no estrangeiro...
           - Tem filhos?
           Tinha. Um a viver com a me, que s via duas vezes por ano.
           - Sofre com isso?
           - O que  que achas?
        - Que idade tem o mido?
        - Vinte e dois.
            - J no te chateia. Segue...
            A relao partira de uma empatia intelectual e as conversas multiplicavam-se de dia para dia.
Comeara a gostar dele sem se aperceber, depois de o eleger o companheiro dilecto das suas raras e
programadssimas sadas nocturnas.
            -  giro?
            - Eu acho.
            - Mas  objectivamente giro?
            - Cala-te, Mafalda - lembrava-lhe eu. - No s tu que dizes que os homens mais bonitos do mundo
so os nossos?
            Iam juntos ao cinema, ao teatro, ao ballet e  pera; davam passeios pela cidade e liam livros a
meias, s pelo prazer de trocarem impresses.
            -  culto?
           -  mesmo o nico defeito dele...
           Rimos as trs, sintonizadas.
           - Como  que se chama?
           - Jlio.
           - Jlio?
            - Sim, Jlio, que mal  que tem?
            - Nenhum, continua...
            A Pilar temia uma segunda ligao por causa de um antecedente extenuante que acabara em
litgio. Mas isso resultara bem com o Jlio: quanto mais ela hesitava, mais ele se definia.
            - Vocs, j ... ?
            - J.
            A Mafalda bateu palmas.
            - E foi bom?
            - Nem vos descrevo...
            - Conta!
            - No conto.
          - Vais contar, sim, minha estpida!
          - No conto, j disse!
          - Mas ele  ... ?
            - Um mestre. Um verdadeiro mestre, sosseguem...
            Queria ter outro filho, casar com ela.
            - Por essa ordem?
            - No, enganei-me.
          - Mas casar, mesmo casar?
          - Casar, mesmo casar!
            Feminina, ou provinciana, a Mafalda comovia-se:
            -  Pilar: d c um beijo, caramba!
            E a seguir eu, emocionada:
            - Chegou a tua hora, mida!
            A Pilar estava feliz, via-se que estava mesmo.
            - Ele j conhece o teu filho?
            - Sim, e j o levou ao futebol!
            Restava-lhe decidir e esperava que a apoissemos. Mas ns recuvamos, sem nos darmos conta:
            -  melhor no te precipitares, no sabes nada a respeito dele...
            - Antes de um ano, ningum conhece ningum!
            - E tens de concordar que Jlio  um nome estranho, no achas?
            Actuvamos nos medos dela, mas ela no parecia assustada.
            Confiante, reptava:
            - Querem conhec-lo?
            Hesitvamos. No sabamos ainda porqu, mas hesitvamos.
          - Conhec-lo?
        - Sim, claro! - espantava-se ela.
        - Quando?
        - Amanh,  hora do almoo, querem?
          Era evidente: tanto eu como a Mafalda adivamos a confirmao gloriosa. Se a Pilar viesse mesmo
a cumprir-se sentimentalmente, como tudo indicava, o grupo desmembrar-se-ia fatalmente e nada voltaria
a ser como dantes.
          - Amanh, no me d jeito...
          - Que pena! Eu tambm no posso ir...
          Mas, no era s isso: aquela alegria toda, e, mais do que alegria, a possibilidade real de uma
felicidade inteira e perdurvel, magoavam a nossa condio.
          Talvez no fosse inveja, porque no lhe desejvamos mal, mas acabava por ser, porque lho
causvamos.
          Ela estranhava, abrindo muito os olhos:
          - Esperem l: no fim disto tudo vocs vo dizer-me que no querem conhecer o Jlio?
          - Queremos, claro, mas...
          - Mas vocs iam gostar dele, juro-vos! juro-vos que iam gostar dele!
          E foi aqui que a perdemos, talvez aqui:
          - No fales antes de tempo, Pilar. A princpio, todos parecem fives...
          - Sim - repisava eu. - Antes de um ano, ningum conhece ningum!
          Ela no disse nada, mas arrecadou o sorriso e alguma coisa mudou no seu olhar.
          S uma coisa nos poderia ter salvo: que o noivo viesse a decepcion-la; mas no foi isso que
aconteceu, pelo contrrio: soubemos por terceiros, um ano depois, que a Pilar tivera dois gmeos e que
chamara Jlio a um deles.
          Aquele baptismo era, explicitamente, uma derrota nossa.
          Mais tarde ainda nos voltmos a encontrar, as trs, num almoo rpido e combinado em cima da
hora, mas s para confirmar, uma vez mais, que nos tnhamos perdido.

         ***
         Quando a vida, por qualquer razo, nos rouba os interlocutores e nos afasta das testemunhas do
nosso percurso,  um erro tentar substitu-los.
         Passei a dedicar-me aos filhos, como sempre fazia sempre que perdia alguma coisa, resolvendo
fazer da minha casa um lugar aprazvel para se viver.
         Consegui-o em pouco tempo, porque era ansiosa a perseguir objectivos.
         Ultimamente, j no tinha grande interesse por pessoas novas; se dantes um desconhecido era uma
vereda a explorar alegremente, agora era uma montanha cuja altitude me desencorajava.
           Ao que tudo indicava, perdera o interesse por meter o nariz na alma dos outros.
           Era mais um sinal de velhice, juntamente com um reumtico nas costas que, a pouco e pouco, foi
assumindo propores alarmantes - quando as bilhas de gs chegavam para abastecer os foges da casa,
deixava-as ficar mais de trs dias  entrada na esperana de que aparecesse um amigo da Ins para as
levar para a cozinha.
           At virar um frango me custava, dobrada sobre o forno.
           O meu filho era pequeno, ainda no tinha foras, e eu comeava a perd-las.
           No entanto, a vida j me tinha dado o bastante e no sentia falta de nada.
           A amizade, o amor, a paixo, o sexo, a ternura, a liberdade e a paz, todos esses fundamentos
estafados j eu experimentara em doses suficientes para saber que no era deles que dependia a
felicidade, mas de qualquer outra coisa de que precisvamos desconhecer at ao fim para nos aguentarmos
em prova.
         Levara os primeiros dez anos de vida a ouvir o que os meus pais me diziam, dez outros a apreend-
lo, os dez seguintes a descobrir as coisas por mim prpria e mais dez a errar constantemente, e chegava a
altura de capitalizar as perdas e ganhos a favor de mim mesma e dos que me tinham aturado.
         Recomecei a bordar, a tratar das mos e a ler - apesar de tudo, como se acreditasse em milagres,
voltara a pesquisar nas entrelinhas dos livros se algum j desvendara o mistrio.
        O meu filho pedia-me os primeiros conselhos sobre a vida e a Ins tinha um novo namorado.
        - Me - perguntava-me ela. - Quando gostamos de algum com muitos defeitos faz parte do amor
tentar modificar essa pessoa, ou  melhor desistir se no sentimos foras para isso?
        Eram questes da maior responsabilidade e eu verificava que, ao fim de uma vida inteira de
experimentao e achados, continuava a ter as mesmas dvidas do que eles.
        - Me - puxava-me o Afonso, cansativo. - Se o Caim e o Abel eram os dois homens como  que houve
descendncia?
        E s ento descobria que, afinal, os filhos valiam por eles mesmos; ultimamente, eram at eles que
me ajudavam a rever a matria.

       ***

          Foi mais ou menos nesta poca, j quase renunciante, que a Vida me voltou a desafiar.
          Conhecera um homem novo na empresa onde trabalhava.
          Mal reparara nele, mas o seu interesse por mim, numa altura em que j me julgava incapaz de
seduzir sem artifcios, corrompeu-me.
          Um dia, sem que eu esperasse, entrou no meu gabinete e declarou-se frontalmente.
          Era igual a tantos outros, com uma vantagem importante: fazia-me rir.
           data, viviam-se momentos difceis.
          As pessoas andavam inseguras e mal pagas, no respiravam sem desatar a tossir, no cabiam nas
camas onde dormiam e no viam o cu das janelas.
          Talvez por isso, iam ao cinema para ver matar os outros.
          A vida na cidade tornara-se to alucinante que, se algum se distrasse, morria atropelado debaixo
de um sonho ou de uma moto.
          O esforo que era preciso para contrariar as vocaes e as brincadeiras tornava toda a gente
acabrunhada ou alcolica.
          O sentido de humor e a leveza eram preciosidades que se tinham deixado de desejar.
          Como o campo.
          No primeiro dia em que me levou a jantar, quando lhe fiz a proverbial pergunta sobre o seu estado
civil, este novo homem respondeu:
          - Sou tudo.
          - Tudo? - estranhei.
          - Sim - disse ele - depende de si.
          E s quando me viu franzir a testa me elucidou:
          - Sou solteiro por enquanto, mas posso ser casado se voc quiser, separado se voc me abandonar e
vivo se voc morrer.
          Mais tarde, quando fomos para a cama, perguntou-me:
          -  virgem?
          Fui apanhada desprevenida, mas safei-me a tempo:
          - Sou. Mas se voc quiser posso deixar de o ser...
          E at quando me entregava a ele, sem pensar em nada, ele era capaz de sabotar os momentos mais
transcendentes s pela alegria de me ver dobrar o riso:
            - V-se logo que nasceste para isto. Olha a tua perninha a tremer?
            Chamava-se Rui, que longa srie j.
          - Rui era o nome do meu pai - contei-lhe.
          - Era tambm o da minha me.
          - Pois - fiz eu.
            - A srio! A minha me chamava-se Maria Rui, por muito que te custe a crer...
            Fazia-me rir. Fazia-me rir constantemente, e, mais tarde, passou tambm a fazer rir os meus
filhos:
            - Como  que te chamas?
          - Afonso.
          - Afonso, qu?
          - Afonso Malta.
          - No conheo.
          Discretamente, sem nunca se impor, foi-se tornando imprescindvel l em casa.
          Arranjava os candeeiros, ia buscar os midos s festas, de madrugada, substitua as bilhas num
abrir e fechar de olhos e ajudava-me nas compras do supermercado, o que me causava um prazer to
intenso como uma noite selvagem.
          Um dia, disse-me:
          - Agora acabou. Fazes-me uma lista e eu trago-te as coisas. No te quero ver mais cansada!
          E eu desatei a chorar, num pranto que o afligiu:
          - Pronto. No se fala mais nisso - disse ele. - Fao-te eu a lista a ti...
          Uma noite, cheguei-me  cama da Ins, e, cheia de medo do escuro, meti-me l dentro.
          - Se calhar, vou-me casar com o Rui...
          Mas ela saltou de alegria e abraou-se a mim a chorar.
          - Quando?
          - No fim de Abril.
          - At que enfim, me, j no era sem tempo!

       ***

         Afinal, o sexo  assim mesmo: quando  pouco e fraco sonhamo-lo doido, quando  muito e bom nem
nos lembramos dele.
           esquecido. Esquecido como um copo de gua que nos mata a sede ou um filme parvo que nos
distrai.
          Mesmo quando  ptimo.
          Estava grata ao Rui por me deixar ser tudo o que sou, de santa e de doida, sem sentir vergonha.
          Ns, mulheres, avanmos em tudo isto que se ve, mas continuamos a achar difcil a intimidade.
          Temos vergonha do corpo, da barrriga, das rugas, de cada pequena imperfeio como se fossem
crimes.
          Com ele, no.
          Esgotei todas as fantasias que me passavam pela cabea, sem me arrepender nem do corpo que
tenho, nem da minha mente porventura torpe.
          Chuchei no dedo como quando era pequena, chamei por outros homens nos momentos altos,
larguei todos os palavres que me ocorreram sem medo do inferno, troquei-lhe o nome conscientemente
no sei quantas vezes, e, de quando em quando, at lhe trocava o sexo dirigindo-me a ele como se fosse uma
mulher.
          Um dia disse-lhe "s bonita", com a voz embargada e as lgrimas a correr pela cara abaixo, e ele
entendeu que era de mim que eu falava sem fazer perguntas nem se sentir ameaado.
          Haveria mais homem do que isto, caramba?
          E eu gritava.
          E eu gritava, no, eu expulsava todos os gritos que tinha dentro de mim, que  completamente
diferente.
          Incrvel.
          Este tinha o condo de me pr a vibrar sem precisar de fazer nada de especial. Bastava-lhe
deitar-se de barriga para baixo, entre as minhas pernas, to perto que eu podia sentir-lhe o vento da
respirao, e comear a olhar para dentro do meu corpo, interessado, como se lesse um mapa.
          Era de tal maneira comovente a sensao que eu s vezes no a suportava. Dobrava as pernas de
olhos fechados, como um reflexo, e atirava-o ao cho com toda a fora.
          E partia.
          Voltava  infncia para fazer as pazes com os meus pais, dissolver ressentimentos, desculpar os
meus irmos.
          Queria-o para sempre ao p de mim porque, at agora, fora o nico que, verdadeiramente, tivera
a pacincia e o amor de me mostrar a mim mesma.
          Afinal, quanta gente - homens, mulheres, crianas e bichos - no tinha eu dentro de mim,
encarcerada!
          Gente que tinha esperado durante todos aqueles anos por uma oportunidade de sentir, uma
oportunidade de viver.
          E ele desencantou-as.
          Exactamente como o amor, dantes, fazia s mouras...

       ***

           Uma semana depois de ter partilhado com a Ins a inteno de me casar, o Rui disse que vinha
jantar e no apareceu.
           Tinha-lhe feito uma tarte de tomate e azeitonas, receita da minha me. Tinha arranjado as
unhas e rematado a ltima almofada. Tinha-lhe comprado na Baixa a Carmina Burana para que me ensinasse
a ouvir.
           No lhe falei para casa para confirmar se viria, porque eram dez da noite e ainda no perdera a
esperana de que chegasse.
         Comemos na sala, com o seu lugar vago, em silncio. O Afonso foi o primeiro a quebr-lo. Quando
falou, parecia gritar quando me disse baixinho:
         - Vai ver, me: o Rui ainda aparece por a para jogar xadrez comigo!
         Vimos, os trs juntos, o ltimo filme.
         Deixei-os ficar na sala at muito tarde como se abrisse uma excepo, mas, no fundo, o que eu
queria era companhia para no morrer sozinha.
         Morri sozinha.
         Durante uma semana no fui trabalhar; falei-lhe todos os dias para o nmero de casa, que no
atendia, e para o escritrio, onde nunca estava.
         Continuava a falar com as pessoas e a responder-lhes, mas estranhava aquele zumbido na minha
cabea.
         Era como se uma mosca me tivesse entrado por um ouvido, ao engano, e endoidecesse por se ver
capturada.
         A expresso dele, na minha mesa de cabeceira, j no me fazia rir.
           Os midos tambm j se calavam.
           Um dia, o telefone tocou a desoras e a voz de um rapaz novo informou-me:
           - Naquela noite, o meu pai pediu-me que ligasse para este nmero para lhe dizer que estava mal e
que queria ver a senhora. Mas morreu logo a seguir, e depois, sinceramente, com toda aquela confuso...
           Tinha-se esquecido de me avisar.
           Na noite em que vinha ter connosco para me gabar a tarte de azeitonas, o Rui chocara de frente
e batera com a cabea no volante. No colocara o cinto porque o trajecto era pequeno.
           - Pequeno? - lembro-me de pensar. - Do escritrio ao cu, acham pouco?
           No carro, encontraram umas flores sujas de sangue e um bilhete que dizia "Abril tem 30 dias, ou
trinta e um?" Morrera de madrugada, ao lado do filho, no hospital.
           As mulheres eram muito estranhas: o desgosto teria sido maior se ele me tivesse deixado.
Agora, choraria s de saudades, como a minha sobrinha.

       ***

       Passou-se um tempo.
       Da dor passei ao cansao, e, do cansao, a um medo enorme.
       O escritrio pesava-me, as costas queimavam-me mais do que nunca, e, de manh, o meu olhar
embaciava mais depressa do que o espelho.
       No o confessei a ningum, por me parecer uma aspirao marialva, mas pela primeira vez na minha
vida precisei de rectaguarda
         De repente, como se tivessem combinado, as pessoas da minha vida seguiam a delas.
         A Ins casara-se, a Leonor vivia do outro lado do rio e a Pilar desaparecera do mapa.
         To estranho.
         Era como se tivesse cegado de repente, e, de um momento para outro, tivesse que aprender a usar
bengala.
         Um dia, encontrei o Nuno, e, anos mais tarde, o Vasco. Ambos me fizeram a mesma pergunta:
         - Ests feliz?
         Respondi uma frase qualquer, mas no a verdade. Os outros eram sempre algum a quem no se
podia contar nada, porque, mesmo quando percebiam, nunca percebiam tudo.
         Claudiquei passados dois anos com um mdico amvel, muito civilizado.
         Ironicamente, foi graas ao seu bom trato que o pai dos meus filhos voltou a frequentar a nossa
casa e a jogar xadrez com o Afonso, como sempre fazia antes de nos separarmos; foi tambm em nossa
casa que ele conheceu a Mafalda e se apaixonou por ela. Um ano depois, o Afonso foi viver com eles.
         - No te preocupes com a tua amiga - sossegou-me. A Mafalda adora crianas!
         Espantoso. Desejara-lhe um filho em tempos, agora entregava-lhe o meu.
         Um dia, por qualquer razo que me escapou, dei comigo a ligar o nmero do Botnico.
           Enquanto o telefone chamou, receei j no me lembrar do nome dele.
           - Est, quem fala?
           - Sou eu - disse ele.
           Reconheceu a minha voz e alegrou-se de a ouvir.
           - Separei-me - contou-me. - Se a menina ainda me quiser...
           Eu no queria nada mas, mesmo assim, combinei almoar com ele num restaurante qualquer.
           Continuava alto e bonito, mas igual a si mesmo.
           Levou-me flores nesse dia e explicou-me a que espcie pertenciam. Embevecido, falou-me do
recorte das folhas, da penugem do caule, do seu nome em latim,
           No fim do almoo dei comigo a pensar que ele no era to estpido como parecia e que o amor,
afinal, tambm podia ser aquilo.
           Talvez fosse culpa da modernidade.
           Os amores verdadeiros j no se fabricavam, e as imitaes que se faziam eram to perfeitas
que a maior parte das pessoas no dava pela diferena.
         Mas, o que eram os amores verdadeiros? Estpida era eu, que ainda achava que os podia distinguir.
